Retrato de Igor Caldeira

 

 

 

Espero com este título cretino ter atraído muitos leitores. O título pode ser cretino, mas a ideia é partilhada por muitos e, nesse sentido, merece ser investigada. 

 

§1 - Forçando a realidade às nossas crenças...

Se há coisa que a prolongada convivência com amigos economistas me ensinou, é que o uso de estatísticas por leigos (como eu) na matéria presta-se a muitos disparates. Na verdade, como os próprios admitem, até entre os economistas o mau uso, quando não o abuso, de dados estatísticos é tudo menos raro. 

 

Vem isto a propósito de um artigo publicado no jornal francês La Tribune, onde se diz o seguinte: 

 A dívida pública aumentou mais nos países que aplicaram as receitas de rigor orçamental da troika. É o que se conclui das estatísticas publicadas segunda-feira pelo Eurostat.

 

O artigo vem acompanhado de dois gráficos, um que nos dá dados relativos a um ano e um trimestre (sim, eu sei; ridículo) e outro que nos dá os dados relativos à dívida pública na UE (irrelevante). E é a partir daqui que nos querem convencer que a austeridade provoca dívida. 
 

§2 - Alternativas

Devo frisar que não estou a dizer que o modelo que tem vindo a ser seguido é o correcto. É preciso ser falho de imaginação ou inteligência para crer que a cada momento da vida temos apenas duas soluções; no caso concreto, que temos apenas a escolha entre a austeridade da troika ou o "investimento público" que muita Esquerda ainda advoga, sem nunca explicar de onde viria  o dinheiro, posto que ninguém, à parte a própria troika, nos quer emprestar a taxas de juro que possamos pagar (presumindo que podemos pagar as taxas da troika, o que muitos põem em causa). Há outras soluções, como o default/bancarrota e saída do euro. Há quem diga que essa é a única solução. Talvez seja, mas não é isso que aqui me preocupa.

 

§3 - Let's get down to business

 

O que me preocupa é a afirmação de que a austeridade é que tem criado a dívida. Para se afirmar isto, espetar dois gráficos de excel com dados relativos a um ano ou 15 meses é inacreditável. O que a seriedade e a honestidade intelectual exigiria seria colocar duas questões antes de dar esta resposta: 
Primeira questão: Até à implementação dos programas de austeridade, como se comportou a dívida pública nos países em causa?
Segunda questão: Sem implementação dos programas em causa, que têm assegurado o financiamento destes países, como teria evoluído a dívida pública?

 

3.1 - Até à implementação dos programas de austeridade, como se comportou a dívida pública nos países em causa?

Ora, quanto à primeira questão, e usando a mesma fonte (Eurostat), vemos que, no período de 2003 a 2012 (uma década é sempre um período de análise mais sério que um ano) o momento de viragem e forte crescimento da dívida pública é 2008, e não 2010 ou 2011 - portanto, antes da implementação dos programas CE/ECB/FMI, e exactamente no momento em que a crise financeira desembarca na Europa. Isso é bem visível nos casos da Espanha e da Irlanda, que tinham contas públicas bastante saudáveis até esse momento e superavits orçamentais frequentes. O caso da Irlanda é particularmente chocante e demonstra bem os perigos de ter uma visão intervencionista da economia, em que poder político e poder financeiro estão sempre entrelaçados. 

 

Já no caso da Grécia e de Portugal, não tenhamos dúvidas de que a crise orçamental não era uma questão de SE, mas de QUANDO iria chegar. A dívida pública nunca parou de aumentar ao longo da década em análise, nunca tiveram um excedente orçamental e, dado que esse permanente gasto nunca foi acompanhado de um crescimento económico que permitisse superar (e assim, justificar) os sucessivos défices, pode apenas concluir-se que o que a crise financeira mundial fez foi estugar o passo a um desastre anunciado. 

 

3.2 - Sem implementação dos programas em causa, que têm assegurado o financiamento destes países, como teria evoluído a dívida pública?

Quanto à segunda questão, não me parece descabido que se continue a argumentar que sem austeridade imposta pela troika, a economia portuguesa poderia já estar a crescer. De facto, a austeridade que adviria [advirá?] da falência do país e saída do euro permitiria [permitirá?] (à custa de terríveis sacrifícios durante um a três anos) recuperar mais rapidamente e voltar a crescer muito em breve. Se virmos por exemplo o caso da Estónia, o embate com a crise foi muito mais violento que no nosso caso. Mas ao fim de dois anos o desemprego está a diminuir fortemente e a economia já recuperou. 

 

A questão é que muitos anti-troika parecem acreditar que, sem troika, haveria dinheiro para pôr a economia a crescer. Mas, como bem sabemos, as taxas de juro da dívida pública são absolutamente incomportáveis. Ninguem está disponível para nos emprestar dinheiro a taxas que possamos pagar. De modo que a resposta à segunda questão é simples: sem troika, a dívida pública teria explodido durante mais uns meses até que seríamos forçados ao default.

