Retrato de Luís Lavoura

A invenção das golden shares deve-se, ao que parece, à antiga primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, no início da revolução neoliberal. Thatcher pretendia privatizar diversas empresas de serviços públicos garantindo, porém, que a sua posse permaneceria em mãos britânicas. Privatizou, portanto, introduzindo nos estatutos dessas empresas cláusulas que garantiam ao acionista Estado um direito especial de veto sobre certas decisões. As golden shares não passam, de facto, disto - de um direito de veto estatal.

 

De Thatcher para cá diversos Estados privatizaram, com introdução de golden shares, diversas empresas, sempre com este mesmo objetivo. Por exemplo, o estado federado alemão da Baixa Saxónia tem uma golden share na Volkswagen, cujo objetivo é impedir que essa empresa feche a sua fábrica em Wolfsburg, cujos custos de produção são superiores às de outras fábricas da empresa - por exemplo, a fábrica de Palmela.

 

Eu, como liberal, não concordo com golden shares. Compreenderia, no entanto, se, no caso de a Telefonica lançar uma OPA sobre a PT, o Estado português utilizasse o seu direito de veto para impedir tal OPA. Ao fim e ao cabo, foi precisamente para isso que as golden shares foram criadas - para impedir a tomada de empresas por estrangeiros. Seria portanto normal e expetável, e estaria de acordo com a prática histórica de diversos outros Estados europeus, se o Estado português utilizasse a golden share para impedir que a Telefonica comprasse a PT.

 

Não compreendo, porém, de acordo com esta lógica, que o Estado português tenha vetado a alienação da parcela que a PT detem na Vivo, porque não foi para isso que a golden share foi criada. A venda da participação na Vivo, tal como a sua compra no passado, não passa de um possível investimento da PT. A PT pode investir na Vivo como pode investir em montes de outras empresas, E pode decidir realizar capital vendendo a Vivo como poderia (eventualmente, noutras ocasiões) tentar realizar capital de outras formas. Trata-se de meros atos de gestão de investimentos, os quais deveriam estar ao abrigo do direito de veto corporizado pela golden share. A PT poderia, legiimamente, concluir que, sendo impossível um entendimento pacífico com a Telefonica na gestão da Vivo, mais valia vender a participação nessa empresa e utilizar o dinheiro assim obtido para pagar parte das suas dívidas, ou para comprar uma participação numa outra empresa qualquer. Trata-se de uma decisão natural de gestão, e é para mim difícil de entender que razão de Estado se pode sobrepôr a uma decisão empresarial nesta questão.

 

Eu admitiria que o Estado utilizasse o seu direito de veto se a PT decidisse alienar outros ativos seus. Por exemplo, a PT poderia querer vender a rede de cobre dos telefones fixos, que lhe pertence, a uma empresa estrangeira. O Estado português, compreensivelmente, exige que essa infraestrutura fixa, que se localiza em território português, não vá parar a uma empresa estrangeira. Eu compreenderia também se, no caso de a PT pretender encerrar (ou vender) alguma das unidades de investigação tecnológica que detem em Portugal, o Estado português vetasse tal decisão - o Estado português tem um interesse legítimo em que Portugal se desenvolva tecnologicamente, em que haja em Portugal investigação tecnológica e em que ela reverta a favor de empresas portuguesas.(*)

 

Mas uma participação na Vivo? Qual o interesse específico do Estado português em tal coisa? Não entendo.

 

Por isto considero que a utilização da golden share neste caso não passou de um capricho de péssimo gosto do governo português. O governo resolveu, por capricho, intereferir numa decisão normal de gestão de investimentos por parte da PT. Ao fazê-lo, ao utilizar a golden share para um objetivo diferente daquele que é o seu, o governo português introduziu um grande fator de insegurança no mercado. As empresas portuguesas, como o BES, que detêm participações em empresas com golden shares, ficaram a saber que o Estado português pode utilizar essas golden shares, não apenas para impedir a tomada dessas empresas por empresas estrangeiras, mas também para vetar decisões normais de gestão - como o investimento ou a realização de mais-valias - por parte dessas empresas.

 

Um precedente perigoso.

 

(*) Neste post supus, por simplificação, que a nacionalidade "portuguesa" ou "estrangeira" de uma empresa seja algo que se possa claramente definir - o que cada vez menos é o caso.

Então e o João Cardia não

Amílcar Figueiredo (não verificado) on Quarta, 07/07/2010 - 17:28

Então e o João Cardia não escreve nada sobre este assunto?

Retrato de João Cardiga

Fazendo a vontade...

João Cardiga on Quarta, 07/07/2010 - 20:34

Quem sou eu para negar o desejo de um leitor e comentador deste blogue.

 

Sendo assim:

 

a) pessoalmente fui contra esta decisão, embora não tenha muita informação. Pareceu-me que o valor (pelo que foi dito) era mais que razoável, para a a PT incorporar esse encaixe e poder ter espaço de manobra e folga que a própria Telefónica perderia um pouco, e que é tão importante no tempo que corre (parece-me um optimo tempo para se ter liquidez).

 

b) dito isto, e agora que a poeira assentou um pouco, julgo que poderá existir interesse "nacional" na opção do Estado. Efectivamente a vivo representa neste momento o maior ativo da PT. Sem o mesmo, o risco de OPA, que já é bastante elevada neste momento poderia aumentar ainda mais, pois a PT ficaria bastante reduzida em termos de actividade. Nesse sentido o Estado poderá ter querido salvaguardar esse risco já agora em vez de o fazer num futuro, onde não sabe se ainda terá poder para tal.

 

c) e dito isto, existe algo que me parece muito estranho no valor. Ou o valor oferecido era mesmo muito elevado (que não me parece ser o caso), ou sendo o valor real desse activo ficamos com a noção de quanto vale a PT sem a VIVO: quase nada. Do que foi dito, parece-me que 50% da Vivo vale 90% da valorização bolsista da PT. Ou seja a PT sem a vivo vale apenas 10%. E isto a ser verdade, então efectivamente o Estado não evitou a venda da Vivo, mas sim a venda da PT.

 

Julgo que se falou muito mas ainda se soube muito pouco e daí eu ainda não ter escrito nada sobre isso. Gostava de saber para é que a PT queria os 7,15 mM euros e onde iria ser utilizado. Como disse inicialmente parece-me errado a decisão do Estado. Parece-me também que foi abusiva, no entanto se calhar e no meio disto tudo se calhar pode vir a ser das poucas decisões do Governo que serão beneficas para o país e que vai custar bastante caro a Socrates.

 

E para acabar gostaria de dizer que isto é uma questão muito dinamica e com muitos efeitos que ainda são dificeis de antever... 

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