O final do primeiro Governo Sócrates já nos fazia adivinhar o descontrolo que se seguiria. Muitos disseram que a crise foi uma bênção para os socialistas. A um ano das eleições poderiam, a coberto de estímulos à economia, começar a esbanjar dinheiro em eleitoralismos.
Honestamente nunca percebi como poderia isso ser benéfico para os socialistas. O que levou Sócrates à ribalta não foi o populismo. Foi uma capa de seriedade. Depois do circo em que se tinha tornado a coligação conservadora, o país queria (ou pelo menos aparentava querer) consistência, estabilidade, reformas. E o défice tinha de baixar. Poucas pessoas se opuseram seriamente, nos primeiros dois anos, às medidas de contenção orçamental.
Claro que o país aparentava querer seriedade, porque as corporações (médicos, advogados, juízes, professores) sabem que é com meias tintas que os privilégios se mantêm incólumes. Mas alguma coisa estava a ser feita e os índices de popularidade do primeiro ministro, do governo, do PS, eram altos.
A segunda metade do governo (2007-2009) foi um desastre. O défice disparou para níveis inauditos. E Sócrates continuava crente que era com investimento público que o país entrava nos eixos. Mas não entrou, e continua a não entrar.
Não fosse o Euro e a UE, o país já teria entrado em bancarrota. Felizmente, o chicote alemão está a obrigar o governo a fazer marcha atrás. A tentação de governos irresponsáveis é somar, a um erro inicial, um erro mais para corrigir esse erro e assim sucessivamente.
Não quero dizer que, conscientemente, os portugueses puniram o PS em 2009 e punirão ainda mais em 2011 pela sua irresponsabilidade orçamental e pela sua má política económica. Mas há uma conjunção de factores arrasadores para o governo:
- O investimento público não cria riqueza mas aumenta a despesa;
- Mais impostos e menos riqueza é uma dupla carga que ninguém pode apreciar;
- E os europeus não estão dispostos a suportar todas as imbecilidades da Europa do Sul - pelo que exigiram medidas drásticas para solucionar o problema do desequilíbrio orçamental.
Em vez do caminho alternativo de contenção orçamental e corte de impostos (sobretudo IRC) no início da crise, o governo preferiu gastar todo o dinheiro num espaço de um a dois anos.
Deviam saber que o mal se faz de uma só vez e o bem pouco a pouco. Com as opções tomadas, Sócrates dedica-se agora a contas de merceeiro, vendo onde pode cortar. O mal vai arrastar-se por muitos anos, quando Sócrates já só for um fantasma do passado.














"O investimento público não
Luís Lavoura on Quinta, 15/07/2010 - 13:51"O investimento público não cria riqueza mas aumenta a despesa"
No nosso caso é ainda pior, pois creio que muitos dos investimentos públicos que agora se realizam constituirão no futuro fardos pesados em matéria de manutenção. Tal como os estádios do Euro 2004 (propagandeados e acarinhados por Sócrates, que nessa época era ministro do Desporto...), que hoje não servem para nada mas dão enorme despesa a manter, também aquilo que agora se constrói - autoestradas onde não há tráfego, um aeroporto para aviões que não terão combustível para voar - no futuro não só não servirá para nada como ainda dará imensa despesa a manter.
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