O que ganhamos com a proibição da venda de órgãos:
- Longas Listas de Espera
- Escassez de órgãos, por falta de dadores
- Morte dos pacientes, após doença prolongada. Estes pacientes ficam à mercê de uma lei restritiva que os proíbe de adquirir o órgão de que tanto precisam.
Quem defende que o mercado iria encarecer os órgãos que hoje são doados de graça, afirma que o direito à vida daqueles que não têm meios de pagar sobrepõe-se ao direito à vida daqueles que estão dispostos a pagar. É penalizar quem quer dar uma compensação à pessoa que lhes cedeu um órgão, e beneficiar quem espera que um pedaço do corpo lhes seja dado a troco de nada. A necessidade de uns não é motivo, a meu ver, para arruinar a vida dos outros. Aqueles que têm meios de pagar iam usufruir apenas a seu custo.
E mais ainda, quem defende esta moral está consciente de que se deve deixar morrer mais pessoas, mas que no conjunto, é melhor que se poupe aqueles que não querem pagar, para morrer muitos mais que estariam dispostos a dar uma compensação. Esta priorização imoral é feita com a consciência de que se deve impedir um aumento do número total de transplantes. Em suma: menos transplantes no total, e para quem menos os merece. É uma moralidade que sinceramente não entendo.
Porque fica o cidadão por exemplo privado de um seguro de saúde a custo zero, em que a companhia teria o direito de retirar os seus órgãos caso este viesse a falecer de acidente? Será também imoral baixar o custo da saúde?
Mais uma vez o estado moralista está-se a opor às escolhas pessoais de cada um. Será que a pessoa disposta a vender um órgão, imaginem para financiar um tratamento de saúde que necessite, não é capaz de tomar essa decisão? Lá vem o estado paizinho que precisa de proteger as pessoas de si próprias em relação às decisões que tomam para a sua vida. Mais uma vez a moral aberrante defende, que o direito das pessoas tolas que têm de ser protegidas pelo estado sobrepõe-se ao direito das pessoas racionais que tomam uma decisão em consciência.
Quantos de vocês se iriam privar de comprar um órgão, se precisassem dele para viver, e não houvesse dadores disponíveis?














Os mercados livres são sem
Nuno Mendes (não verificado) on Quarta, 25/04/2007 - 01:43Os mercados livres são sem dúvida o mecanismo mais eficiente para distribuir bens e recursos escassos (e todos os bens e recursos são escassos). E, na minha opinião, o bem último que uma economia de mercado deve maximiar é o bem-estar individual.
Partilho da rejeição do Estado paternal que o Filipe frequentemente refere mas existem instâncias em que sistematicamente os seres humanos tomam decisões baseadas em visões enviezadas da realidade. Em particular, as pessoas têm tendência a sobrevalorizar ganhos imediatos e a desvalorizar riscos futuros. Isto assume manifesta relevância no contexto de um mercado de órgãos com dadores vivos. Doar um órgão é sempre uma decisão que comporta riscos imediatos inerentes ao próprio procedimento e riscos futuros decorrentes de uma alteração fisiológica do corpo do dador, riscos estes que, por serem incertos ou assincrónicos são tipicamente subavaliados. Por outro lado, o benefício para o receptor é igualmente incerto devido a uma miríade de complicações associadas a questões de histocompatilidade e de rejeição do transplante. Actualmente existem ainda uma série de situações em que o transplate de órgãos não é admitido, designadamente em casos em que existe uma patologia quer fisiológica quer comportamental que terá como consequência a curto prazo a deterioração do órgão transplantado. No contexto de um mercado de órgãos seria presumivelmente possível adquirir um órgão para prolongar uma vida por apenas alguns meses em detrimento de alguém que poderia usufruir de uma vida perfeitamente normal durante várias décadas.
Para eu aceitar um mercado de órgãos tudo isto teria de ser tido em conta: os riscos actuais e futuros do dador e o benefício em termos de tempo e qualidade de vida para o receptor. Só assim teríamos um gestão eficiente do recurso em questão : tempo de vida são.
Como não conheço mecanismos de mercado para maximizar este recurso conformo-me com o estado actual de coisas. Se caíssemos no erro de achar que o recurso em questão era pura e simplesmente os órgãos então criaríamos um sistema em que os cidadãos ricos do Ocidente teriam uma quase inesgotável fonte de órgãos na massa humana que pulula nos países subdesenvolvidos a preços de saldo -- uma ideia indefensável.
Uma muito melhor ideia seria investir mais na investigação em cultura de tecidos humanos e clonagem terapêutica que eliminaria de uma só vez toda esta problemática. Seria possível cultivar órgãos garantidamente histocompatíveis para cada pessoa.
Mesmo assim...
Miguel Bengla on Sábado, 21/04/2007 - 11:44O argumento "eu faço o que quiser com o meu corpo" é perfeitamente válido mas... acho que neste aspecto sou um pouco mais conservador que vocês.
