Retrato de Luís Lavoura

Os dados estatísticos indicam que o número de automóveis ligeiros vendidos em Portugal em 2012 foi inferior a 100.000. Como o número de automóveis vendidos por ano tem que (a longo prazo) igualar o número de automóveis em circulação dividido pela vida útil (média) destes, concluímos que, a manter-se este número de automóveis vendidos, ou bem que o número de automóveis em circulação será de 4 milhões mas a sua idade útil será de 40 anos - algo de inconcebível - ou bem que o número de automóveis em circulação será 2 milhões para uma vida útil de 20 anos. Como esta última hipótese é bem mais plausível, podemos concluir que os portugueses se estão a encaminhar para um estado em que haverá apenas 2 milhões de automóveis em circulação. O que significa uma enorme redução em relação ao stock atual.

Ou seja: seguindo a tendência de muitos países civilizados, cada vez mais portugueses estão, pouco a pouco, a optar por não ter automóvel.

Retrato de Igor Caldeira

Estranhos factos: entre 1995 e 2007 a desigualdade económica, atravessando mais e uma década de governos de Esquerda e de Direita, manteve-se inalterada. 

Só com a crise económica é que nos fomos tornando num país mais igualitário.
Índice de Gini, 1995-2011

 

Em 2005 os 20% mais ricos ganhavam 7 vezes mais que os 20% mais pobres. Em 2011, ganhavam apenas 5,7 vezes mais. De uma diferença de 2 (EU 5, PT 7) passámos a apenas 0,6 (5,1; 5,7). Parece que a crise tem doído mais a quem mais ganha. Quem diria?

Desigualdade na distribuição do rendimento (S80/S20)

Retrato de Luís Lavoura

(1) Porque não há qualquer espécie de razão para que o Estado português esteja metido no negócio dos transportes aéreos, um negócio concorrencial no qual atuam muitas empresas, muitas delas capazes de oferecer aos clientes portugueses preços e condições equivalentes ou melhores aos que a TAP oferece.

(2) Porque as companhias aéreas tradicionais estão em sérias dificuldades económicas por toda a Europa, afigurando-se pois arriscado, para o Estado, continuar a fazer negócio num setor periclitante.

(3) Porque o Estado português, por estar impedido de colocar dinheiro na TAP, dificilmente a pode governar eficazmente.

(4) Porque, pela mesma razão, dificilmente a TAP pode obter o capital novo de que precisa para desenvolver-se para novos mercados, como necessita.

(5) Porque o futuro da TAP está na relação entre a América (sobretudo Latina) e a Europa, e para esse efeito nada melhor do que pertencer a quem já detem a maior companhia aérea da América Latina.

(6) Porque o grupo Synergy é muito rico e poderoso e tem portanto amplo capital para investir no desenvolvimento da TAP, ao contrário de Portugal que tem escassíssimo capital.

(7) Porque, se o Estado português não a vender agora, possivelmente a TAP acabará por falir ou, se o Estado a pretender vender mais tarde, já nem sequer arranjará comprador.

Finalmente, uma razão finamente racista: porque os judeus são melhores negociantes que os portugueses e o novo dono da TAP é um judeu com uma mais que demonstrada habilidade para os negócios.

Retrato de David Cruz

As histórias de entrevistas de emprego em que se pergunta a uma mulher se tem filhos e/ou se está a pensar engravidar são frequentes. Inclusive, não é incomum que as promoções sejam ponderadas em função de uma participação pouco activa na vida familiar.

No entanto, a questão é verdadeiramente inconveniente? Revela uma atitude discriminatória, no mercado de trabalho, sobre o sexo feminino? Porque não é perguntado aos homens se têm ou pretendem ter filhos? Não será legítimo que as entidades empregadoras conheçam a disponibilidade profissional dos potenciais trabalhadores a curto prazo, num ambiente em que as empresas se encontram constantemente ameaçadas pelo risco de falência? A competitividade entre instituições não obriga que estas procurem preencher os seus quadros com os trabalhadores que possam oferecer os maiores contributos?

