Retrato de Luís Lavoura

Desde a célebre campanha "As gravuras não sabem nadar", e desde a decisão do primeiro governo de António Guterres de abandonar a sua construção, a barragem de Foz Côa tornou-se um tabu no debate político e energético nacional.

Isto é lamentável, porque sempre houve excelentes razões para a construção dessa barragem, e essas razões são cada vez mais atuais e cada vez mais excelentes.

De facto, quando as energias fósseis, nomeadamente o petróleo e o gás natural, se tornam cada vez mais escassas e cada vez mais caras, aumentam as razões para se recorrer à energia hídrica.

Mas há mais: o surto do aproveitamento de energias renováveis, nomeadamente a eólica, implica uma necessidade cada vez maior de armazenar energia. O vento sopra quando lhe apetece, e não quando nós precisamos de eletricidade; é pois necessário sermos capazes de armazenar a eletricidade entre os períodos em que o vento sopra com força e os períodos em que nós precisamos dela.

Ora, só há atualmente duas formas de armazenar eletricidade. Uma dessas formas, assaz futurista, consiste em utilizar a eletricidade para comprimir ar em minas subterrâneas. A outra forma, muito mais corrente, consiste em utilizar a eletricidade para bombear água para dentro de barragens.

E é para isso que uma barragem com grande capacidade de armazenamento, e situada a montante de um grande conjunto de barragens, como a de Foz Côa, serviria na perfeição.

Ao abandonar-se a barragem de Foz Côa, o governo decidiu gastar dinheiro a construir muitas outras barragens muito menos úteis, e com impactes nada despiciendos. Nomeadamente, as barragens da foz do Sabor e da foz do Tua. Em particular, a barragem do Sabor terá impactes a nível da conservação da natureza, em particular da flora, de grande magnitude e completamente irreversíveis, como todos reconhecem.

Temos portanto, efetivamente, que se decidiu preservar as gravuras do Côa no seu local original à custa da destruição de um troço irrecuperável de flora no vale do Sabor, e à custa da eficaz gestão da energia eólica.

Entretanto, depois daquela campanha terrivelmente demagógica das gravuras que não sabem nadar - o que é uma falsidade, pois que as gravuras poderiam ter sido conservadas ex-situ num museu, ou mesmo debaixo da água - há tantas gravuras rupestres debaixo de tantas barragens em Portugal, nos vales do Douro e do Tejo - a barragem de Foz Côa tornou-se num tabu. Ninguém ousa falar dela, ninguém ousa dizer que o assunto deveria ser reconsiderado, que a decisão do governo Guterres foi um erro, que a barragem de Foz Côa deveria mesmo ser construída.

Eu ouso.

"Ora, só há atualmente

JLP on Segunda, 17/09/2007 - 13:12

"Ora, só há atualmente duas formas de armazenar eletricidade."

Olhe que não, olhe que não... Existem pelo menos as baterias e o armazenamento em hidrogénio por hidrólise. Depende muito das necessidades de armazenamento e da maneira como é gerido o sistema eléctrico de energia.

Mas confirmo que, sendo viável, a bombagem com grupos reversíveis é provavelmente a mais interessante.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Desperdício em massa

Filipe Melo Sousa on Segunda, 17/09/2007 - 10:43

A campanha da altura, da qual me lembro bem foi extremamente demagógica. Simplesmente não se discutiram os custos da barragem (muito dos quais já investidos, milhões de contas que se teve de jogar fora). Hoje constato que o parque do coa recebe um número irrisório de visitantes.

Se fizermos as contas, o custo por visitante é astronómico

Retrato de Igor Caldeira

Maus argumentos

Igor Caldeira on Segunda, 17/09/2007 - 12:01

Pode haver argumentos melhores ou piores para defender uma solução, mas premiar a incompetência, ou seja, pretender levar até ao fim uma opção que se tenha concluído que é má apenas porque já a iniciámos, não creio que seja o melhor argumento possível.

ainda na dúvida

Hugo Garcia on Segunda, 17/09/2007 - 10:16

Para ser sincero ainda estou na dúvida no dilema gravuras Vs. barragem.
Precisava de saber um pouco mais sobre o tema. nomeadamente a força de cada uma para o desenvolvimento da região.

Mas gostei do teu argumento a favor das barragens.
De facto, as energias alternativas mais populares (sol e vento) apresentam dificuldades por não se poder determinar quando produzem mais ou menos energia, enquanto a barragem pelas características do seu funcionamento, permite adiar ou antecipar a produção consoante as necessidades de consumo.

  • As linhas e os parágrafos quebram automaticamente

Mais informação sobre as opções de formatação