(desculpas pela falta de acentos -- escrevo de um teclado internacional)

A cultura e’ uma actividade humana cujo alcance parece nao ser compreendido pela generalidade das pessoas. Ate’ certo ponto, e’ uma consequencia da propria natureza da Cultura: imaterial, de efeitos a longo prazo e, acima de tudo, pouco dada a consideracoes racionais. A Cultura faz parte do irracional.

Uma pequena visita ‘a historia da Humanidade mostra que, longe de ser uma construcao moderna e artificial, a Cultura esta presente, no minimo, desde que o homem se ramificou dos restantes mamiferos. Um exemplo de pergunta chave e’ a seguinte: porque razao alguem fez as pinturas rupestres de Foz Coa? Com que intencao? As gravuras nao alimentam ninguem nem sequer ajudam a encontrar o jantar.

Cultura vai muito para alem da Pintura, da Escultura e das Artes Plasticas. E tambem nao esta’ presente apenas quando se possui conhecimentos suficientes para ler uma obra. Cultura e’, antes de mais, um ambiente, uma vivencia instantanea, um efeito interno e intimo de alteracao da realidade perceptivel.

Se o precursor da actividade cultura e’ de dificil identificacao (pelo menos para mim), as suas consequencias sao sempre visiveis. Por alturas do Euro2004, com a mobilizacao de tantas pessoas em torno da seleccao portuguesa, o ambiente de fraternidade e uniao e’ uma consequencia da Cultura. Neste caso, Desporto e’ Cultura e o Euro2004 foi uma manifestacao fortissima de Cultura.

Independentemente das sensibilidades individuais, Cultura e’ um filme que consegue comover alguem, um livro com uma historia viciante, um post-it amarelo numa parede cinzenta, um espelho que nos obriga a pentear ou uma fotografia de um animal recem-nascido.

Acima de tudo, Cultura esta’ muito para alem do belo e do horrivel e muito para alem das pecas fisicas a que se pode dar um preco ditado por tendencias de Mercado. Igualmente, por ser um efeito a posteriori, e’ totalmente impratico admitir que Cultura pode seguir as regras do Mercado – Cultura apenas e’ visivel como efeito a posteriori. Por esta razao, e’ impossivel pedir ‘as pessoas que explicitem o que desejam – como deve ser a principal regra do Mercado. Tambem por esta razao, a Cultura e' uma area onde o Estado deve efectivamente intervir.

Tentando ir directo ao assunto, a Cultura e’ a actividade, material ou imaterial, que produz um estado psicologico de, no minimo, criatividade e bem-estar. Voltando ‘a Historia, todas as grandes civilizacoes antigas (Egipcia, Grecia, Roma, ...) tiveram manifestacoes profundas de arte. Essa mesma arte (generalizando: Cultura) tinha um efeito potenciador de criatividade e bem-estar social. A mesma criatividade gerava mais Cultura, num efeito de realimentacao.

Por outro lado, Cultura esta’ intimamente ligada ao Liberalismo. Por um lado, o individuo tem sempre o direito de criar mesmo que se proponha criar uma peca cuja utilidade nao consiga demonstrar (para que serve um cubo azul em cima de um pedestal?). Por outro, e’ eventualmente a outra metade da existencia humana. A primeira e’ a Economia que nos permite uma existencia fisica digna e facilitada: uma casa, comida no frigorifico, o frigorifico, a electricidade que alimenta o frigorifico, etc.

A segunda metade e’ a Cultura. Sem esta metade o individuo nunca se realiza. Seriamos apenas maquinas de pragmatismo apurado e mergulhados em sentimentos depressivos. E’ a Economia que nos fornece a comida, mas e’ a Cultura que nos permite saborea-la.

Um povo sem Cultura nao produz nada de interessante. Limita-se a sobreviver como consegue.

[a continuar...]