Caras senhoras, na verdade, o problema não está no entrevistador/empregador, mas nas vossas casas, nomeadamente nos vossos maridos/namorados. Nas sociedades ocidentais, as maiores desigualdades de género, dentro da família, encontram-se nos países do Sul da Europa (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres continuam a assegurar a esmagadora maioria das tarefas domésticas e de cuidados aos filhos. De resto, os dados do Instituto Nacional de Estatística são conclusivos: as mulheres residentes em território português representam 58% dos beneficiários da licença parental inicial, 83% da licença parental alargada e asseguram 91% das faltas para assistência a filhos. Este fenómeno de sobrecarga de trabalho (laboral e doméstico) é designado na investigação demográfica e social como o “Segundo Turno” (“Second Shift") ou “Dupla Carga” (“Double Burden”). De resto, uma das principais explicações para o declínio da natalidade/fecundidade em Portugal deve-se ao facto das mulheres não pretenderem querer ter (mais) filhos, pois isso implicaria mais trabalho.

Como tal, coloque-se no lugar do empregador. Quem escolheria? Uma mulher, embora mais qualificada, desgastada física e psicologicamente ou um homem com os sonos em dia?

Retrato de Luís Lavoura

O orçamento de Estado de 2013 contem uma medida muito acertada, a qual aliás talvez seja a única medida acertada que contem: impõe um imposto especial, suplementar, às pensões de reforma mais elevadas.
Essa medida é acertada porque é necessária, porque é justa, e porque está de acordo com aquilo que a Segurança Social pública (SSp) deve ser.
É uma medida necessária porque, a longo prazo, a SSp não pode arcar com as pensões de reforma muito elevadas, as quais, embora sejam relativamente poucas, tendem a crescer rapidamente em número.
É uma medida justa porque as pessoas que auferem essas pensões o fazem, frequentemente, mercê de favores feitos pelo poder político às classes sociais às quais pertencem, não tendo jamais, ao longo da sua vida ativa, descontado para a SSp valores que justifiquem e sustentem tais pensões.
Finalmente, é uma medida que está de acordo com aquilo que a SSp deve ser, dado que a SSp só deve fornecer reformas de um valor mínimo (digamos, até 1000 ou 1500 euros mensais), devendo o restante da reforma ser proporcionado pelas próprias poupanças do reformado. Sendo que, apesar de a atual SSp não se guiar por esta visão, para lá deveria caminhar progressivamente.
Apesar de esta medida ser acertada, justa, necessária e totalmente apropriada, ela será com toda a probabilidade declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional. Este, julgando em causa própria dado que muitos juízes auferem reformas chorudas (conheci um que, há uma dezena de anos, recebia 3000 euros mensais), declarará quiçá que a medida viola o princípio da confiança, o princípio da unicidade do imposto, ou o princípio da proporcionalidade do imposto - qualquer coisa, ou todas elas juntas. Vai ser tiro e queda.

Retrato de Luís Lavoura

Não deixa de ser impressionante o poder que as empresas mediáticas dos EUA têm de vender "casos" para todo o mundo.

O último "caso" é, como toda a gente sabe, o do tiroteio numa escola primária no Connecticut. Sem dúvida que a matança foi impressionante. Mas hoje mesmo aconteceram outras matanças, por exemplo a de dez jovens raparigas mortas pela explosão de uma mina no Afeganistão quando procuravam lenha. Não tenho dúvidas de que não veremos na televisão imagens dessas matanças, ou então só as veremos por pouco tempo, e só hoje. Não saberemos os nomes das vítimas nem veremos os seus parentes a chorar.

Qualquer acontecimento anómalo nos EUA é transformado pelas empresas mediáticas americanas num produto altamente transacionável, que é eficientemente exportado para boa parte do mundo, que avidamente o compra, consome e comenta. Acontecimentos anómalos noutros países dificilmente são exportados da mesma forma.

Retrato de Luís Lavoura

Podemos não concordar com as teses defendidas pelo PCP mas, pelo menos, o seu objetivo nominal de defender os proletários, os trabalhadores, o povo, parece-me louvável.

Por isso fico horrorizado quando vejo, como ontem vi, o PCP a defender os privilegiados, os ricos, ou até a classe média.

Ontem ouvi o secretário-geral do PCP a defender que o valor das reformas, mesmo das mais elevadas, deve permanecer intocável. Jerónimo de Sousa referiu-se explicitamente, entre outros, aos juízes, que auferem frequentemente reformas de valor elevadíssimo.

Isto é de um oportunismo descarado e de uma total falta de princípios.

Que o PCP defenda os reformados que auferem pequenas reformas, incluindo aqueles que não descontaram o suficiente para aquilo que recebem, eu compreendo. Mas é inaceitável que o PCP se ponha a defender reformados que, não só auferem reformas de valor despudoradamente elevado como, ainda por cima, nunca descontaram quantias que justifiquem esses valores.

