Não convem falar demasiado sobre o caso específico do sr Manuel Machado, (ex-)treinador da equipa profissional de futebol do clube Nacional da Madeira, porque esse caso encontra-se encoberto por grande segredo e pouco de certo se sabe sobre ele. Mas o que se sabe parece poder resumir-se assim: o senhor foi fazer uma operação à barriga numa clínica privada no Porto, a operação correu mal e o senhor acabou internado, entre a vida e morte, num hospital público no Funchal.
Em Portugal, a existência de um Serviço Nacional de Saúde aberto e gratuitamente disponível a todos favorece uma forma de parasitismo social, no qual as pessoas se dão à liberdade de fazer disparates e depois quem paga as favas é o cidadão contribuinte. Os parasitas, para além dos próprios cidadãos, são também os sistemas de saúde privados, nomeadamente os hospitais privados. Esses hospitais oferecem maravilhosas condições de conforto aos seus clientes mas, infelizmente, por vezes, condições muito inferiores, do ponto de vista da segurança clínica, às dos hospitais públicos. O caso do sr Machado é paradigmático: as pessoas escolhem ser servidas num hospital privado mas depois, quando a merda acontece, a "batata quente" é passada para o hospital público. O contribuinte é deixado para pagar a merda que aconteceu no hospital privado.
No meu entender, a liberdade deve ser acompanhada de responsabilidade. As pessoas devem ser livres de recorrer a hospitais privados. Mas devem saber que, se nesses hospitais ocorrer merda, não haverá um hospital público para resolver, à custa dos contribuintes, o problema.
P.S. A mãe de uma conhecida minha morreu há uns anos no parto, por o ter feito num hospital privado. A merda aconteceu e o hospital privado não tinha meios para a limpar. Quando a levaram para a maternidade estatal já era demasiado tarde. Morreu na ambulância.














Isso chama-se Risco Moral e faz parte dos seguros
pauloabx on Quarta, 02/12/2009 - 14:13Não percebo que diferença tem essa história com a história da pessoa que se atirou da janela, sobreviveu e foi parar ao hospital público. Ou a pessoa que fuma toda a vida, apanha cancro e vai parar ao hospital.
Obviamente que ter um seguro de saúde público (ou privado) vai fazer com que as pessoas arrisquem mais. mas é algo que temos sempre que ter em consideração se queremos um sistema de saúde público.
resposta
Luís Lavoura on Quarta, 02/12/2009 - 14:57Sim, de facto não há diferença entre esta história e outras.
Mas eu penso que qualquer sistema deve procurar, na medida do possível, eliminar ou minimizar este "risco moral", sempre que tal seja possível.
E neste caso talvez seja possível. Poder-se-ia exigir, por exemplo, que um hospital privado, quando transfere os seus pacientes para um hospital público, se comprometa a pagar ao Estado todos os tratamentos que esses doentes requeiram.
Porque o problema aqui é que os hospitais privados estão, de facto, a parasitar o sistema público. Cobram uma boa maquia pelos tratamentos que fornecem mas, quando a coisa se torna complicada, despejam o problema para cima dos contribuintes.
Luís Lavoura
Deixar uma resposta