Não é o chamado

Vitor Jesus on Quarta, 26/10/2005 - 07:18

Não é o chamado desporto-rei um exemplo de cultura ao serviço do mercado? Tem que reconhecer que paralelamente a ser um fenómeno cultural, o futebol é um negócio, e dos que dá lucro!
-----lucro e cultura sao coisas separadas. nem todas as actividades culturais devem dar lucro imediato nem tudo o que e' lucrativo toca directamente na esfera cultural. O caso do futebol e' um exemplo de uma actividade cultural que NAO precisa de ser apoiada (ja' o e' demais...). Oxala todas as actividades culturais possuissem meios de subsistencia. Mas e' um efeito secundario.

Pensa realmente que a nossa gastronomia típica é perfeitamente aleatória?
---- de forma nenhuma e e' um excelente exemplo de como se deve separar as coisas. Alguem teve de se dedicar, livremente e sem restricoes de custo ou lucro, para criar os pasteis de belem. Provavelmente ate' foi um monge qq que se lembrou de experimentar umas coisas nos intervalos entre meditacoes... Alias basta pensar no que o liberalismo puro, cego e economico fez 'a culinaria: mcdonalds.

Como dizia Nietzsche (qq coisa assim), "Nao se deve perguntar para que serve a Verdade. A Verdade e' a Verdade." Ou seja, ha' coisas cujo teor pratico nao e' visivel mas nao e' por isso que nao merecem envolvimento.

Ainda por outro lado, Cultura tem um excelente paralelo nas Ciencias fundamentais. Um fisico nao deve orientar o seu trabalho por criterios exclusivamente praticos. Alias, nao deve mesmo perguntar para que serve o que esta' a investigar. As Ciencias fundamentais sao essencialmente construcoes sobre trabalhos previos.

A visibilidade da Ciencia e' que se pode, com mior ou menor clareza, imaginar a aplicabilidade de um certo principio novo. Com a Cultura e' complicado.

Para que serve tomar cafe'? Se fosse so' pela cafeina, havia pilulas em casa.

Finalmente, um ponto de concordancia. Entre todas as actividades culturais, ha' muitas que nao tem qualidade. E ai, sim, deve ser o mercado a operar uma especie de seleccao natural. Mas o mercado, do meu ponto de vista, so' mexe em coisas que ja' existem: o Mercado afina, depura e selecciona mas nao cria nada de fundamentalmente novo. Qdo muito, o Mercado cria variacoes -- mas sempre no sentido de aperfeicoamento e nao de criacao absoluta.

(abraco)

Esqueci-me de

FV (não verificado) on Terça, 25/10/2005 - 19:50

Esqueci-me de mencionar!
"Cultura nao e' necessariamente um mero interesse de elites." - é precisamente este o meu argumento para considerar subsídios à cultura injustos, o seu destino é escolhido por poucos, transformando-os numa elite cultural sem legitimidade para o ser.

Saudações

Ola FV

O autor e' o VJ, moimeme, e percebi que era para mim que dirigias os comentarios ;)

A primeira frase de todas e' esta: "A cultura e’ uma actividade humana cujo alcance parece nao ser compreendido pela generalidade das pessoas. "

---com toda a humildade, parece-me ser o caso.

a seguir digo: "Cultura vai muito para alem da Pintura, da Escultura e das Artes Plasticas."

---ate' dei o exemplo do Euro2004 e foi propositado. Cultura nao e' necessariamente um mero interesse de elites. Esforcei-me por nao dar exemplos mais rebuscados.

depois: "Cultura apenas e’ visivel como efeito a posteriori."

---Se e' um efeito a posteriori, nao se consegue antecipar nem calcular. Logo, nao faz sentido tentar oferecer o que se ajusta 'as pessoas pq, simplesmente, nao se sabe. Cultura e' o resultado de dar liberdade 'as pessoas e deixa-las exercer a sua criatividade (parece-me que isto toca na essencia do liberalismo). Deste processo saem coisas novas, mais ou menos imprevistas, que causam um efeito dificil de medir, avaliar e, ate', de percepcionar.

finalmente digo assim: "E’ a Economia que nos fornece a comida, mas e’ a Cultura que nos permite saborea-la."

