Retrato de Igor Caldeira
Eu sou feminista. Não considero que o feminismo seja necessariamente uma colecção de disparates pós-modernos de linguagem PC. O feminismo pertence a uma tradição radical, de Esquerda, de libertação do indivíduo. O feminismo pertence a uma tradição anti-clerical, de crítica às sociedades patriarcais que dominam os países de religião abraâmica (e não só, mas fiquemo-nos por aqui).

Não posso por isso senão ficar boquiaberto quando vejo que, nesta Europa que conhece hoje o seu mais feliz período de liberdade (e por isso, talvez o seu último antes de regressar às trevas religiosas) a Esquerda, ao mesmo tempo que critica a desigualdade salarial entre homens e mulheres (17,6%, um crime; questiono-me se é nas mesmas profissões), acha aceitável a assunção pública da inferioridade moral das mulheres.
[O que digo sobre o texto de Mariana Canotilho aplica-se também a Daniel Oliveira.]

Pergunto-me: se fosse a Igreja Católica a decidir que todas as mulheres deviam cobrir-se da cabeça aos pés, será que a Esquerda reagiria da mesma forma?
Pois, a resposta é simples, não é?
No entanto, criticar uma "tradição" muçulmana (que, na verdade, nem é assim tão tradicional quanto isso) é sinal de intolerância.

A questão impõe-se: mas a enxurrada de proibições é solução ou agrava o problema (isolando, por motivos vários que não vou aqui desenvolver, as mulheres afectadas)? Desconfiemos das respostas simples. O mero véu é para mim nojento. Sim, dá-me nojo ver uma mulher com um véu religioso. Mas não apresenta, normalmente, perigo. Já os véus que cobrem toda a face, e pior ainda, a burqa, colocam reais problemas de segurança.

Há outras questões paralelas que poderíamos colocar. Ao fim e ao cabo, o Ocidente, essa organização de malfeitores, não vai à Arábia Saudita dizer como eles se devem comportar. Os ocidentais sabem que quando vão a esses países têm de tomar especiais cuidados - e de respeitar minimamente a cultura local.
Curiosamente, pedir aos imigrantes muçulmanos que respeitem a nossa cultura, isso, é inaceitável.

Parece que a Esquerda parece defender o denominador mínimo comum, não apenas na economia, mas também na cultura: quanto mais rasteiro, melhor. Respeitem-se os intolerantes, ataquem-se os progressistas.

Como liberal social, considerando-me uma pessoa de centro (eventualmente centro-esquerda?) não posso deixar de lamentar a degenerescência do espaço socialista. Já há muito que perdeu o internacionalismo. De há uns anos para cá, está a perder o feminismo. É caso para perguntar What's Left?

Nota final: pergunta Mariana Canotilho onde andam os liberais quando precisam deles. Os liberais andam tão confusos quanto todos os outros grupos políticos. A minha experiência de debate político sobre este tema ao nível internacional (aliás, o que a seguir descrevo é produto de um debate bastante recente onde pude constatar isto mesmo) diz-me que as diferenças resultam mais da pluralidade de histórias e culturas europeias que das ideologias. Os liberais escandinavos são tão relativistas e tão multiculturalistas quantos os socialistas e os conservadores escandinavos. O seu passado pacífico fá-los pensar que a religião não é uma coisa assim tão nociva. Pelo contrário, os liberais do Benelux, países que conhecem o catolicismo de perto, bem como as lutas religiosas entre várias seitas, são bastante mais universalistas, condição que partilham com os socialistas (não tanto os conservadores, pelo menos nos Países Baixos; na Bélgica já não há conservadores, por isso é difícil dizer).
Não é por acaso, Mariana, que em França ou em Espanha as pessoas querem impedir o véu; não é por acaso que no Reino Unido ou na Noruega haja raparigas de ascendência muçulmana que são mortas em crimes de honra e toda a gente ache normal. É que nós, aqui nos países de tradição católica, passámos séculos a
morrer na cruz. Passámos séculos a lutar contra a opressão religiosa. Não estamos dispostos, agora que amordaçámos o Vaticano, a deixar que meia dúzia de imigrantes nos tirem aquilo que nos custou tanto a ganhar.

