Retrato de Luís Lavoura

É interessante ver como certas atitudes da tutela podem levar a uma reação rápida no sentido desejado. Isto mostra que o povo português não é indisciplinado por natureza ou cultura, mas sim, basicamente, devido a ter um Estado extremamente laxo. Foi ontem divulgada a seguinte mensagem do presidente do Instituto Superior Técnico a todo o Instituto:

"Na sequência da carta enviada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e
Ensino Superior [...] repudiando de forma veemente a prática das
praxes académicas infligidas aos estudantes que ingressam no Ensino
Superior, e dando conta da intenção de responsabilizar civil e
criminalmente, por acção e por omissão, os órgãos próprios da
instituição sempre que se demonstre a existência de práticas ofensivas
para os estudantes
, fica decidido:

1) Não reconhecer legitimidade a qualquer auto-denominada comissão de
praxe, proibindo as actividades que neste momento lhes estão associadas nos campi [...];

2) Proibir a prática de praxes académicas nos campi [...], qualquer que seja a forma como são organizadas.

Qualquer violação a esta directiva deverá ser comunicada ao Conselho
Directivo da Escola, que agirá em conformidade, não estando excluída a possibilidade de abertura de um processo disciplinar ao(s) elemento(s) prevaricadore(s)."

(Os negritos são meus.)

Em suma: as praxes podem continuar a ser desenvolvidas, mas deixarão de estar a coberto do Instituto - passarão a ter que ser desenvolvidas na rua, sob o escrutínio, portanto, de toda a população e, eventualmente, das forças policiais.

Acho muito bem. Já não é sem tempo, que se submete as praxes à Lei geral do país!!!

reacções

Manuel Pinto de... on Quinta, 25/09/2008 - 16:57

luís, e restantes liberais sociais,
venho seguido atentamente o vosso trabalho, e desta vez não pude deixar de linkar este texto.
como mandam as regras de boa conduta dos bloggers (que são voluntárias, diga-se de passagem) deixo aqui o "pingback" para o post em que referi esta publicação.
http://oterceiroanonimo.blogspot.com/2008/09/as-ideologias-e-as-ideias.html

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Segunda, 22/09/2008 - 09:55

Ninguém pode acabar com as praxes, aliás nem tal seria desejável, uma vez que as pessoas são livres de se divertir e de fazer alguns "disparates" em conjunto.

O presidente do Instituto Superior Técnico (IST) não manda fora do Instituto e não pode impedir os estudantes do Instituto de, fora dele, organizarem e levarem a cabo umas brincadeiras, de melhor ou pior gosto.

Agora aquilo que o presidente do IST pode fazer, e fez, e muito bem, é dizer: "dentro destas instalações, nas quais eu mando, não é permitido".

Isto pode ser insuficiente, mas sempre é muito melhor do que a atitude prevalecente em outras Faculdades e Institutos, nos quais os presidentes dão cobertura e proteção ativa às praxes.

Agora é verdade que os piores desmandos até tenderão a ocorrer fora do Instituto. Por exemplo, aqui há uns anos um caloiro do IST morreu quando os veteranos o mandaram mergulhar para dentro da água da Fonte Luminosa. O caloiro não reparou que a dita água só tem meio metro de profundidade, bateu com a cabeça no chão da Fonte ao mergulhar, e morreu (ou ficou paraplégico, não sei bem - só estou a repetir uma história que me contaram).

Luís Lavoura

solução ?

Hugo Garcia on Sábado, 20/09/2008 - 17:30

Ou seja,

O presidente do IST conseguiu arranjar uma forma de se descartar das suas responsabilidades. Como em tantas outras faculdades, a praxe vai ser feita na rua e agora o presidente do IST pode dizer "eu não tenho nada a ver com isso"

Se havia abusos vai continuar a haver. Se miudos acabados de sair do liceu tinham medo de dizer que não, agora não têm ninguém a protegê-los e vão ter ainda mais medo de dizer que não.

Mas tudo está bem, porque o presidente do IST pode dizer: " eu não tenho nada a ver com isso"
O Pres. do IST não resolveu o problema das praxes, apenas resolveu o seu problema pessoal.

Parece que esta é mais uma demonstração de como em Portugal, muita gente consegue assumir o poder sem assumir responsabilidades.

Retrato de Miguel Duarte

Resposta

Miguel Duarte on Segunda, 22/09/2008 - 20:19

Fora das universidades qualquer praxe é claramente um caso de polícia. Ou seja, se és praxado contra a tua vontade deves ir à polícia e apresentar queixa.

A próxima coisa que o ministro deveria fazer era esclarecer este ponto e explicar detalhadamente as consequências legais de uma agressão a outrem, de um rapto (que é o que é feito temporariamente no fundo a muitos caloiros) ou de forçar outrem a fazer algo contra a vontade.

Umas semanas ou meses de cadeia a quem abusa de outras pessoas sobre o pretexto de estar a praxar não iriam fazer mal nenhum, até para dar o exemplo e cortar o mal pela raiz.

Não há alteração nenhuma relativamente à lei. Esta continua a ser tão válida quanto antes. Porque a lei portuguesa é tão válida fora da universidade como dentro da universidade.
Os casos infelizes se aconteciam vão continuar a acontecer.

O Ministro foi muito explícito na mensagem "As universidades devem assumir responsabilidades."

E o presidente do IST respondeu de forma ainda mais clara : "Eu recuso-me a assumir responsabilidades".

Não houve aqui nenhum motivo válido. Foi um simples fugir Às responsabilidades.
Já se sabe que em Portugal ninguém é responsável por nada.
Como é que se admite que o presidente e o IST como um todo se descartem das suas responsabilidades numa tradição, se preferirem cultura, académica?

Retrato de Luís Lavoura

não é válida

Luís Lavoura on Quarta, 24/09/2008 - 09:56

Não. A lei até agora NÃO era válida dentro do recinto universitário, porque não havia (nem há) polícias nas universidades, e porque não havia testemunhas, ou as que havia recusavam-se a testemunhar, e porque quem quisesse impôr a lei seria ameaçado e, na prática, expulso da universidade. Foi o caso de alguns estudantes que se queixaram da praxe - tiveram que acabar por deixar a universidade.

Dentro da universidade não havia lei. Podiam fazer aos caloiros as merdas que quisessem. Os reitores - que são, lamentavelmente, devido a uma lei do período negro pós-25 de Abril, eleitos por um colégio eleitoral que é em um terço composto por membros da Associação de Estudantes - fechavam os olhos e eram cúmplices. Os professores fechavam os olhos e eram cúmplices. Os funcionários idem. Tudo isto porque todos eles sabiam que, devido a essa lei infame desse período negro, as Associações de Estudantes têm um poder abusivo dentro das universidades.

Por isso, a lei não imperava dentro das universidades. Dentro das universidades podiam cometer-se as maiores ilegalidades - quem se queixasse dessas ilegalidades era, na prática, expulso da universidade.

Para fazer a lei imperar é imperioso expulsar a praxe das universidades, fazer com que ela ocorra perante os olhos de toda a gente, e sem a proteção cúmplice de todos os universitários.

Luís Lavoura

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