Retrato de Filipe Melo Sousa

O homem foi nomeado Primeiro-Ministro de França ontem. Este facto passou completamente despercebido, ao contrário da eleição presidencial.

Lembro que apesar do regime francês ser chamado semi-presidencialista (como o nosso), o presidente da república é um mentor espiritual mais que outra coisa. O Primeiro-Ministro dirige de facto a política nacional, e o presidente.. assina por baixo. E mais nada. O poder de Nicolas Sarkozy continua a ser limitado pelo sistema parlamentarista.

É verdade que o Sarkozy tem o poder de nomear o primeiro ministro, mas por outro lado o parlamento tem o poder de o derrubar. E guess what: vai haver eleições no próximo dia 10 de Junho. Portanto, se Sarkozy e a UMP não continuarem nas boas graças do povo, o presidente fica de mãos atadas. Imaginem que o Bayrou consegue eleger muitos deputados da UDF. Inevitavelmente, Sarkozy teria de negociar a composição do governo. Era giro!

Agora vamos a sondagens: OK, a UMP vai à frente, e o sistema de círculos uninominais leva, e levou no passado a:
- Estratégia pré-eleitoral em que UMP e UDF dividem as circunscrições entre si (são 577 deputados em 577 círculos), apresentando candidato único da direita em cada
- Desaparecimento dos pequenos partidos do hemiciclo, pois não conseguem ganhar mini-eleições locais
Na verdade, o sistema francês é muito complicado: as segundas voltas podem ter 2, 3 ou mesmo 4 candidatos. Todos os candidatos que tiverem mais de 12,5% de votos em termos de eleitores inscritos podem ir à segunda volta. O que possibilita numa hipótese académica a presença de 8 candidatos numa segunda volta. Mas como referi: 2, 3 e 4 são números comuns.

Pergunto-me qual será a estratégia de Bayrou. Duvido que esta UDF siga a estratégia da UDF que nos tem habituado a coligar-se com a UMP. O que pode ser um tiro no pé, e uma vitória em grande da UMP, que dispensando a UDF verá o seu candidato vencer na 2ª volta. Em suma: uma aliança com a UDF obrigará Sarkozy a negociar. Enquanto que a ida a votos da UMP sozinha fará a vitória para a direita mais difícil, mas dará em caso de maioria de direita um parlamento sem deputados da UDF, maioria absoluta para a UMP, e carta branca para o Sarkozy governar da maneira que ele bem entender. Então vamos ao François Fillon:

O François Fillon está nomeado, e as eleições serão um plebiscito à escolha presidencial. Ao confirmar-se que os franceses votarão daqui a 3 semanas, da mesma maneira que votaram há 2 semanas, o homem não sai do cargo para o qual nomearam. E fica por lá. E o Sarkozy não o pode tirar. Teria de ser o parlamento a fazê-lo. Isto para chegar à seguinte conclusão: o poder de Sarkozy neste momento não advém do facto de ele ser presidente da república. Advém sobretudo do facto de ele ser presidente da UMP. Cargo do qual ele está a ser bastante pressionado para se demitir. Só que em vez de abrir o caminho para um novo congresso, o Sarkozy quer deixar uma...

(pausa para o Filipe se rir uma beka)

junta de regência

para impedir que Fillon passe a ser o homem forte da política francesa. Mas é isso mesmo que o Sarkozy quer fazer! E impedir que alguém que lhe faça o que Sarkozy fez a Chirac: um takeover do partido.

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