Depois de um par de noites em que a insipidez dos primeiros debates televisivos me aborreceram e deixaram cheio de saudades das minhas aulas de ciência e filosofia política resolvi deixar aqui, em jeito de aparte, alguma “food for thought” numa nota pessoal que se afasta do debate eleitoral (ou da falta dele) que nos atordoa o cérebro.
John Rawls foi quem mais me empurrou, dentro da minha paixão pelo estudo do poder nas suas mil dimensões, para o Liberalismo. Rawls e a sua famosa alegoria do “véu da ignorância”. Enquanto o estudava vi-me a mim mesmo transportado rapidamente para o desenho do seu jogo fictício no qual, qual “engenheiro social”, estabelecemos as regras do mundo ignorando a posição em que ficaríamos assim que o jogo começasse. Foi este exercício mental que “accionou” o meu lado Liberal. Aquele que acredita em como todos os bens sociais primários – liberdade, oportunidade, riqueza, e as bases do auto-respeito – devem ser distribuídas de forma igualitária a não ser que a sua distribuição não igualitária seja para o benefício dos menos favorecidos. Na sua hierarquia de valores, depois de ele próprio levar a cabo o exercício individual que desenhou, Rawls defendeu que a liberdade igualitária assume precedência em relação a oportunidade igualitária que, por sua vez, assume precedência em relação a uma igualdade de recursos.
Assim sendo , é justo que cada um tenha uma quota parte desigual dos bens sociais desde que este o seja merecido, se isto é o produto das escolhas e acções de um indivíduo. Naturalmente, esta acumulação é todavia injusta se esta desigualdade é fruto do acaso, circunstancial e/ou injusta. Concordo e identifico-me fortemente com estes princípios e daí o meu entusiasmo por este grupo de ideias. Ainda assim, em filosofia política, não existem teorias ou grupos de teorias imunes a críticas, nem bons pensamentos que não abram corredores a perguntas mais profundas e difíceis.
Fica a questão. Ninguém merece nascer com uma deficiência profunda, ou com um QI altíssimo de 135, da mesma maneira que ninguém merece nascer de um dos sexos ou etnia. O inquietante é que, muitas vezes, tantos os aspectos biológicos e naturais assim como as circunstâncias sociais são aspectos de sorte bruta e a justeza dos direitos e bens sociais, dos rendimentos, não deve depender da sorte bruta. Como avaliar e recompensar, incluir nas regras deste jogo, as escolhas e as acções de alguém que teve simplesmente a “sorte bruta” de nascer extremamente inteligente, mesmo que preguiçoso, com a de alguém que não o teve mas que é do mais dedicado e trabalhador que existe? Mais importante que encontrar respostas é muitas vezes aprender a fazer melhores perguntas. Isso todavia nem sempre nos alivia das dificuldades e dilemas que devemos ainda assim sempre procurar apaixonadamente e sem medo ao reflectir sobre os princípios que nos regem.
Deixo por fim aqui um obrigado aos textos do André Escórcio, Luís Lavoura, João Mendes e do João Cardiga por estimularem bem mais o meu cérebro que os grunhidos e caretas destes líderes partidários com que vamos aguentando.













Muito Obrigado
João Cardiga on Sexta, 04/09/2009 - 22:08Muito obrigado pelas tuas palavras. É o melhor elogio que posso receber, muito obrigado mesmo!
"Como avaliar e recompensar, incluir nas regras deste jogo, as escolhas e as acções de alguém que teve simplesmente a “sorte bruta” de nascer extremamente inteligente, mesmo que preguiçoso, com a de alguém que não o teve mas que é do mais dedicado e trabalhador que existe?"
Bem como tenho o defeito de não conseguir deixar perguntas em aberto vou tentar responder. Primeiro tenho que dizer que é uma excelente pergunta e também muito difícil.
Com muito cuidado. Mas julgo que deves começar pelos casos mais "grosseiros" e "nivelar" o terreno. Com nivelar eu digo dar ferramentas de forma a que as pessoas tenham uma "igualdade de oportunidades". Nesse campo a educação e saude é fundamental. Mas estes não eliminam a "sorte bruta" que te referes. Normalmente a sociedade dá mais peso à utilidade de determinada acção do que ao executante da acção, isto é, não tem em linha de conta a preguiça ou o esforço mas sim a utilidade que o individuo fez. Para isso é necessário que a sociedade mude de mentalidade e passe a incluir na remuneração esse factor. No entanto julgo que esta mudança, que é uma mudança de mentalidade, não deve ser forçada mas sim assimilada. Nesse sentido nós, nas nossas acções individuais, e o Estado que representa as acções colectivas, deveremos fazer isso. É o que costumo de dizer "changing by example".
No entanto eu sei que não te estou a responder directamente ao "como", pelo menos não o estou a concretizar. É para já quase impossível responder, mas tirando a avaliação subjectiva de cada um, é muito dificil tornar isso em algo objectivo. Ou seja eu defendo que para isso acontecer deve existir uma mudança de mentalidade, e que essa mudança deverá existir em nós - nos nossos actos - e pessoalmente também no Estado, mas teremos de ser nós próprios a efectivarmos essa mudança. É uma politica subjectiva, mas pessoalmente não sou contra a subjectividade (embora saiba que se calhar sou o unico).
Bem vindo de volta!
Miguel Duarte on Sexta, 04/09/2009 - 07:11É bom ver-te de volta no blogue! :)
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