Parece que a ministra da Educação disse qualquer coisa numa entrevista sobre o, ou um, fim das "reprovações", "retenções" ou, na mais vulgar gíria, "chumbos" na escola pública portuguesa e logo, como seria de esperar, a direita portuguesa(*) lhe caiu, reflexamente, caninamente, em cima.
A direita portuguesa, incluindo aquela que gosta de se apresentar com um verniz liberal, é sempre no fundo conservadora, ou até mesmo retrógrada. No campo da educação, a direita está fixada no modelo salazarista. Nesse modelo a escolaridade não era (pelo menos na prática) obrigatória. Menino (ou, ainda mais depressa, menina) que chumbasse uma, ou duas, ou três vezes acabava por, por decisão dos seus próprios pais, abandonar a escola e ir trabalhar para os campos ou fábricas. Para o sistema isso nada de mal tinha, porque a escolaridade não era obrigatória e nenhum mal havia em que metade da população fosse analfabeta.
A direita portuguesa não esquece esses felizes, ditosos tempos.
Só que, o mundo de hoje já não é o de Salazar. Hoje, uma condição de competitividade internacional - não apenas para uma pessoa, mas para uma sociedade, para um país - é ter uma população educada. No mundo de hoje, o abandono da escola não é, não pode ser uma opção.
Quando o meu filho mais velho estava na primeira ou segunda classe ("ano"), havia na escola dele uns meninos, que já não eram bem meninos mas sim pré-adolescentes, indisciplinados e que semeavam na escola alguma violência e instabilidade. Eram meninos de doze anos que, à custa de repetidos chumbos, ainda estavam na escola primária. As professoras compreendiam-nos - frustrados por ainda terem por colegas meninos de 7 ou 8 anos, incomodados por terem que permanecer o dia sentados em cadeiras nas quais já não cabiam, davam escape a essa frustração e a esse incómodo através da violência.
Num mundo de escolaridade obrigatória, num mundo de educação essencial, chumbar alunos não resolve nada, apenas agrava os problemas. É claro que não basta decretar a obrigatoriedade da escolaridade - é preciso também criar mecanismos de apoio aos alunos, que permitam que eles progridam, para que a escolaridade obrigatória não seja para eles, nem para os seus colegas, um fardo. É esses mecanismos que, em boa parte, falta criar.
O caminho faz-se em frente, em direção ao progresso - não se faz voltando para trás, regressando ao passado de Salazar.
(*) A começar pelo invariável Nuno Crato, que, apesar da sua relativa juventude, teima em fazer o lamentável papel de Velho do Restelo.














«Temos um povo que,
gd (não verificado) on Segunda, 02/08/2010 - 18:36«Temos um povo que, atavicamente, despreza o valor da educação (deseja, quando muito, obter um "canudo") e que é terrivelmente conformista, estilo "Maria vai com as outras", pouco dado à invenção, à originalidade, à iniciativa.»
créditos: Luís Lavoura
Ai o verniz a estalar!
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