Retrato de Luís Lavoura

A questão do momento em política internacional é a Organização das Nações Unidas (ONU) reconhecer ou não reconhecer o Estado palestino como independente. Os países serão chamados a votar.

Eu penso que Portugal deve votar contra tal reconhecimento. O Estado palestino não existe - não passa de um conjunto de "bantustões", um conjunto de cidades-prisão para o povo palestino, o qual só se pode mover de uma prisão para a outra com autorização de Israel, que tudo controla. O Estado palestino não controla o seu território, não tem moeda própria (é forçado por Israel a usar o shekel deste último), não controla as suas fronteiras, não controla o seu comércio externo. Enfim, o Estado palestino é uma ficção.

Portugal deve ter uma política externa realista, reconhecer as autoridades efetivamente existentes, tratá-las a todas de forma cordial e amigável (mesmo que não se goste do regime político que representam, que esse regime seja ditatorial ou até mesmo sanguinário), negociar com todas elas. Desse realismo faz também parte, evidentemente, não reconhecer autoridades que efetivamente não têm autoridade.

 

A longo prazo e no plano dos princípios, há outra razão para não reconhecer o Estado palestino. Tanto esse Estado como Israel partem de princípios errados e anquilosados, próprios do século 19 e não do século 21 - basear um Estado numa etnia e discriminar contra as outras etnias. Israel discrimina (de forma suave) contra os árabes e o Estado palestino pretende discriminar (talvez de forma não tão suave) contra os judeus. Isto é errado. Os Estados modernos querem-se multi-étnicos e, de facto, a Palestina sempre foi, e continua a ser, uma terra multi-étnica. A solução para o problema dessa terra não é dois Estados - é um só Estado, multi-étnico e não discriminador. Aceitar uma solução de dois Estados é aceitar um racismo instituído.

Luís, você espicaçou-me a

Hugo da Graça Pereira (não verificado) on Quinta, 22/09/2011 - 13:18

Luís, você espicaçou-me a vontade de voltar a ler sobre a questão Israelo-Palestiniana, que já andava arredada da minha mente há uns tempos. Lá fui reler coisas e procurar dados para sustentar a minha discordância do seu ponto de vista. O resultado desse meu diletantismo de espírito era excessivamente grande para o colocar aqui. Como tal, e pedindo-lhe desculpa pela inconveniência, lá lhe deixei resposta em forma de post no Dissonâncias (o meu nome nos comentários "linka" para lá). Como aquilo está um abuso de extensão leia-a quando conseguir arranjar tempo para isso. Mas fundamentalmente não concordamos no diagnóstico, logo também não poderíamos concordar com a terapêutica. Bem-haja

Dois Estados vs Um Estado

Hugo da Graça Pereira (não verificado) on Quarta, 21/09/2011 - 10:23

Aceitar dois estados é aceitar a solução que não se deixa prender nas amarras da ideologia e da pseudo-moral e, como tal, aceitar a única solução que, efectivamente, procura dar resposta à realidade.

Defender, para um problema que se arrasta há décadas e já matou milhares, uma solução alicerçada apenas em preceitos morais e no politicamente correcto e no que ficava bem é a apologia da estultícia.

O que diz, caro Luís, estará muito bem, mas nunca será possível pô-lo em prática. Os sonhos e utopias só fazem sentido quando partem da realidade concreta para a modificar. Quando procuram solucionar uma realidade que já é, ela própria, uma utopia, então não passam de castelos nas nuvens.

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Quarta, 21/09/2011 - 11:54

Não estamos tão longe como isso da minha proposta.

Repare, Hugo: Israel já hoje é um país multiétnico, na medida em que mais de um quinto da sua população é árabe. Israel tem duas línguas oficiais, o hebraico e o árabe e, oficialmente, isto é, teoricamente, não discrimina contra a sua população árabe.

Ademais, Israel controla efetivamente a Cisjordânia, na qual vivem muitos árabes e alguns judeus, geralmente separados mas nalguns casos misturados.

Para que se obtivesse aquilo que eu proponho, bastaria que Israel abandonasse o seu ideal sionista e passasse a ver-se a si mesmo como o país de todas as pessoas que vivem no território por si controlado. Ou seja, que Israel passasse a aceitar que tem meia população judaica, meia população árabe, e que não discriminasse uma contra a outra.

Estou convencido que a imensa maioria dos árabes da Cisjordânia aceitaria pacificamente esta solução, isto é, que aceitaria pacificamente tornar-se cidadãos de pleno direito de um Estado de Israel não sionista e não discriminatório.

A "solução" de dois Estados, que não é solução nenhuma na medida em que em Israel há árabes a viver no meio dos judeus e na Cisjordânia há judeus a viver no meio dos árabes, apenas se destina a manter o ideal sionista de Israel, ou seja, o ideal de Israel ser uma pátria quase exclusivamente para os judeus. Ou seja, apenas se destina a manter um ideal próprio do século 19 e que está totalmente desfasado, tanto da realidade no terreno, como das ideologias modernas.

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