--nao vamos confundir as coisas. A Economia nao e' tudo. E' importante e ate' precede a Cultura. Ninguem "cria" sem conforto material. Mas convem ver mais 'a frente.

Um abraco,
--vitor jesus

A nossa divergência começa

FV (não verificado) on Terça, 25/10/2005 - 19:39

A nossa divergência começa logo pela noção de cultura, pelo que parece ser bastante dificil compreendermo-nos, mas vou tentar.
Quando refere o exemplo do futebol está a dar-me razão. Não é o chamado desporto-rei um exemplo de cultura ao serviço do mercado? Tem que reconhecer que paralelamente a ser um fenómeno cultural, o futebol é um negócio, e dos que dá lucro! E é precisamente por dar um maior lucro, que a cultura portuguesa passa mais pelo futebol do que por outro desporto qualquer.
Por muito expontânea que seja a cultura, só o é em primeira instância, porque quando esta é manuseada pelo povo é seleccionada, melhorada ou rejeitada.
Como outro exemplo posso pegar na analogia que faz com a comida. Pensa realmente que a nossa gastronomia típica é perfeitamente aleatória? Ou será antes resultante de uma selecção empírica ao longo dos tempos das experiências culinárias com maior sucesso?

PS: Eu pura e simplesmente não acredito que umas papas de sarrabulho ou uma feijoada à transmontana tenham sido um devaneio irracional, aquilo foi cuidadosamente planeado para ficar delicioso!

Peço desculpa pelo lapso

FV (não verificado) on Segunda, 24/10/2005 - 22:37

Peço desculpa pelo lapso mas o meu comentário é obviamente dirigido ao autor de post, FMS, e não ao comentador Vítor Jesus

Devo estar cheio de sono,

FV (não verificado) on Segunda, 24/10/2005 - 23:01

Devo estar cheio de sono, peço desculpa novamente, mas não é que o post é mesmo de Vítor Jesus? Apaguem os meus últimos comentários se os considerarem estupidez a mais.

VJ considera que a cultura

FV (não verificado) on Segunda, 24/10/2005 - 22:33

VJ considera que a cultura não se rege pelo mercado, é irracional, é "pura".
Mas essa cultura consiste apenas numa pequena parte, a mais alternativa e com menor propagação na sociedade, pois é feita pelo "criador" para o "criador". A maior parte da cultura é aquela que é feita a pensar em destinatários, e por isso mesmo segue as leis do mercado, tem maior visibilidade e tende a ser racional em certos sentidos.
Enquanto o primeiro tipo de arte representa apenas a classe dos "produtores de cultura", a segunda reflecte a maior parte de uma civilização.
Não percebo como um liberal pode apoiar a subsidiação da cultura, precisamente por esta ser uma manifestação individual (com ou sem destinatário). O facto de todos estarmos a pagar para poucos escolherem as variantes de cultura que devem ser priveligiadas faz com que esta deixe de ser genuína para ser artificializada à imagem dos interesses de uma dita elite que se acha no direito de escolher o tipo de cultura que o povo deve ter maior acesso.
Quando qualquer manifestação cultural é bem acolhida pelo público e não pertence à lista de "boa cultura" das tais elites é apelidada depreciativamente de comercial ou parola, e o que as irrita é que nesses casos não têm controlo.

Tentando resumir o

Vitor Jesus on Segunda, 24/10/2005 - 08:09

Tentando resumir o irresumivel:

subsidios: sim, integralmente de apoio. Alias, como diz o Hugo Garcia, a ideia nao e' subsidiar as cegas com euros ao fim do mes mas' apoiar de formna inteligente. Por exemplo, em vez de se dar euros, criar infrastruturas onde um artista (sentido lato) possa exercer criatividade. O subsidio directo nunca e' boa ideia.

EUA: pois... mas os EUA criam tanta riqueza que existe espaco para alguem se dedicar full-time 'a arte. Por outro lado, tem muito mais populacao, logo a massa critica para se criar um mercado de arte erudita e' mais facil. Nao creio que seja a falta de subsidios em si que seja determinante.

