Retrato de Luís Lavoura

Clinton teve mais votos do que Trump. Mas perdeu. Uma consequência curiosa do sistema eleitoral americano, em que alguns estados têm muitos mais representantes do que outros e em que impera a regra do winner takes it all.

Retrato de Luís Lavoura

Há uns meses a TVI pôs no ar uma notícia alarmista sobre o BANIF. A consequência foi a expetável: desencadeou-se uma corrida ao BANIF e, pouco tempo depois, o banco foi-se abaixo.

Hoje a gracinha foi repetida por um eurodeputado socialista, Manuel dos Santos de seu nome, que lançou a opinião alarmista de que na Caixa Geral de Depósitos os depositantes com mais de 100 mil euros poderão ver o seu depósito transformado em capital da Caixa. Não sei se as pessoas darão tantos ouvidos a Manuel dos Santos quanto à TVI, mas, se derem, as consequências para a Caixa poderão ser bem graves.

Convem que as pessoas pensem um bocadinho antes de lançarem opiniões/notícias alarmistas sobre bancos. De um eurodeportado esperar-se-ia, que diabo, um pouco mais de sentido das responsabilidades.

Retrato de Luís Lavoura

Nos EUA os políticos são considerados inaptos para o cargo quando no passado tiveram aventuras extra-conjugais.
Em Portugal são considerados inaptos para o cargo se tiverem feito declarações falsas sobre serem licenciados.
Em ambos os casos a asneira é a mesma. Não é por se ter tido aventuras extra-conjugais nem por se declarar ser-se licenciado quando não se é que se passa a ser mau político. Estas manias parvas apenas dizem muito sobre as obsessões de cada país. Nos EUA há uma obsessão com o sexo; em Portugal, com as licenciaturas.

Retrato de Luís Lavoura

Ontem ouvi na rádio a seguinte história, da boca de uma pessoa que considero fidedigna. No estado norte-indiano de Haryana, uma rapariga foi violada. O caso foi para tribunal. Os anciãos da aldeia de onde o violador era originário fizeram pressão para que o violador não fosse condenado. Propuseram o seguinte arranjo: o violador aceitaria casar com a rapariga e, em troca, a acusação seria abandonada. Tendo em conta que a rapariga violada dificilmente poderia no futuro arranjar marido, os seus pais aceitaram o "negócio". Fez-se o casamento e a rapariga foi, como é costume na Índia, viver no seio da família do marido. Lá, fizeram-lhe a vida negra: maus tratos físicos e psicológicos e exigências de que a rapariga pressionasse a sua família no sentido de ressarcir a família do violador pelas despesas que esta tinha tido em tribunal. A história arratou-se durante anos e terminou há pouco tempo com o suicídio da rapariga.

Isto é apenas uma história nada atípica de coisas que se passam com mulheres na Índia. Coisas que estão bem documentadas e são amplamente discutidas na Índia. Mas que parece não chegarem aos ouvidos dos europeus, ou não lhes interessarem. Para os europeus, apenas os maus-tratos de que as mulheres são alvo em países de cultura muçulmana interessam. Para muitos europeus o islamismo é horrível porque nos países muçulmanos as mulheres são vítimas de maus-tratos. Mas nenhum europeu diz o mesmo da Índia. Os tratos frequentemente bem piores de que as mulheres são alvo nos países de cultura indiana não interessam aos europeus.

Retrato de Luís Lavoura

É sabido que em Portugal há a mania de distinguir os licenciados do comum dos mortais. Um licenciado tem o direito de ser tratado por "doutor" ou "engenheiro" ou "arquiteto". Um licenciado pode fazer alarde de uma profissão que não exerce nem nunca exerceu; por exemplo, um licenciado em biologia afirma-se "biólogo" ainda que nunca tenha feito investigação científica em biologia, e um licenciado em engenharia diz-se "engenheiro" mesmo quando não aplica nem nunca aplicou a engenharia que aprendeu.

Tudo isto é, evidentemente, ridículo. E, tal como é ridícula esta obsessão de chamar "doutor" a quem é licenciado, também é ridículo o escândalo que se faz quando alguém pede para ser tratado por "doutor" quando não é licenciado. E o cúmulo do ridículo é atingido quando um político é obrigado a demitir-se porque fingiu ser licenciado quando na verdade não o é. Como se, para fazer aquilo que faz - se é que faz alguma coisa -, a licenciatura lhe fosse servir para alguma coisa.

Retrato de Luís Lavoura

O Estado pretende resolver o problema das rendas baixas nas cidades permitindo que as rendas subam, mas atribuindo aos inquilinos pobres subsídios que lhes permitam pagar a renda.

Em minha opinião, esta ideia não tem pernas para andar. Uma renda baixa nas cidades de Lisboa ou Porto é de, tipicamente, 100 euros. A renda de mercado numa dessas cidades é de, tipicamente, 500 euros. Seria portanto necessário fornecer ao inquilino um subsídio mensal de 400 euros para lhe permitir habitar a sua casa com uma renda de mercado. É evidente que o Estado não tem possibilidades de subsidiar algumas dezenas de milhares de famílias ao ritmo de 400 euros mensais!

