Retrato de Miguel Duarte

Primeiro os pescadores, agora os camionistas e claro, a população que usa o automóvel de uma forma intensiva. Tudo reflexo de uma única coisa: o custo da energia aumentou e tal implica uma diferente racionalização dos nossos hábitos.

Obviamente o preço do peixe terá que aumentar e os custos cobrados pelas empresas de transporte também, com reflexos nos respectivos consumos. Mas a lógica por detrás de tudo isto é muito mais "interessante".

- A pesca longínqua de peixe é uma irracionalidade económica (eu diria um luxo). Já para não falar que estamos efectivamente a exterminar uma série de espécies de peixe (inclusivamente o nosso querido bacalhau). Se o custo de ir pescar a milhares de kms de distância do consumidor crescer, irá ficar comparativamente mais barato criar peixe nas proximidades sob a forma de piscicultura. Em vez de adiar o inevitável, um bom governante o que terá que fazer é reflectir sobre como ajudar nesta transição;

- O transporte de produtos de grandes distâncias é também danoso para o ambiente. O novo paradigma será evidentemente que muitos produtos serão produzidos mais próximos de nós, principalmente aqueles em que proporcionalmente o preço de transporte representar uma maior fatia. Irão ser perdidos empregos na área dos transportes, mas irão ser criados empregos em muitas áreas. Um bom governante deverá começar a estudar que indústrias serão afectadas nos próximos anos e como atraí-las para o nosso país (ou município/região).

- Quanto aos consumidores, já aqui referi, se o custo da energia disparar, fará cada vez mais sentido viver-se próximo do local de trabalho e vivermos em grandes núcleos urbanos, em vez de viver em dispersão. Aqui o urgente é resolver de vez a questão da lei das rendas por forma a promover a mobilidade geográfica (ex: ser mais fácil mudar de casa quando se muda de emprego, mesmo na mesma metrópole) e corrigir os problemas que afectam a reabilitação de casas nos grandes núcleos urbanos (Lisboa e Porto) do nosso país. Inclusivamente, terão que ser criados mais espaços de escritórios no centro das cidades, o que provavelmente implicará autorizar a construção em altura nas nossas cidades. Infelizmente, no momento, quando penso em escritórios de qualidade (e de grandes dimensões), não me lembro de muitos no centro de Lisboa. Quem tomou claramente a iniciativa nesta área foi Oeiras, onde existem vários empreendimentos de qualidade (Quinta da Fonte, Tagus Park, Lagoas Park, Torre de Monsanto, etc.) que pecam "apenas" por estar pessimamente servidos no que toca a transportes públicos.

- O interior de Portugal irá tornar-se incrivelmente importante no que toca à produção energética, não só pelas barragens, que já asseguram uma significativa parte da nossa produção eléctrica, mas também em termos de energia eólica que é cada vez mais importante para o nosso país.

a mim impressiona-me o

Luis Menezes on Sábado, 07/06/2008 - 16:48

a mim impressiona-me o crescente número de carros de "luxo" (audi, bmw e afins) em Portugal, e quase todos nunca levam ninguém lá dentro além do condutor. Diria-se que o português tem a constante necessidade de fazer show-off pelas razões erradas.
E também me impressiona a falta de aposta dos construtores na aplicação das energias renováveis, bastaria cada prédio ter uns quantos painéis solares para se poupar bastante consumo de energia. Apenas em construcção de casas de "luxo" se assiste a este fenómeno.
Na produção começar a pensar cada vez mais em produtos que se adaptem ás normas "cradle to grave", optimizam a performance ambiental desses produtos.

O desafio energético

Miguel Montenegro on Sábado, 07/06/2008 - 13:02

Previsão, previdência, adaptação, metamorfose dos obstáculos em desafios, não há outro caminho. Boa lista de áreas de intervenção.

Acrescentaria apenas ao último item a energia solar, não só no interior (campos solares) como em meio urbano (coberturas e fachadas). As tecnologias solares estão a evoluir de forma alucinante. A "paridade com a rede" (electricidade solar ao mesmo preço ou inferior à dos grandes fornecedores) está à distância de 3 anos, caso o petróleo continue a subir, e de 6 anos, caso não suba, o que é improvável.

Para além das células fotoeléctricas (painéis solares), estão já em uso outras tecnologias, como a geração eléctrica em turbinas com vapor de água aquecido através da concentração de luz solar e a geração/acumulação de energia térmica em sal aquecido até ao ponto de fusão. Se esta última tecnologia é recente, a anterior existe há décadas e só ficou por explorar por causa do petróleo barato.

Entretanto, as tecnologias de armazenagem de energia também estão em franco desenvolvimento, nomeadamente do lado do hidrogénio e da sua conversão controlada em energia eléctrica nas "células de combustível"; recentemente uma empresa que fabrica empilhadoras associou-se à Ballard, uma pioneira e líder no mercado das células de combustível, para a concepção de raiz de uma empilhadora "movida" já não a baterias convencionais mas a células de combustível.

Do lado dos transportes, a Tesla Motors resolveu inovar no transporte eléctrico a partir de cima e lançou no mercado um carro eléctrico desportivo cuja autonomia é comparável à dos carros com motor de combustão convencionais e cuja performance rivaliza com os desportivos topo de gama. O raciocínio da empresa consistiu em usar um produto de luxo (carro desportivo) para desenvolver a tecnologia afim de, posteriormente, poder lançar carros eléctricos mais económicos.

Isto são apenas alguns exemplos para ilustrar o dinamismo actual do sector das energias renováveis e das tecnologias associadas e a necessidade, para qualquer governo europeu, de ter, no mínimo, um pequeno observatório tecnológico capaz de informar as estratégias energéticas de médio e longo prazo.

Dada a velocidade da mutação dos dados do jogo energético, é já no médio prazo que se situam as decisões estratégicas decisivas. O Miguel Duarte sabe isto perfeitamente. Espero que os políticos Portugueses e Europeus acordem rapidamente para esta realidade. De momento, é ainda um desafio; se não agirmos rapidamente, daqui a meia dúzia de anos, se tanto, será uma fatalidade.

E de fados, estão - ou deviam estar - os Portugueses fartos.

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