A história que vou contar a seguir é inteiramente verdadeira embora, por motivos de privacidade, eu não diga quem são os protagonistas.
Uma conhecida minha estava a comer uma pêra ao lanche. Engasgou-se com um pedaço de pêra, não conseguia respirar. As pessoas que estavam ao pé dela tentaram ajudá-la, enfiaram-lhe os dedos pela garganta a tentar soltar o pedaço de pêra. Não tiveram sucesso. Ela entrou em paragem respiratória, depois em paragem cardíaca.
Entretanto tinham chamado o serviço de urgência. Chegou rapidamente e, quinze minutos depois de as paragens respiratória e cardíaca terem ocorrido, conseguiram ressuscitar a senhora e levaram-na para o hospital.
Isto aconteceu há dez dias atrás. Mas o cérebro não fica impunemente sem oxigénio durante quinze minutos. A pessoa sofreu lesões cerebrais irreversíveis. Está em coma desde esse acidente. As probabilidades de alguma vez sair desse coma e de voltar a ter, ao menos, uma vida relacional (falar, etc) estão, como uma médica disse, ao nível do milagre. A pessoa será um vegetal durante todo o resto da sua vida, a qual ainda poderá durar semanas, meses ou anos.
Contei isto agora à minha dentista. Ela questionou, se vale a pena fazer aquilo que o serviço de emergência fez. Eu, prudente, respondi "Cada um de nós fará o julgamento que quiser". Ela respondeu "É que nós, médicos, fazemos o Juramento de Hipócrates, de procurar sempre salvar a vida. Somos obrigados a agir assim".
Para além do natural desgaste psicológico para os familiares da acidentada, ela tem estado estes dez dias a cargo do Serviço Nacional de Saúde, e a "diária" não deve ser barata. Não sei quem pagará o resto da vida desta pessoa, mas suspeito que serão em boa parte os contribuintes.














Curiosamente li isto no
Inês Branco on Sexta, 08/05/2009 - 16:20Curiosamente li isto no exacto momento em que comia um pêra. Ainda bem que sobrevivi para contar...
Pois, isto dá que pensar, mas penso que os familiares depois podem decidir se a querem manter viva, ligada às máquinas ou se a deixam morrer.
Relativamente fácil de resolver
Miguel Duarte on Sexta, 08/05/2009 - 16:16Bastava a existência de uma simples base de dados central, ao qual todos os cidadãos, no momento em que obtinham por exemplo o seu cartão do cidadão pela primeira vez após os 18 anos, eram convidados a declarar o que pretendiam neste tipo de casos (basicamente, definir um período de tempo máximo em que a máquina deveria ficar ligada).
Em caso de o cidadão se recusar a declarar alguma coisa, o Estado só manteria a máquina ligada por um período de tempo que o legislador considerasse razoável.
Aliás, este era um óptimo momento para o cidadão declarar também questões como o destino a dar aos seus órgãos em caso de morte.
Percebeste mal
Luís Lavoura on Domingo, 10/05/2009 - 14:21O meu post não é sobre o suicídio assistido nem sobre o testamento vital.
O meu post é, como está dito no título, sobre o erro de uma ética médica baseada num indivíduo (Hipócrates) que viveu há 2.500 anos, numa era com meios técnicos muito inferiores aos atuais.
Temos que aplicar uma ética baseada nos meios atuais, e não baseada nos (pre)conceitos dos gregos (ou dos hebreus) antigos.
Não faz sentido ressuscitar uma pessoa que esteve alguns minutos morta, embora tal seja tecnicamente possível, e seja correntemente executado nos tempos que correm, como no caso que relatei no post. Não faz sentido lutar sempre pela vida, tal como Hipócrates ordenou que os médicos jurassem fazer. Deixar morrer (ou deixar estar morta) é um imperativo em certos casos.
Luís Lavoura
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