 

§4 - Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

 

Devo dizer, em jeito de conclusão, que nada disto impede de dizer algumas coisas:

  • que o programa em causa está errado, porque não equaciona o problema do crescimento (o que não quer dizer que o crescimento só possa ser gerado pela dívida - tivemos, como mostrei, uma década de acentuado crescimento da dívida sem com isso se gerar crescimento);
  • que a austeridade, por si só, não resolve tudo (mas isso, nem os defensores internacionais da austeridade dizem: daí a insistência nas reformas estruturais);
  • que as reformas que estão a ser implementadas são insuficientes e estão nos sectores errados; 
  • que não se antevê nenhuma saída para a crise no contexto actual - bem pelo contrário.

 

§5 - A inconsequência dos anticapitalistas

 

Sucede apenas que pegar nuns dados aleatórios e afirmar a descoberta de uma verdade inatacável nem é bom, nem fica bem. Os críticos da troika terão de fazer mais e melhor. Os melhores de entre eles sabem bem qual é a alternativa, e estão dispostos a aceitá-la. Outros, ainda andam a sonhar com amanhãs que cantam e empréstimos imaginários de capitalistas transnacionais beneméritos. O que, vindo de gente que se diz anti-capitalista, tem muito que se lhe diga

(Nos entretantos, recomendo vivamente a leitura das alternativas às políticas que temos vindo a seguir.)

Portugal Estado democrático

filipe ramos (não verificado) on Terça, 26/11/2013 - 16:38

O Estado... esse Grande PATRÃO

Os empregados do Estado em Portugal existem fundamentalmente para melhor enganar, aldrabar, vigarizar, desviar e roubar o próprio PATRÃO (Estado) em completa legalidade, impunidade e imunidade pois há que precisar que tudo na Constituição Portuguesa se encontra reunido de uma forma magistral e ''exemplar'' para favorecer, beneficiar e proteger em exclusivo os empregados do Estado e em nada o PATRÃO.
Os empregados do Estado são todos aqueles que recebem uma remuneração em troca de um ''suposto trabalho'' na chamada função pública. Ex. : Presidente da Répública, Primeiro Ministro, Ministros, Parlamentares, Secretários, câmaras, finanças, justiça, militares e etc., etc., etc., etc., etc. ! Devo acrescentar que mais de 70 por cento da população ativa em Portugal ''trabalha'' na função pública.
O engraçado e mais estranho e estúpido nisto tudo é que o PATRÃO (Estado) é o próprio POVO que não tem poder absolutamente algum nas decisões da Répública Portuguesa e nunca terá porque a Constituição Portuguesa que já nos vem do tempo de Salazar e sem grandes, verdadeiras e profundas reformas assim não o permite ao contrário do poder absoluto dos nossos dirigentes Políticos que sempre mandaram com mãos de ''ditadores de nova geração'' e cara de Anjos no próprio PATRÃO (POVO).
Muito difícil de se encontrar PATRÃO mais sem voz, condescendente, ignorante, generoso e cego. Também por isso é que nunca houve, não há e nunca haverá melhor ''emprego'' que o de ser empregado do Estado (POVO).
CONCLUSÃO : Temos que acabar completamente e radicalmente com esta Constituição pois é económicamente impossível uma empresa funcionar com 70 directores e 30 trabalhadores (escravos) e criar uma nova Répública de raíz ou adotar um sistema político estrangeiro que se saiba bem funcionar para todos como é o caso por exemplo do sistema político Suiço onde o povo é na maioria dos casos em leis e decisões do País solicitado a votar e qualquer pessoa se pode indivídualmente candidatar ao governo não havendo para isso a obrigatoriedade de se pertençer a qualquer partido político e a tudo isto sim se pode chamar democracia.
ASSINADO : Aremando Zarpa
Post.S. Quanto mais se enfraqueçe um Povo mais se Fortaleçe e Enriqueçe um ''Político''.

A declaração de Danieis

João Saro (não verificado) on Sexta, 26/07/2013 - 05:45

A declaração de Danieis Oliveiras de que "a austeridade tem falhado (apenas e só com este argumento) porque tem criado mais dívida quando queriam o contrário" é de brandar aos céus.

É, na verdade, um discurso fácil de propaganda política porque parece fazer sentido... mas não faz.

Vamos a matemática e esquecendo se outra política totalmente oposta era melhor ou não (sinceramente, não sei dizer):

Se o memorando prevê que o país não cresça durante boa parte do período em intervenção e entretanto tenha défices entre 3 a 5%, como é possível matematicamente não ter a dívida total/PIB anual a crescer?

Mesmo com um crescimento nulo, só com um superavit conseguiria fazer a dívida descer (dado que o PIB mantém-se, a relação face a este não pode melhorar nunca com qualquer espécie de défice... nem com um 0,001%).

Portanto, só uma relação aumento do PIB vs défice sustentável ou então, pura e simplesmente, superavit suficiente para uma estagnação/recessão podem permitir a diminuição da dívida face ao PIB.