O sr.dr.: ainda mais de acordo. E' ridiculo o que se passa em Portugal. Qdo falo com um estrangeiro, nunca trato ninguem por eng ou dr. E' logo pelo primeiro nome, salvo dignas excepcoes (nao vou tratar a rainha da Holanda por beatriz...). Isto dava tema para um outro post.

3 ideias sobre cultura

FM Pires (não verificado) on Sexta, 21/10/2005 - 20:18

Mais do que não produzir nada de interessante, eu diria mesmo que um povo sem cultura não chega a ser povo, porque ter uma cultura única e diferenciada é um dos pilares mais importantes de qualquer ambição de soberania. Três ideias a partir do teu texto…

1 – Liberalismo de mercado ou proteccionismo do subsídio?

Apesar de como dizes no teu texto a cultura ir para além das artes, a arte não deixa de ser um dos maiores contribuintes para a formação de uma cultura e é hoje em dia um dos domínios em que o governo interfere através da atribuição de subsídios, como aliás acontece na maioria dos países europeus.

É curioso constatar que é nos países onde os subsídios não existem, como nos EUA, que a produção artística se desenvolve mais rapidamente. Durante o séc XX, assistimos ao nascimento do rock, do jazz, do rap na música, de Hollywood no cinema, ou da “Pop art” na pintura. Esta produção artística foi de tal maneira forte que invadiu não só a cultura americana como a cultura da humanidade em geral. A arte enquanto produto funcionou e as empresas encontraram um mercado rentável. Enquanto isso, a Europa criou exímios pianistas, compositores e cineastas brilhantes, mas entra no séc. XXI “aculturada” pelos EUA e sem capacidade de suportar uma classe artística que ultrapasse uns quantos escolhidos.

Embora seja verdade que a arte europeia é muitas vezes intelectualmente mais rica dos que a americana, o seu impacto na sociedade é muito menor pois só os intelectuais a consomem. E com isto perde-se o efeito de transformação das sociedades e o motor de novas ideias que é um dos principais atributos da produção artística

O subsídio encoraja mais do mesmo, trabalha-se para os critérios de um júri e isso significa que a criação não é totalmente livre, pois implica usar cânones, parâmetros de avaliação que em nada tem a ver com o que a arte deve ser.

2 – Os activos estratégicos da Cultura

Mas não é só a arte que contribui para a cultura de um povo. Também devem merecer a atenção do Estado outras áreas: a língua, a gastronomia ou até o desporto como referiste bem. Os Madredeus ajudam-nos a sentirmo-nos mais portugueses, mas a comida salgada e o bacalhau, o café que só se bebe cá, o Eusébio ou o Figo não ficam atrás. Tudo isto deve ser protegido e incentivado pelo Ministério da Cultura (embora o futebol não precise de mais ajudas) pois são activos que não pertencem a ninguém e pertencem a todos os portugueses ao mesmo tempo. A língua portuguesa é inquestionavelmente um dos maiores activos estratégicos que Portugal dispõe no mundo de hoje e a sua gastronomia um dos pontos mais apreciados por turistas. Mil vezes investir no desenvolvimento de uma CPLP forte do que subsidiar uma criação que o público não pediu.

3 – A cultura profunda

Existem ainda dimensões da cultura que ultrapassam todas as outras. A cultura tipicamente Portuguesa da subserviência por exemplo, do "Sr. Dr. e Sr. Eng. e Sr. Arq".... alguém conhece um país onde se trate uma pessoa por "Mister Engineer?".... São traços que Salazar e o Estado Novo deixaram na nossa cultura e que para bem ou mal ficaram por cá... Também temos traços culturais positivos, a cultura do desenrasca confere-nos uma capacidade de improviso acima da média, habituados que estamos a não ter planos, reagimos melhor quando estes não funcionam.

Não é fácil intervir nestes níveis mais profundos da cultura mas é possível usá-los a nosso favor.

Saudações
FMP

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