A "solução" encontrada pelo governo para o pagamento de portagens nas SCUTs é, como já vem sendo usual neste país, totalmente orientada para os utilizadores repetitivos do sistema de transportes em questão, mas desconsidera totalmente os seus utilizadores ocasionais ou eventuais.
Eu vivo em Lisboa e só ocasionalmente e imprevisivelmente vou de carro até ao Norte e necessito de utilizar uma SCUT. Posso ter de fazer isso a qualquer momento mas, por regra, não o farei mais do que uma vez por ano, e não farei mais do que uma ou duas dezenas de quilómetros numa SCUT por ano. Que sentido faz obrigar um utilizador como eu a ir gastar dez euros, ou mais, num chip que provavelmente só servirá para pagar um euro de portagens por ano?
Para todos os efeitos práticos, este chip constitui um imposto automóvel extra. Os automobilistas são obrigados por lei a comprar um chip que, possivelmente, nunca ou só muito raramente irão utilizar.
Fica-se com a clara noção de que, como é prática usual dos governos, esta obrigatoriedade se destina basicamente a criar uma renda para uma determinada indústria nacional, neste caso, para a produtora dos cartões Via Verde. A partir de agora, todos os automobilistas serão obrigados a comprar um cartão Via Verde, mesmo aqueles a quem esse cartão nunca ou raramente servirá para alguma coisa. De facto, para cúmulo da perversidade, passará a haver dois tipos de cartões Via Verde: os cartões de segunda categoria, que são obrigatórios para todos os automobilistas mas só permitem pagar as portagens das SCUTs, e os cartões de primeira categoria, mais caros e que permitem, não apenas pagar nas SCUTs mas também pagar nas outras autoestradas. Claramente, o objetivo desta marosca governamental é criar uma renda, um mercado cativo, para a empresa que produz a tecnologia Via Verde.
Desde já afirmo que sou favorável ao pagamento de portagens em todas as atuais SCUTs e que nada tenho a objetar contra esse pagamento ser feito através de um identificativo automático de matrícula. Mas - esse dispositivo deve ser gratuito. Os automobilistas que apenas eventualmente, ocasionalmente e imprevisivelmente têm que utilizar uma SCUT não devem ser obrigados a pagar um novo imposto de circulação para poderem andar por aí à vontade.














A questão da privacidade não é relevante?
Francisco (não verificado) on Quarta, 23/06/2010 - 18:03Com estes identificadores, em menos de um ano será possível obter e usar (com relativa facilidade) um leitor de identificadores sem que os portugueses consigam ver que estão a (ab)usar da sua privacidade - acha isso razoável?
resposta
Luís Lavoura on Quinta, 24/06/2010 - 08:40A questão da privacidade existe, mas não é em minha opinião muito relevante:
(1) Um automóvel não é um bem privado. Pode ser utilizado por muitas pessoas (da mesma família, ou nem isso). O facto de o meu carro estar num determinado local não quer dizer que eu lá esteja - eu posso ter ido à boleia ou de combóio para outro sítio qualquer, o carro pode estar a ser utilizado pela minha mulher,etc.
(2) O identificador de chips é estático e pode quando muito afirmar que um carro passou num determinado local. Não acompanha o movimento do carro.
(3) Já existem potenciais violações da privacidade muito mais grosseiras sob a forma dos telemóveis. Um telemóvel emite continuamente radiação, que permite continuamente saber onde ele se encontra. O telemóvel é um objeto muito mais pessoal do que um carro. E ninguém se queixa da violação da privacidade pelos telemóveis...
(4) Já há chips - da Via Verde - em metade dos carros portugueses, e nunca ninguém se queixou de que eles constituíssem uma violação da sua privacidade.
O chip além disso pode ser útil para controlar à distância coisas como saber se um carro tem a inspeção e o seguro automóvel em ordem, etc. Penso por isso que o chip tem mais vantagens (essas) do que inconvenientes (violação da privacidade).
Até que ponto...
João Cardiga on Quinta, 24/06/2010 - 11:54Para mim a questão aqui é até que ponto é legitimo o Estado obrigar-te a perder a tua privacidade em nome de eficiência? Para mim é assustador que exista uma tão vasta aceitação desta troca. Pode parecer pouco no caso concreto mas o principio que está a ser quebrado é de extrema importância e devia de ser inviolável. Pois esse é um dos nossos garantes de liberdade. Dás o exemplo da Via Verde, mas nesse caso a adesão é voluntária. Eu por exemplo nunca tive e julgo mesmo que nunca vou ter. Neste caso do chip a adesão é obrigatória.
Por ouitro lado para mim também é muito negativo a contrução destas bases de dados. Se a tendência futura for esta em breve (duas decadas) será facil e corrente (até socielmente aceite) que uma entidade (Estado ou privada - p.e. o teu empregador) saiba tudo sobre ti. Agora imagina como isso afectará a sociedade.
Relativamente às SCUT's e ao chip existe um pormenor que escapou mas que tem um efeito brutal se tal principio for aplicado noutras instâncias: o daq não aceitação do papel-moeda como forma de pagamento, algo que julgo que nem é legal...
Concordo com o Francisco,
Luís dos Santos (não verificado) on Quarta, 23/06/2010 - 18:13Concordo com o Francisco, acho que a questão ainda mais pertinente é a invasão da privacidade e o retirar da escolha da forma de pagamento ao cliente.
É mais um belo exemplo da medidinha: a ideia luminosa vinda do espaço sideral para dar que falar, mas que na prática não serve para melhorar a vida de ninguém, quanto muito serve é para a piorar.
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