Retrato de Luís Lavoura

O governo vai ao mesmo tempo tentar vender a TAP e a ANA. A compradores distintos.

A mim parece-me que os dois negócios, o da TAP e o da ANA, são interdependentes. E cada uma das empresas pode facilmente afundar o negócio da outra. A TAP depende de ter em Portugal bons aeroportos que lhe possam servir de hubs. E a ANA depende para a utilização dos seus aeroportos de uma companhia que, como a TAP, os queira utilizar como hubs.

Não é para mim nada claro que este esquema, em que os aeroportos pertencem a uma empresa totalmente independente de - e potencialmente com interesses opostos a - quem os utiliza, não vá dar estrilho.

Em particular se a TAP fôr vendida a uma empresa essencialmente sul-americana enquanto que a ANA é vendida a uma empresa europeia. Nada nos garante que, no futuro, a empresa europeia não vá sentir fortes pressões no sentido de desinvestir nos aeroportos portugueses (especialmente no de Lisboa) com o fim de cortar as asas à empresa sul-americana.

Retrato de Luís Lavoura

Regularmente continuamos a ser bombardeados com pressões e informações sobre os graves prejuízos que a greve dos estivadores estará a causar à economia nacional e às exportações em particular, e com menções mal escondidas sobre a conveniência de o governo fazer manu militari terminar essa greve.

Há poucos dias, no entanto, saíram dados estatísticos sobre o movimento nos portos portugueses este ano comparado com o ano passado. Esse movimento aumentou 3%, não diminuiu. Isso em parte deve-se aos dois maiores portos nacionais, Sines e Leixões, nos quais não há greve (pois - a greve existe de facto em quatro portos, mas não nos dois mais importantes, e isso raramente é mencionado). Mas mesmo nos portos em que há greve o movimento só marginalmente (menos de 10%) diminuiu.

Vi também uma menção num jornal ao facto de a greve apenas afetar as horas extraordinárias. Não sei se é verdade. Em meu entender, qualquer trabalhador deve ter, a qualquer momento, o direito de se recusar a prestar horas extraordinárias, e tal recusa nem deve ser considerada uma greve. As horas extraordinárias devem ser isso mesmo - extraordinárias. Lamentavelmente, parece-me que muitas empresas em Portugal preferem abusar de repetitivas e regulares horas extraordinárias em vez de contratarem mais trabalhadores.

Quero também fazer notar que as administrações dos portos continuam a recusar-se a negociar com os trabalhadores, mas ainda não vi ninguém a acusá-las de serem também elas culpadas pelo prejuízo que a greve está a causar à economia.

Retrato de David Cruz

Vladimir Putin está preocupado com o envelhecimento e declínio da população russa, pois, segundo o mesmo, encontra-se em causa a soberania do país. Deste modo, apelou aos cidadãos, num tom moralista a lembrar os tempos da União Soviética, para que passassem a ter três filhos, prometendo apoios financeiros às famílias que estiverem dispostas a cumprir o suposto dever patriótico.

No entanto, importa colocar as seguintes questões: Os russos querem realmente ter três filhos? As autoridades possuem legitimidade para influenciar/definir as trajectórias reprodutivas dos cidadãos? Porque devem ser favorecidas as famílias com três filhos e excluídas as que têm menos? E os indivíduos que não têm filhos? É justo que as famílias que optaram por uma determinada trajectória reprodutiva (ter poucos filhos) financiem as famílias que optaram por outra trajectória reprodutiva (ter muitos filhos)?

A Rússia não será o primeiro nem o último país a querer interferir com rumo da natalidade. Recentemente, a China revelou a intenção de revogar a política de filho único, pois esta prática coerciva acelerou o envelhecimento demográfico, sendo expectável uma inversão rápida de políticas anti-natalistas para políticas natalistas.

No ocidente identificam-se alguns impulsos populacionistas, que certamente se tornarão mais frequentes à medida que se agrave a insustentabilidade dos sistemas de segurança social. No ano passado, em Portugal, a Presidência da República organizou uma conferência com o intuito de se discutir o “problema da natalidade”. Neste âmbito, a propósito da necessidade de intervenção estatal no aumento do número de nascimentos, António Barreto recordou o óbvio mas que parece estar esquecido: “(…) é o povo que faz filhos, não as autoridades”.