Retrato de Luís Lavoura

Num post anterior relatei a triste história de uma pessoa que sofreu um acidente que conduziu a paragem respiratória e cardíaca. Retomo essa história para relatar as consequências.

As atuais capacidades em matéria de cuidados de saúde são surpreendentes. Uma pessoa que esteve em paragem respiratória e cardíaca durante 15 minutos pode ser resssucitada e de facto é-o, aparentemente de forma rotineira e sem se olhar às consequências, no dia-a-dia. O lema dos médicos parece ser "Se se pode salvar uma vida humana, salva-se", porque é isso que Hipócrates, um grego que viveu há 2500 anos - quando as capacidades técnicas e as respetivas consequências eram totalmente diferentes - ordenou. O problema é que uma paragem respiratória e cardíaca de 15 minutos deixa consequências irreversíveis e dramáticas, que o pobre Hipócrates, quando emitiu o seu juízo, jamais poderia ter tido em mente.Sem oxigénio durante 15 minutos, o cérebro sofre lesões, fica queimado, fundido, em maior ou menor extensão, mas sempre de forma irreversível, uma vez que os neurónios mortos nunca são substituídos. Doravante a pessoa já não voltará jamais a ser uma pessoa, será um vegetal.

Foi isso que aconteceu a uma conhecida minha. Ela recuperou maravilhosamente depois do seu acidente e encontra-se agora num estado estável e de boa saúde, mas em coma vegetativo por ter partes do cérebro completamente queimadas. Recebe dois litros de oxigénio por hora, comida liquefeita enfiada diretamente no estômago, e necessita de cuidados de enfermagem continuados (24 horas por dia), pelo que passará o resto da sua vida numa clínica que dispõe de tais cuidados. Sem esperanças de recuperação, essa vida ainda poderá ser longa, dado que a pessoa ainda é relativamente jovem e tem, presumivelmente, o coração em bom estado - salvo se fôr vítima de uma qualquer infeção, poderá ainda ficar naquele triste estado por algumas dezenas de anos.

E quem paga? O Serviço Nacional de Saúde. Os familiares desta pessoa estão (felizmente, porque não é culpa deles que ela tenha sido ressuscitada!) quase totalmente desonerados - pagam as fraldas, e uma percentagem mínima dos restantes bens consumidos. Praticamente tudo é pago pelo Serviço Nacional de Saúde, que assim sustenta uma vida inútil e irrecuperável. Em Portugal não se coloca, sequer, a hipótese de deixar morrer a pessoa (para o que neste caso bastaria deixar de lhe fornecer oxigénio durante algumas horas, dado que as suas capacidades de respiração autónoma são insuficientes).

Os preconceitos éticos e os juramentos que os médicos fazem saem-nos muito caros. A nós todos, neste caso, mesmo àqueles que não partilham desses preconceitos nem fizeram tais juramentos.

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