Retrato de Miguel Duarte

Assistimos a algo fantástico no nossa sociedade ocidental do século XXI. Após termos passados séculos a livrar-nos do poder excessivo da religião e da Igreja Católica (no caso português desde a nossa fundação), de termos sofrido sobre a inquisição, de muitas vidas terem morrido a lutar por conceitos como a laicidade, a democracia moderna e a liberdade de expressão, parece que nos preparamos por sucumbir perante o politicamente correcto no que toca à evolução filosófica “espiritual“ do ser humano.

Enquanto as várias religiões, organizações que se baseiam com raras excepções (ex: cientologia) em histórias e conceitos com milhares de anos, a necessitar em muito de ser alterados, dado estarem deslocados da evolução social que ocorreu, mantêm um direito irrestrito ao proselitismo, direito esse com que nos deparamos diariamente na comunicação social, nas nossas ruas, às nossas portas e nas nossas caixas do correio. O direito à não religião e tudo o que se lhe aplica, que deve incluir obviamente o direito ao proselitismo não religioso e o direito a apontar as falhas e incongruências da religião, encontra-se ameaçado sob o peso do politicamente correcto.

Em nome do politicamente correcto impede-se a sociedade de evoluir filosoficamente e de encontrar alternativas racionais às crenças no sobrenatural, algo extraordinário, pois surge numa sociedade em que mais do que nunca o conhecimento científico e a evolução filosófica oferecem alternativas racionais, com os pés assentes na terra à crença em um deus ou deuses.

É também de extraordinária gravidade que tal seja feito com base num conceito como a “ofensa”, algo extremamente vago e que nos pode rapidamente conduzir rapidamente a guerras civis religiosas por as próprias religiões se ofenderem facilmente umas às outras. É sempre bom lembrar que é considerada blasfémia (com direito à pena capital), numa das principais religiões mundiais, falar mal de Deus, dos seus profetas e até afirmar que Jesus é filho de Deus. Defendendo-se as religiões da ”ofensa”, tal significaria que qualquer religião poderia facilmente defender-se de toda e qualquer crítica, bastando para tal ”ofender-se” perante qualquer falha que lhe fosse apontada.

Ao nos curvarmos perante as religiões e as querermos defender da “ofensa” estamos por isso tão simplesmente a abrir novamente o caminho para a intolerância religiosa, uma característica inenerente às religiões monoteístas (se só existe um Deus e uma verdade, quem defende um outro Deus ou verdade está obviamente a ofender-me), e a consequente violência que daí surgirá, certamente muito superior a qualquer violência actual dos ofendidos, habituados ou a habituarem-se a viver numa sociedade plural e a defenderem-se com a caneta ou o teclado e não com as armas. Para sabermos isto não é necessário prevermos o futuro, basta olhar para a história da civilização ocidental.

A única forma de se manter a paz religiosa e a liberdade de religião e não religião é assegurar um direito irrestrito à liberdade de expressão. Quem se sente ofendido perante argumentos contra as suas crenças só tem que aprender a viver com isso e usar do seu direito, se assim entender, de contra atacar com argumentos mais fortes. O preço de uma sociedade livre é estamos sujeitos a qualquer momento a ver as nossas crenças (religiosas e ou não), ser colocadas em causa. Mais do que um custo tal é a grande vantagem de uma sociedade livre, pois são os choques intelectuais e debates fortes de ideias que fazem uma sociedade avançar.

Gostei muito de ler este

Lu (não verificado) on Terça, 01/12/2009 - 19:57

Gostei muito de ler este texto. Expressa não só a liberdade de todos devíamos ter de acreditar no que quisermos, como também em ser e viver como quisermos. Cada um de nós deve poder escolher qual o caminho a seguir na vida, religioso ou não. E se esse caminho der numa religião então deve-se poder escolher qual. Infelizmente as religiões não têm servido para aproximar os homens (veja-se o fundamentalismo islâmico, por exemplo), daí que eu defenda um Estado laico, uma escola laica...

A idéia me parece mais uma

Anónimo (não verificado) on Terça, 27/10/2009 - 14:01

A idéia me parece mais uma daquelas soluções fáceis para resolver o problema do mundo. O mau é que nem a escuridão: ele não existe. O que existe é a ausência de luz. Lendo seu texto, a única coisa que eu concordo é que existiram e existem muitos abusos e incoerências nas religiões atuais. Mas a existência de Deus é inerente à religião. De fato, Deus "odeia" a religião, porquê ela é a solução humana para algo divino, o que em sua essência, é antagônico. Nossas teorias só serão exclarecidas após a nossa morte. Por ser um cristão e crer totalmente que Deus existe, estou apostando minha vida (ou eternidade) nisto. Em que você aposta sua vida Miguel?

