Retrato de João Cardiga

(continuação)

No artigo anterior apontei alguns dos benefícios que existem com uma flexibilização da lei laboral. No entanto, e nestas matérias, não existe nenhuma garantia à partida que esses benefícios aconteçam. Ao contrário de outras áreas, em que se pode controlar os outputs de determinada acção, na política a mais acertada medida pode ter a mais desastrada consequência.

Assim é importante não começar esta mudança com a “crença” de que uma mera mudança na lei é suficiente “per si” de ter um impacto positivo. Mesmo antes de implementar esta mudança é necessário compreendermos um pouco mais aprofundadamente a nossa realidade e quais os output possíveis de uma implementação de um flexibilização laboral.

Julgo que um bom início desta reflexão passa pela visão dominante dos recursos humanos. Isto é, como são vistos os recursos humanos no contexto da empresa?

Na minha opinião, julgo que existem duas grandes visões. Aquela que me levou a indicar aqueles benefícios é de quem vê os recursos humanos como um “activo”. Eu diria mesmo que são “O” activo da empresa. Neste contexto olha-se para os recursos humanos como fonte de lucro, como algo a valorizar. As tomadas de decisão que derivam desta visão são nesse sentido.

A outra visão existente é a de que os recursos humanos são um “passivo” para a empresa. Neste contexto as pessoas são vistas como fonte de custos e o principal, quase único, objectivo passa por minimizá-lo. Assim as tomadas de decisões passam pela mera diminuição desse custo e tudo relacionado com os mesmos é sempre visto como um custo.

O efeito que uma flexibilização laboral tem na sociedade depende intrinsecamente desta visão. A flexibilização laboral é um mero instrumento que depende de quem o utiliza. Da mesma forma que uma enxada serve para criar vida nas mãos de um agricultor, poderá servir para tirar uma vida nas mãos de um serial killer.

(continua)

Flexisegurança

Jorge Coimbra (não verificado) on Terça, 29/09/2009 - 15:35

Sobre estas matérias, gostaria de saber se conhecem informação em inglês sobre a aplicação da flexisegurança em países países em que já se ensaiou (nórdicos?), com medidas concretas.

Retrato de artur baptista

A questão das empresas

artur baptista on Quarta, 23/09/2009 - 15:40

A questão das empresas considerarem os Recursos Humanos como custo é o resultado de 35 anos em que se defende "o posto de trabalho" e a "carreira".
É que as empresas que tentaram colocar flexibilidade na sua gestão de RH foram e são perseguidas, caros amigos.
Os inspectores do ACT, antigo Inspecção Geral do Trabalho, consideram-se a guarda avançada dos trabalhadores contra a investida dos culpados "Gestores" e entram nas empresas de forma brutal.
Eu tenho de arranjar mil e um estratagemas para conseguir gerir a empresa de forma eficaz no que concerne os RH. E sem os meus Recursos Humanos motivados que tem um know-how fora de série em não realizo lucros. Com uma legislação do trabalho mais liberal eu tenho é de conseguir manter os melhores e que digo-vos não é tarefa fácil.
Agora, vamos er realistas, sem empresas não há empregos. Sem empresas a gerarem lucros não há investimento e não há sustentabilidade.
Ou então a forma de sociedade que se defenda seja a de Economia Centralizada baseada na Ditadura Popular e então esta lógica anterior não faz sentido e vamos todos "dar as mãos pelos amanhãs que cantam".

Retrato de João Cardiga

Bons pontos...

João Cardiga on Quinta, 24/09/2009 - 21:57

Levantas bons pontos.

"A questão das empresas considerarem os Recursos Humanos como custo é o resultado de 35 anos em que se defende "o posto de trabalho" e a "carreira"."

Mais do se defender o posto ou a carreira é a visão de trabalho, trabalhadores e patrão que leva a uma visão assim.

"Os inspectores do ACT, antigo Inspecção Geral do Trabalho, consideram-se a guarda avançada dos trabalhadores contra a investida dos culpados "Gestores" e entram nas empresas de forma brutal."

Mais do que qualquer outro este ponto é dos mais importantes, e julgo que mais do que perseguir quem flexibiliza (afinal nas PME's a flexibilidade laboral é ultra hiper implementada), persegue os maiores e normalmente até acabam por ser os melhores...

"Agora, vamos er realistas, sem empresas não há empregos. Sem empresas a gerarem lucros não há investimento e não há sustentabilidade.
Ou então a forma de sociedade que se defenda seja a de Economia Centralizada baseada na Ditadura Popular e então esta lógica anterior não faz sentido e vamos todos "dar as mãos pelos amanhãs que cantam"."

Só aqui é que discordo, julgo que esta dictonomia já não faz sentido.

P.S. Podes-me enviar um mail? o meu é joaocardiga@gmail.com

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