Retrato de João Cardiga

Bem como foi explicado então

João Cardiga on Domingo, 18/07/2010 - 09:38

Bem como foi explicado então pelo menos fica claro que não se trata de uma tradição muçulmana. Nesse sentido não devia estar a ser discutido nesse ambito. Cada vez mais acho esta mistura de o que é religioso do que não é pouco saudável. Já aconteceu anteriormente e parece não termos aprendido a lição...

Retrato de Igor Caldeira

Mas é uma tradição muçulmana.

Igor Caldeira on Domingo, 18/07/2010 - 11:43

Mas é uma tradição muçulmana. O "recato" das mulheres e até a sua invisibilidade é algo que o Corão recomenda (embora, claro, como todos os livros do tipo, encontras argumentos para tudo, para isso e para o seu contrário). Agora, algumas das manifestações não são de origem árabe (o que é diferente) e dentro do mundo árabe encontras diferentes tradições e diferentes formas de viver a fé. No Magrebe uma vivência menos opressora, na Península Arábica (e especialmente entre os wahabitas) todo o tipo de imbecilidade que por aí se vê.

 

O que há é uma "wahabitização" (???), desculpa o neologismo, do islamismo. Mas tradição ou não tradição, o que não podemos aceitar é este tipo de segregação. Não é por algo ser uma tradição que devemos defendê-lo. Essa é uma das linhas de dividão entre os conservadores (de um lado) e os liberais e os socialistas (do outro).

 

O que me choca aqui, e por isso escrevi o post, é a adesão do espaço socialista a um argumento profundamente conservador.

Acho que a questão é

Luís dos Santos (não verificado) on Segunda, 19/07/2010 - 21:00

Acho que a questão é facilmente e compreensivelmente dada a confusões. Não nos podemos esquecer que o Islão foi construído sobre a cultura do povo árabe, que já tinha tradições adquiridas há séculos, portanto é perfeitamente normal que ambas (cultura árabe e islâmica) estejam interligadas.

Retrato de Luís Lavoura

originalmente, hoje não

Luís Lavoura on Terça, 20/07/2010 - 09:00

O Islão foi construído originalmente sobre a cultura árabe, mas hoje em dia a imensa maioria do Islão é não árabe. Embora o véu a cobrir a cabeça seja usado por uma maioria de mulheres muçulmanas, o niqab a cobrir o rosto todo é coisa que só uma pequeníssima minoria usa.

 

Não nos esqueçamos que os maiores números de muçulmanos do mundo estão na Indonésia (200 milhões), Paquistão e Bangladeche (150 milhões cada) e Índia (120 milhões). Neste países todos só uma pequena minoria de mulheres - geralmente imigrantes vindas da Arábia - usa niqab. Eu próprio já vi niqabs nas ruas de Bombaim (a Índia é um país extremamente liberal) mas, como me esclareceram, são usados geralmente por imigrantes árabes, não pelas próprias muçulmanas indianas.

 

Esta mania dos niqabs nas ruas da Europa atual traduz, precisamente, a influência do ensino islâmico wahabita financiado pela Arábia Saudita sobre muçulmanos que originalmente não eram assim.

Retrato de João Cardiga

Isto de cultura muçulmana faz

João Cardiga on Domingo, 18/07/2010 - 18:30

Isto de cultura muçulmana faz me lembrar quande se fala em temas africanos generalizando para o continente aquilo que é especifico de uma região particular de africa. Quanto à wahabitização concordo contigo e é um dos motivos pelo qual não utilizo essas generalizações. Pois elas mesmo fazem parte desse processo de wahabitização. Um processo que apenas dá força aos conservadores de ambos os lados. Finalmente só gostava de esclarecer que sou apologista da proibição do veu completo mas não do traje que mantem o rosto destapado...