Custava-me muito ver uma sociedade onde pessoas pobres se sujeitavam a vender partes do seu corpo para terem algum dinheiro. Porque no limite era isto que iria acontecer, quem estivesse bem financeiramente nunca se iria sujeitar a estas situações. Seria uma falsa liberdade, um novo limite para o desespero Humano.
E como também foi dito, dado que vivemos num país onde na nossa morte, salvo indicação em contrário, somos automaticamente dadores, esta questão não deverá ser muito grave.
Falsas Moralidades
Miguel Duarte on Sábado, 21/04/2007 - 08:01Neste tema estou completamente de acordo com o Filipe relativamente a um ponto "Quem somos nós para julgar quem quer que seja no que toca ao que fazer com o seu corpo"?
Pelo que eu sei, à excepção do sangue, a maior parte dos órgãos são recolhidos de mortos. Sendo que o primeiro era um óbvio candidato ao pagamento.
Existem contudo alguns problemas práticos e pragmáticos. Por exemplo no sangue o grande problema em pagar-se o mesmo é que te fazem várias questões antes de te "extraírem" o mesmo. Questões essas que se espera sejam respondidas com sinceridade. Sendo que é evidente, para alguém com o mínimo de inteligência, quais aquelas que irão resultar numa exclusão. Sabe-se, por experiência, pois existem países em que se paga aos dadores de sangue, que ao pagar-se estás a aumentar as probabilidades de o sangue vir contaminado.
Se estivermos a falar da recolha de órgãos após a morte, se tudo tiver muito bem regulamentado, não vejo qual o problema. É perfeitamente aceitável que eu decida doar o meu corpo a outros (algo que tenciono mesmo fazer), dando-lhes uma segunda oportunidade ou que decida que os órgãos do meu corpo além de beneficiarem o prolongamento da vida de alguém, também irão beneficiar economicamente os meus descendentes. No final de contas é o meu corpo, não há nada que eu possa dizer que é mais propriedade minha, que o meu próprio corpo.
Agora, face à actual lei em Portugal, não sei se isto seria muito vantajoso. Pois a lei diz que após a morte, a não ser que se declare o contrário, todos nós somos dadores (o nosso corpo é como que nacionalizado no momento da nossa morte). Ou seja, a oferta de órgãos não iria propriamente aumentar em território nacional, a não ser que também começássemos a adquirir órgãos noutros países. Existe no entanto sempre a possibilidade que o comércio de órgãos incentive a que exista alguém que crie bases de dados com os mesmos (compatibilidade genética, etc.), aumentando assim a oferta exponencialmente.
Falando da recolha de órgãos em vida, a situação é bem mais complicada. Choca-me um pouco que alguém arranje problemas de saúde porque está com problemas de dinheiro, mas também, me choca que essa pessoa não possa fazer uso do seu corpo como bem entende, sendo que duvido que um familiar próximo (ex: irmão), vá pedir dinheiro a outro para lhe salvar a vida (isso até é possível, caso existam graves problemas familiares, mas, se assim for, é uma oportunidade que se abre, pois duvido que houvesse dádiva de outra forma nesta situação). Sendo que nisto o Filipe tem também completa razão, a oferta de órgãos irá aumentar.
Mas o argumento liberal, nisto, parece-me evidente. O nosso corpo pertence-nos a nós, logo, é o indivíduo que deve decidir o destino a dar ao seu corpo, não o Estado. Não considero que exista qualquer direito que se sobreponha ao direito do indivíduo a decidir o destino a dar ao seu corpo, em vida ou em morte, mesmo o direito à vida de outro indivíduo.
Pedro Arroja no seu melhor...
David Moreira on Sábado, 21/04/2007 - 01:42Não lia uma argumentação sobre a venda de órgãos desde do tempo em que o Pedro Arroja escrevia no suplemento económico do DN.
Bons velhos tempos esses, em que o liberalismo aparecia semanalmente aos portugueses numa página, curiosamente amarela.
André, estás a assumir um
Filipe Melo Sousa on Sexta, 20/04/2007 - 17:44André, estás a assumir um modelo fixo de oferta, quando na verdade é a procura que é fixa.
A questão é tanto o número, como a prioridade de quem salvar. Tu afirmas que o preço seria alto, deduz-se portanto que poucas pessoas, a não ser familiares estariam dispostas a doar, e não vender o órgão. Estás inevitavelmente a reduzir o número de dadores através da proibição. Essa redução afecta inevitavelmente as pessoas que poderiam pagar. É justo prejudicá-las?
A questão não é o número
André Escórcio ... on Sexta, 20/04/2007 - 17:32A questão não é o número de pessoas que se salvariam, mas sim quais.
Se houvesse venda de orgãos só se salvaria quem tivesse MUITO dinheiro para pagar.
Hipotetizando, se hoje se 100 pessoas precisarem de um rim para sobreviver e se houver 50 rins disponíveis salvam-se os primeiros da lista, se houvesse venda de orgãos safavam-se os 50 mais ricos.
Qual o melhor critério? Salvar 50 pessoas mais ricas ou as 50 pessoas que estão primeiro na lista?
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