Eu penso que a ideia do subsídio está correta, mas tem que se lhe colocar um teto máximo: 100 euros por mês. Permite-se que as rendas todas sejam liberalizadas - isto é, que aumentem para o seu valor de mercado - mas fornece-se aos inquilinos pobres um subsídio que não pode ultrapassar os 100 euros mensais.

Qual será o efeito prático disto? Uma vez que uma renda em Lisboa ou Porto é de 500 euros mensais, os inquilinos pobres não poderão continuar a viver nessas cidades. Porém, fora das cidades, em aldeias, facilmente se arranja um apartamento por 150 euros mensais. Os inquilinos idosos e que já não têm razão de trabalho para residir em Lisboa ou Porto serão portanto, na prática, forçados a "sair da sua zona de conforto", na expressão de Pedro Passos Coelho, e a ir viver para a província. O que não será uma coisa assim tão dramática pois, de facto, no passado muitos desses inquilinos pobres viveram na província - na sua juventude, antes de migrarem para Lisboa ou Porto.

Irão falecer lá onde nasceram.

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Contrariamente aos libertários, eu sou altamente a favor de impostos específicos sobre determinados consumos. (Embora reconheça que esses impostos são perigosos porque, quando se tornam muito elevados, convidam ao contrabando e à contrafação dos produtos sobre os quais recaem.) E por isso concordo com o aumento previsto dos impostos sobre o tabaco e sobre o álcool e com a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas. Tal como concordei com a criação de um imposto sobre os sacos de plástico, imposto esse que teve evidentes efeitos positivos na diminuição do consumo estouvado / desperdício desses importantes produtos.

Considero, no entanto, que o governo foi demasiado tímido e continua a exibir um tendenciosismo imperdoável. Nomeadamente, o vinho deveria ser abrangido pelo imposto sobre o álcool. Esse imposto não deveria ser brutalmente progressivo como é: deveria ser proporcional ao teor alcoólico das bebidas, em vez de incidir quase exclusivamente sobre as aguardentes e somente de forma muito ligeira sobre a cerveja. Também, o imposto sobre o açúcar deveria, antes do mais, incidir sobre a própria matéria-prima: o açúcar que se compra nas lojas para fazer bolos em casa e o açúcar que nos oferecem conjuntamente com o café. Não aceito que o imposto recaia apenas sobre as bebidas açucaradas mas não recaia sobre o café açucarado nem sobre os bolos de pastelaria.

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O prémio Nobel da Literatura, tal como outros prémios Nobel, já estava largamente desacreditado. Agora, com a concessão do prémio Nobel da Literatura a um compositor de canções, o descrédito tornou-se total.

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Tenho a impressão de que, tal como as escolas privadas com contrato de associação cedo perceberam que não valia a pena continuarem com manifestações, porque a sua guerra política contra o governo já estava perdida, também os taxistas já terão percebido que, mais manifestação menos manifestação, a sua guerra política contra o governo já está perdida.

As guerras foram perdidas porque a opinião pública está contra eles. Tal como as escolas privadas com contrato de associação se aperceberam de que a opinião pública não entende o privilégio de que elas gozam em relação às restantes escolas privadas, também os taxistas se estão a aperceber de que a opinião pública não aprova os privilégios de que eles gozam ao ter uma profissão protegida por alvarás e limitações no acesso.

Por isso, mais uma ou duas manifestações e eles irão desistir dessa via, tal como as escolas desistiram. Não vale a pena manifestarmo-nos quando a generalidade da opinião pública está contra nós.

Retrato de Luís Lavoura

Ao longo de muitos anos, ao longo de muitas eleições autárquicas, todos os candidatos dos principais partidos à presidência da Câmara de Lisboa nunca faltavam, nas suas campanhas eleitorais, a ter um dia dedicado aos taxistas. Um dia de campanha em que se encontravam com os taxistas e procuravam aliar-se às suas causas, fazer-lhes promessas eleitorais, causar boa impressão junto deles.

Receio bem que esta tradição política autárquica, velha de muitos anos, tenha acabado. Creio bem que nas próximas eleições autárquicas, daqui a um ano, os candidatos dos principais partidos já não terão nenhuma ação de campanha dedicada aos taxistas.

Eu nunca percebi porque é que os candidatos à presidência da Câmara de Lisboa - cidade onde resido - prestavam tanta atenção aos taxistas e pareciam tão interessados em aliar-se a eles. Para mim, os taxistas sempre constituíram uma classe de pessoas de importância muito marginal e com a qual eu nunca tive grande interação (ando de táxi, em média, talvez nem uma vez por ano). Por isso, acho muito bem que esta tradição autárquica acabe, como calculo que vá acabar.