Sair do Euro e Recentralizar Portugal

Francisco (não verificado) on Quinta, 25/07/2013 - 01:41

Os sacrificios de sair de uma união monetária s~eo quae sempre superados em larga medida depois de 6 a 8 meses. Há que se ser honesto, os sacrifícios de nos mantermos no euro, para além da humilhação serão mais do mesmo por decadas, subcidiados com emigração em massa.

Há muita gente a querer o escudo para muitas coisas, e
isso complica o debate.

Aquilo que os comunistas, na sua sociedade de mínimos como lhe chamam em Cabo Verde sobre o que passaram, fariam com a moeda realmente não haveria nem bancarrota, nem existiriam relações com o mundo exterior (isolamento do país voluntário ou não). Mas isso são soluções parcelares para o problema maior e sistémico que tensescreve o Portugal destes últimos 10 anos: Portugal fora da História.

Que voltar ao escudo promete que não haveria bancarrota interna isso é quase verdade, tão verdade que doi ver ser negada. Quase porque depende que não haja deficite nos gastos e receitas do estado, caso contrário o estado poderá criar hiperinflação (embora para tal teriamos de ter deficits superiores a 10%). Ter hiperinflação seria a mais provável das calamidades se saíssimos com um governo de esquerda socialista ou bloquistas e menos provável se for dos comunistas, PSD e menos ainda se for com apoio centrista.

A verdade é que dentro do euro nunca pagaremos a dívida externa, mas saindo sim poderemos pagar. Dentro do euro humilharemos a nossa orgulhosa nação todos os dias, e por estarmos numa situação debelitada seremos alvo de numenclaturas dos que nos quiserem subjugar sem que tenhamos direito de resposta (vide Hanna Arendt sobre como puderam os Judeus ser ostilizados).

Sair do euro, seja nas diferentes modalidades (existem mesmo muitas modalidades) poderemos de ter as exportações a pagar a dívida, teriamos de ter o saldo da balança comercial positivo (e de pagamentos em geral também claro), e esse excesso seria utilizado pelo BdP para pagar a dívida. Isso seria um roubo às empresas sim e não, quanto às familias isso é muito discutível pois estas raramente participam na relação internacional a não ser que tenham membros no exterior a serem sustentados por elas ou vice versa.

As empresas devem-no entender como a restituição pelo financiamento de ter uma moeda nacional desvalorizada e a liquidez interna que a nova moeda dará para realizarem investimentos e criar emprego.

Hoje chegamos a ter exportações que suplantam as importações, mas é temporário, pois tal deve-se ao facto de o mercado interno ter decaido de forma brutal, importamos menos, e empresas dependentes do mercado interno estão a exportar (embora muitas vezes a custo zero para sobreviver). Tal acontece ser insustentável. Para mantermos as exportações a suplantar as importações tem de haver investimento, pois a capacidade productiva sem investimento deverá estar no limite. E muitas empresas que mantém as exportações estão falidas e necessitam de liquidez imediata, coisa que o sistema bancário nacional dentro do euro não pode fornecer (mesmo havendo mais poupança, estranho não é?).

Pois só como moeda nacional será possível às empresas Portugueses obterem liquidez na banca nacional para realizarem investimentos nos sectores de bens e serviços transaccionáveis.

A questão de que deveremos ter produtos de elevado valor acrescentado é uma falácia pois tal só é possível com investimento na educação e aplicação das competências aquiridas ai sobre as industrias.

Continuar no euro implicará ao estado diminuir inclusive a oferta de ensino universitário, e ai as bolsas de investigação, que são a pedra filosofal deste transformar chumbo bruto em ouro.

Por outro lado dentro do euro, o pouco dinheiro que tivermos na economia interna sai do país para pagar ao exterior algo de completa contranatura que provoca o total esvasiar da liquidez interna que é necessária para realizar investimento.

Uma moeda interna seria ainda uma barreira preciosa para desaconcelhar importações, pois promoveria a produção interna. Sendo que grande parte do que importamos poderia ser produzida em Portugal, uma desvalorização de 20% seria mais que o necessário para incentivar as empresas Portuguesas a produzir o que se importa que poderiamos produzir, para além que lhes daria uma margem extra de 12%-7% de negociação nos mercados internacionais.

Aumenta-se a produção, cresce a economia, baixa o desemprego, o estado equilibra o déficite e o país pode pagar a dívida externa, tanto a pública como a privada.

Dentro disto tudo é importante que Portugal se cole à Inglaterra e acompanhe de perto a negociação inglesa de um estatuto de associado com a UE, que a meu ver tal será negociado para a EFTA, organização de que Portugal e o RU foram fundadoras.

Se sair do Euro implica sair da UE, a verdade é que os Acordos do Porto do Espaço Económico Europeu - EEE (ing. EEA) e de Shengen continuarão vigentes, e o país poderá integrar automaticamente na EFTA especialmente se o RU o fizer também.

Pior que não sair do Euro é sobreviver ao desastre do euro impludir. O qual nas actuais configurações é a meta inevitável.

http://www.publicserviceeurope.com/article/3794/british-would-prefer-efta-membership-to-eu-poll-finds

  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente

Mais informação sobre as opções de formatação