Recentemente o Luís Lavoura veio defender neste blogue a venda da RTP (Rádios(s) e Televisão(ões) de Portugal). Ora, considero que o modelo actual é apesar dos seus defeitos provavelmente o melhor possível. A RTP não é só a RTP 1 e Antena 1, é a RTP 2, são a Antena 2 e Antena 3, e são os canais internacionais que são transmitidos via satélite para os falantes de português do mundo inteiro.
Efectivamente transmitir um jogo de futebol não me parece serviço público, mas, se calhar são esse tipo de actividades que permitem manter em funcionamento os outros canais menos lucrativos do grupo. É duvidoso que pudesse existir uma rádio privada em sinal aberto para música clássica como a Antena 2, ou que pudesse existir uma rádio como a Antena 3 que se dedica a divulgar a nova música portuguesa. Tenho dúvidas que privados mantivessem a filosofia actual de um canal como a RTP 2, que não se destina às massas, mas que desempenha um papel educativo para quem deseja ser educado e deseja ter acesso a algo mais do que jogos de futebol e notícias populistas.
Podia-se vender a RTP 1 e Antena 1, é verdade, mas, e depois? Fechavam-se os outros canais ou transforma-se os mesmos em mais do mesmo (que seria o que os privados fariam)? Mantinham-se os canais alternativos nas mãos do Estado, à custa do dinheiro dos contribuintes, agora que os canais que os mantinham tinham sido vendidos? Cobrava-se uma taxa extra sobre todas as televisões e rádios privadas para manter as televisões e rádios do Estado? Pagava-se dinheiro aos privados para fazerem serviço público?
É evidente que ter uma televisão pública implica que quem está no poder tem através destes órgãos um acesso privilegiado à comunicação social, contudo, para contrabalançar esse poder já existem órgãos de comunicação privados (que mesmo assim não são tão independentes como gostaríamos) e é possível ter-se modelos de governance que mantenham a autonomia dos jornalistas e das redacções, conseguindo eventualmente até mais liberdade editorial para os jornalistas públicos (cujos órgãos de comunicação não precisam de depender das audiências e publicidade do Estado), que para os jornalistas privados (que devem obviamente continuar a existir).
Sou liberal, mas não defendo a privatização de tudo a qualquer custo. Para se ser verdadeiramente livre é necessário ter-se educação e, mesmo nos dias de hoje, a televisão é um meio previligiado para o fazer. Se neste momento, aparentemente, temos uma televisão pública que cumpre este papel e que ainda por cima não custa dinheiro aos bolsos dos contribuintes, se calhar, isso quer dizer que temos um modelo que deve ser aperfeiçoado e não destruído como o Luís propôs.














Excelente. Concordo
André Escórcio ... on Segunda, 19/04/2010 - 14:17Excelente. Concordo plenamente. E o que achas disso alargado a outras áreas como por exemplo cinema, teatro, música, etc.?
Papel do Estado na Cultura
Miguel Duarte on Segunda, 19/04/2010 - 14:51Nunca me chocou que o Estado tenha (como tem) uma ou várias Companhias de Teatro, Ballet e Orquestras para projectos ambiciosos (que impliquem exposição internacional). Tal como não me choca que municípios tenham teatros físicos, salas de concerto, etc., que cedam a agentes culturais privados.
Agora isso não quer dizer que tudo sejam actividades públicas, mas, basta fazeres as contas (e eu já fiz muitas vezes), para chegares à conclusão que existem actividades que sem uma ajuda (ex: emprestar a sala a uma companhia de teatro), nunca poderão existir.
Penso é que deve existir racionalidade económica a este nível. Várias companhias de teatro podem partilhar o mesmo recinto e deve existir um incentivo para que se auto sustentem no que toca a receitas. Saltando para as artes plásticas, a nível municipal por exemplo, sempre me fez muita confusão que não exista em Lisboa, como existem em outras cidades, exposições de rua onde artistas desconhecidos possam expôr e vender os seus quadros (a preços razoáveis).
De uma forma geral concordo
André Escórcio ... on Segunda, 19/04/2010 - 15:09De uma forma geral concordo contigo. Eu até aceito que o estado possa financiar projectos nacionais, tem a ver com o acesso às artes por parte de populações mais desfavorecidas, sendo que estas são essenciais para a educação e formação. E quanto ao cinema, o que achas? Eu julgo que se deve aplicar o mesmo principio, mas tudo isto obviamente deve ser feito de forma bastante racional.
AAbraço e mais uma vez parabéns pelo texto.
No cinema é bem mais
Miguel Duarte on Segunda, 19/04/2010 - 15:31No cinema é bem mais complicado, sendo que não me parece que o cinema, derivado do seu custo, deva estar completamente desligado do público. Penso que podes dar bolsas para projectos de novos realizadores, tendo como base júris que tenham uma componente internacional e empresarial, e deves igualmente premiar o sucesso. Por exemplo, ter um montante anual que é distribuído por todos os filmes inéditos com mais de x% de incorporação nacional, distribuídos nesse ano, e que tenham mais que x0.000 expectadores pagos.
E apenas defendo isto porque o nosso mercado, de 10 milhões de expectatores é muito pequeno para a maioria dos projectos, mesmo que muito baratos. É muito mais fácil um filme independente nos EUA ser rentável e obter financiamento, dada a dimensão do mercado, que um filme feito em Portugal. Agora também não faz sentido o Estado andar a pagar filmes que ninguém quer ver ou que o produtor nem sequer se dá ao trabalho de distribuir pois só fez o filme para receber subsídio público.
Pois, é isso mesmo. Soube que
André Escórcio ... on Segunda, 19/04/2010 - 15:47Pois, é isso mesmo. Soube que houve vários filmes de cinema que foram financiados mas que nem chegaram às salas de cinema, é ridículo. Neste campo julgo que tem de existir mais supervisão e tem de ser pedido aos produtores que apresentem resultados.
privilégio
Luís Lavoura on Segunda, 19/04/2010 - 13:34"priveligiado"
"previligiado"
Escreve-se "privilegiado". Vem de "privilégio".
Thanks
Miguel Duarte on Segunda, 19/04/2010 - 13:43Thanks!
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