Ao princípio era o verbo e não o sujeito

Outro Anónimo (não verificado) on Quinta, 05/11/2009 - 23:56

Acredito que o Universo existe para além da minha pessoa, que o Universo não é uma projecção do meu pensamento, um sonho na minha mente solitária. Acredito que o Universo não se rege pelo que eu penso e que os seres que vejo à minha volta são (pelo menos alguns) reais e possuidores como eu de capacidade de pensamento autónomo.

Portanto Deus não precisa de mim para existir ou não existir e o facto de eu acreditar ou não que Ele fez o Universo (num dado número de dias, meses, fracções de segundo ou milénios - o tempo é uma das dimensões criada com o dito Universo e as outras dimensões espaciais, sejam 3 ou 21) não vai afectar a realidade. Portanto discutir a existência de Deus ou colocar a sua vida em Deus é uma opção válida, mas fazer o contrário é igualmente válido. Se as pessoas são todas pessoas, todas devem ser respeitadas por igual enquanto não molestarem outras pessoas. E as outras pessoas têm de aprender a suportar alguns pecadilhos das outras que não podemos deixar que nos afectem (como dizer que Deus não existe, como se viu isso é irrelevante) (já se começarem a bater-me por eu escrever algo como o que estou a escrever, então parece-me uma invasão da minha liberdade)(onde começa e acaba a liberdade de alguém não é difícil de definir e para as coisas correrem bem é preciso alguma bonomia)(leia-se: uma sólida democracia).

E se a realidade for que o Universo não existe para além da minha pessoa e os seres que vejo à minha volta não são senão projecções da minha mente (e nesse caso não haveria deus porque eu não o sou mas o que seria Eu?), se o Universo se rege pelo que eu penso e os seres que vejo à minha volta não são mais do que bonecos por mim animados, então eu quero que esses bonecos tenham a capacidade de pensar autónoma e livremente, quero que todos sejam livres de pensar o que quiserem e acreditar que eu fiz ou não fiz o Universo (ou os Universos) em alguns milisegundos no Big Bang ou em seis dias ou em milhares de anos de evolução constante, ou criando a tartaruga e colocando-lhe um elefante em cima e...

E sobre as águas revoltas que são o caos eu digo: faça-se luz.

Caro anónimo em primeiro lugar a felicidade é possível sem religião. Eu pessoalmente sou um Humanista (veja humanismosecular.org). Acredito no homem, acredito no poder de nós aqui e agora sermos felizes e mudarmos o mundo para algo melhor. Acredito na racionalidade na ciência. Há quem chame ao Humanismo uma religião seu Deus, há quem ache que não é, para mim é irrelevante.

Não aposto a minha vida em nada. Estou vivo, adoro estar vivo, sou extremamente feliz, que é algo que pouca gente se pode gabar. Quando morrer o quase certo é que tudo simplesmente se apague, por isso, mais vale apostar tudo em ser feliz enquanto estou vivo.

Se é religioso, já alguma vez pensou que o "céu" pode ser exactamente a nossa passagem por este planeta? ;)

Contudo, este comentário deixa-me um pouco baralhado, pois o meu texto não era "sobre religião", mas sim, "sobre liberdade religiosa".

Caro Anónimo,

Não sendo o Miguel, mas sendo ateu eu gostaria de responder à sua pergunta:

"Por ser um cristão e crer totalmente que Deus existe, estou apostando minha vida (ou eternidade) nisto. Em que você aposta sua vida Miguel?"

Na vida! Isto é, a eternidade é algo que não existe, ou melhor (para que não haja confusões), não existe qualquer evidência de existir. Ou seja a minha aposta é exactamente nestes 80 anos (se tiver sorte) em que estou consciente dos meus actos. No fundo aposto na existência e não na eternidade.

Ou seja preocupo-me da vida e de viver e não da morte e muito menos do que acontecerá depois da morte.

Aliás este conceito de eternidade é algo que julgo extremamente interesse e que foi bastante "complexo" de implementar. Parece-me que aparece pela necessidade de explicar e dar sentido à morte, ao mesmo tempo que tenta criar um alter-objectivo à exitência. O mais interessante é que dado o seu sucesso teve, para prevenir o suicidio, de o "banir" e o tornar em pecado, pois senão a solução ideal de cada ser humano seria suicidar-se (afinal porque é que uma pessoa ficaria aqui a sofrer quando pode ter uma eternidade a usufruir duma vida perfeita)...

  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente

Mais informação sobre as opções de formatação