Pessoalmente, também não sou

Luís dos Santos (não verificado) on Sexta, 16/07/2010 - 18:39

Pessoalmente, também não sou favorável a imposições deste género da parte do Estado. Não é por existirem proibições à indumentária europeia em várias zonas árabes que se deve dar resposta semelhante na Europa. A mim pelo menos sempre me ensinaram que quando se quer demonstrar superioridade moral em relação a algo, não se deve utilizar os mesmos estratagemas que se condenam.

A meu ver justifica-se condicionamentos à indumentária em certos organismos e locais públicos (por exemplo, tribunais), mas compulsividade a códigos de indumentária cheira-me a xenofobia estatal neste caso.

Não é uma questão simples, de facto, mas se existem atentados à livre vontade das mulheres árabes em países europeus, existem mecanismos para proteger essa livre vontade. Impôr códigos de vestuário não me parece que sejam um deles.

Esquerda e Direita

Ricardo Alves (não verificado) on Sexta, 16/07/2010 - 17:37

Igor,
só não compreendo porque centra o seu ataque na «esquerda». Há esquerda a favor da proibição do véu (e contra). E há direita a favor da proibição do véu (e contra). A questão é transversal.

Retrato de Igor Caldeira

Centro na Esquerda por três

Igor Caldeira on Sábado, 17/07/2010 - 22:23

Centro na Esquerda por três motivos:

1 - De facto, os dois autores que refiro são de Esquerda

2 - A Direita, por motivos que compreendo bem, está normalmente calada a este respeito

3 - A Esquerda, pelo contrário, não está calada, e está a transformar a defesa da indumentária fundamentalista religiosa como uma nova bandeira política. De facto, e sobretudo na Esquerda marxista ou ex-marxista, eu falaria mais num quase-consenso (obviamente, não posso dizer que são todos a favor, mas são muito poucos os que se opõem) em favor do fundamentalismo muçulmano que em pluralismo de opiniões.

Retrato de João Cardiga

"...uma "tradição"

João Cardiga on Sexta, 16/07/2010 - 15:50

"...uma "tradição" muçulmana..."

 

Por acaso penso que a tradição é mais arabe do que muçulmana...

 

"mas a enxurrada de proibições é solução ou agrava o problema (isolando, por motivos vários que não vou aqui desenvolver, as mulheres afectadas)?"

 

Excelente pergunta. Diria um pouco de ambas e talvez nenhuma...

Retrato de Igor Caldeira

Como o Luís diz, não é árabe.

Igor Caldeira on Sábado, 17/07/2010 - 22:19

Como o Luís diz, não é árabe. A burqa, por exemplo, não o é de todo.

Retrato de Luís Lavoura

tradição

Luís Lavoura on Sexta, 16/07/2010 - 16:59

Não é uma tradição muçulmana. A burca é uma tradição afegã. O niqab (que deixa os olhos à vista) é uma tradição da Arábia (isto é, não é árabe, na medida em que não abrange todo o mundo árabe, é apenas da Península Arábica). Mesmo muçulmanas integristas não usam em geral esses adereços noutras regiões. Nada no Islão obriga a utilizar esses adereços.

 

Tem uma certa graça ver em França, por exemplo, muçulmanas de origem argelina a usar o niqab, o qual não é uma tradição na Argélia nem no Magrebe em geral. Elas usam aquilo por provocação, ou para demonstrar exteriormente a sua religiosidade.

 

Qualquer estudioso do Islão pode verificar que nada há no Islão que obrigue uma mulher a tapar o rosto nem as mãos. As autoridades islâmicas de qualquer país concordam sobre este ponto. Mesmo em países integristas como a Arábia Saudita ou o Irão não é obrigatório uma mulher tapar o rosto.

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