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"Os países ocidentais dispõem de uma tecnologia de produção de energia que permite conciliar os objectivos de sustentabilidade ambiental e de segurança da oferta: a energia nuclear" escreve Fernando Gabriel, colunista do Diário Económico.

http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/
opinion/columnistas/pt/desarrollo/1047308.html

Esta afirmação peremptória é enganadora e merece muitas qualificações. Por duas razões: primeiro, porque a energia nuclear só serve para gerar eletricidade e a eletricidade é apenas uma pequena parte da energia de que necessitamos; segundo, porque a energia nuclear nem sequer pode suprir, com a atual tecnologia aplicada, a produção do total da energia elétrica, dado o urânio 235 ser um recurso finito.

Explicito o primeiro ponto:

Apenas 20% (um quinto) da energia consumida nas modernas sociedades industriais é energia elétrica. De facto, 40% da energia é consumida no setor dos transportes, nomeadamente rodoviários e aéreos, e, para essas aplicações, a energia elétrica é inadequada. É impossível fazer voar um avião a eletricidade; quanto a automóveis, é possível, mas os problemas técnicos levantados pela acumulação de eletricidade em baterias permanecem insuperáveis. Um automóvel movido a eletricidade precisa de carregamentos frequentes e morosos, e a poluição ambiental levantada pelas baterias é preocupante. A eletricidade, pura e simplesmente, não é uma solução viável para o setor dos transportes, pelo menos para os transportes que hoje em dia são considerados necessários. Além do setor dos transportes, é também preciso aquecer as casas no Inverno - aplicação para a qual a eletricidade é uma solução viável, mas muito ineficiente - e, em muitos processos industriais, são necessárias altas temperaturas que não são passíveis de obter mediante aquecimento elétrico. Ou seja, há muitas aplicações energéticas que a eletricidade não é passível de suprir. Por esse motivo, considerar a energia nuclear, a qual só serve para produzir eletricidade (pode-se também utilizar o calor produzido, mas só a pequenas distâncias da central nuclear), como uma panaceia universal, é disparatado.

Explicito agora o segundo ponto:

Com a tecnologia atual, a produção de energia nuclear necessita de urânio enriquecido no isótopo 235. Esse isótopo só está presente no urânio natural na percentagem de 0,7%, salvo ero. Ou seja, é um isótopo raro. Não é possível fabricar esse isótopo 235 do urânio, o mais que é possível fazer é concentrá-lo, isto é, processar o urânio natural por forma a obter, por um lado urânio com mais isótopo 235 do que o normal, por outro urânio empobrecido em isótopo 235. De qualquer forma, estamos limitados pela quantidade de isótopo 235 existente na natureza. Essa quantidade é pouca. De facto, o urânio 235 é um recurso que acabará dentro de poucos decénios, à taxa atual de utilização. De facto, já com a procura de que hoje é objeto, o preço do urânio tem vindo a subir rapidamente, e cada vez se procura mais urânio em sítios mais recônditos. Se os países desenvolvidos se virassem maciçamente para a energia nuclear, pura e simplesmente não haveria urânio 235 suficiente para manter em funcionamento todas as centrais nucleares. Porque hoje em dia apenas uns 15% da eletricidade, a nível mundial, é gerada por energia nuclear - e já assim há problemas no abastecimento de urânio 235. Se toda a eletricidade fosse gerada por energia nuclear, seria necessário produzir-se sete vezes mais urânio, o que parece totalmente inviável.

É claro que avanços tecnológicos são possíveis e até prováveis. Mas, com a tecnologia nuclear convencional, a energia nuclear NÃO É, não pode ser, solução para os problemas energéticos da humanidade, nem mesmo do "Ocidente".

Retrato de Igor Caldeira

Hipoteca a 300 anos

Igor Caldeira on Domingo, 21/10/2007 - 19:05

A resposta ao nuclear é simples, e parte do seguinte: quantos anos leva até que cada central deixe de constituir um perigo, ou seja, até que deixe de haver radiação.

Bom, tanto quanto sei, são centenas, milhares de anos.

Ora, pode alguém garantir que em, vá, 1000 anos, tudo correrá pelo melhor, não haverá guerras, nem colapsos de países, nem crises económicas devastadoras, nem nenhum tipo de retrocesso - cultural, científico, político - que nos impossibilite de suportar os gastos permanentes gerados por cada kw de energia nuclear que confortável e irresponsavelmente produzimos hoje? Olhando para os últimos 1000 anos da História europeia, poderemos dizer isso?

Quem não for especialmente estúpido dirá obviamente não.
Não é por acaso que nenhum banco nos empresta dinheiro para comprar casa a 300 anos, por hipótese. Nós só podemos responsabilizarmo-nos pelos nossos actos. Se seguimos uma lógica tão terra-a-terra nos empréstimos bancários, por que não segui-la em tudo o resto?

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Não é isso que está em causa

Luís Lavoura on Segunda, 22/10/2007 - 11:03

Independentemente de eu concordar ou não concordar com o comentário do Igor, não é isso que está em causa neste meu post. Aquilo que pretendi dizer no meu post é que a energia nuclear, com a tecnologia atual, não é A SOLUÇÂO para os problemas energéticos da Humanidade, nem mesmo do "Ocidente". É, na melhor das hipóteses, um pequeno contributo para a solução, se é que essa solução existe!

Ou seja, no meu post pretendi apenas negar algumas teses segundo as quais o que é preciso é nuclear em força porque, com um número suficiente de centrais nucleares, tudo ficará resolvido. Essas teses são, pura esimplesmente, contradizidas pela realidade.

Luís Lavoura

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Eu li o artigo do DE e não

Igor Caldeira on Segunda, 22/10/2007 - 23:21

Eu li o artigo do DE e não o trouxe para cá por falta de tempo mas sobretudo porque cada vez tenho menos paciência para os argumentos simplistas dos conservadores que só encontram paralelo na descabelada convicção no nuclear de um velho marxista que conheci e que com certeza olhava para as centrais nucleares com o mesmo deslumbramento ingénuo de há 50 anos atrás.

As discussões técnicas esbarram para mim naquilo que disse. É óbvio apoio a 100% o que escreveste, e é óbvio que há outras coisas importantes a dizer (por exemplo, pelo que um professor universitário da área me explicou, o nuclear nem sequer se adapta às necessidades portuguesas actuais em termos de energia; seria um gasto faraónico que não seria aproveitado realmente).
Mas o problema é de princípio. O nuclear é mau em si mesmo.

Retrato de Luís Lavoura

Sim

Luís Lavoura on Sexta, 19/10/2007 - 11:15

Trata-se de uma tecnologia possível, mas que ainda não é utilizada comercialmente, a não ser (penso) em um ou dois reatores franceses. É pois, como eu referi no meu post, uma tecnologia do futuro e não do presente. Além disso, é uma tecnologia que levanta sérios problemas de proliferação nuclear, pois que, com um desses reatores, produz-se material para uma bomba nuclear a partir de urânio normal (isótopo 238). Ou seja, com um desses reatores qualquer país estaria correntemente a fazer aquilo que o Irão agora está a tentar fazer levantando muitos protestos...

Ou seja, trata-se de uma tecnologia possível, mas não é a tecnologia corrente, e é uma tecnologia ainda não testada e, de qualquer forma, muito perigosa.

Luís Lavoura

Breeder reactors

JLP on Sexta, 19/10/2007 - 10:29

http://en.wikipedia.org/wiki/Breeder_reactor

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