Algo que julgo é corrente em algumas áreas de pensamento politico é que a diminuição de custos salariais cria valor à sociedade. Nada poderia ser mais perigoso (bem, tão perigoso é achar-se que o aumento dos custos salariais criam valor).
Partido deste pressuposto, muitas politicas são direccionadas neste sentido e muitos defendem abertamente que é necessário diminuir os custos do trabalho através da diminuição do salário.
Só que, se apenas diminuirmos o custo do trabalho pela via salarial não estamos a criar valor mas sim redistribuir de forma diferente o valor já existente na sociedade. Dito de uma forma mais simples estamos a criar uma maior desigualdade na sociedade.
Esta politica de diminuição dos custos do trabalho é o equivalente a um subsidio estatal com todos os defeitos do mesmo, acabando por premiar praticas ineficientes na economia.
Uma redução do custo do trabalho só cria valor para a sociedade se não for baseada na redução do salário mas sim numa introdução de uma inovação (uma técnica que permita produzir algo mais rápido ou com menos pessoas, ou por exemplo a introdução de uma nova tecnologia – cujo custo é inferior ao do trabalho substituído), pois só assim criamos realmente valor.
Enquanto se procurar aumentar o “valor” através da redução do salário apenas estaremos a fomentar uma maior desigualdade e em ultima análise uma sociedade menos livre.














Setores (não) transacionáveis
Luís Lavoura on Terça, 10/11/2009 - 12:47Há que distinguir entre setores transacionáveis e não-transacionáveis.
Setor transacionável é aquele que produz produtos (por exemplo: camisas) que podem ser exportados ou importados. Setor não-transacionável é aquele que produz produtos (por exemplo: refeições num restaurante) que não podem ser exportados nem importados.
Num setor transacionável os salários não podem ser muito elevados, caso contrário o setor perde competitividade com produtos análogos de outros países, e a empresa tem que fechar.
Num setor não-transacionável, pelo contrário, os salários podem subir sem parar, pois esses custos vão sendo repercutidos na clientela.
O trabalhador no setor transacionável indiano ganha menos do que o português porque vive numa sociedade onde o setor não-transacionável aufere salários muito baixos. Isso quer dizer que o trabalhador indiano que produz, digamos, software, pode comer num restaurante, arrendar uma casa ou pagar uma empregada doméstica a preços muito inferiores aos do trabalhador português que produz o mesmo software. Ou seja, os salários no setor não-transacionável influenciam os salários no setor transacionável: pelo facto de a sua empregada doméstica (setor não-transacionável) auferir um salário muito baixo, o produtor de software (setor transacionável) indiano pode também viver com um salário muito baixo.
A tragédia em Portugal é ter um setor não-transacionável que "puxa" os salários para cima de forma desmesurada. Esse setor não-transacionável é, em Portugal, constituído em grande parte por funcionários públicos, cujos salários são subidos por decisão política. Essa subida política dos salários no setor não-transacionável torna o custo de vida muito alto e obriga a que os salários no setor transacionável subam também, até que esse setor deixa de ser competitivo.
Eu sugeriria que, mais do que falar em subir ou baixar salários, é preciso introduzir maior competição no setor não-transacionável português, por forma a que os salários pagos nesse setor deixem de depender de decisões políticas e passem a refletir aquilo que o setor transacionável pode aguentar. Se os salários dos professores, dos médicos, ou o salário mínimo, deixarem de depender de políticas emitidas pelo Estado central, e passarem, por exemplo, a ser determinados a nível regional, até mesmo concelhio, isso introduzirá uma competição nesses salários que permitirá que eles reflitam melhor aquilo que é efetivamente sustentável.
Luís Lavoura
Desculpa a tardia resposta
João Cardiga on Quarta, 11/11/2009 - 23:10Desculpa a tardia resposta mas achava que já tinha colocado um comentário. Gostei bastante da tua abordagem. Mas não achas que o bem (não) transacionavel mais sobrevalorizada é a habitação?
Igualdade
João Cardiga on Segunda, 09/11/2009 - 19:10Antes demais eu ambiciono uma sociedade menos desigual o que é diferente de "conseguir a "igualdade" que tanto desejas é com taxas de desemprego baixas", mas este é um tema para um artigo diferente :)
Quando dizes:
"Se um indiano licenciado em informática ganha na Índia menos que um português com as mesma qualificações e capacidades em Portugal, tal significa que apesar das qualificações a sua produtividade não é tão boa por factores que não têm directamente a ver consigo."
Julgo que inerente está um erro de análise. É que o indiano só é mais produtivo se efectivamente conseguir produzir mais em menos tempo (ou mais no mesmo tempo) e não porque tem salários mais baixos. Se assim for confirma-se o que disse: não se cria valor. Neste caso em concreto o valor "criado" pela "produtividade" indiana é conseguida através da destruição de valor na nossa sociedade. A sociedade global como um todo fica igual. Mais, dependendo da forma como esse "valor" é distribuido a sociedade poderá ficar mais desigual.
Embora no meu caso particular estava a modelizar um exemplo mais pequeno que o mundo, este serve perfeitamente. Normalmente o que acontece com isto é que os accionistas/empresários arrecadam este valor criado, assim o que acontece é que retiras valor aos trabalhadores portugueses para os concentrar em poucos accionistas.
Se por outro lado esse "valor" ganho for reflectido na diminuição do preço de venda, então o que fizeste foi simplesmente uma redistribuição de riqueza, empobrecendo uns quantos para aliviar os custos à população em geral, neste cenário continuas a construir uma sociedade mais desigual porquanto que este valor é retirado a uma camada que não a superior, que, objectivamente, fica com maior poder de compra.
"Não queres que os salários baixem? É irrelevante o que a lei permite ou não."
Não estava a defender a proibição de baixar os salários.
"Temos é que garantir que a economia é competitiva e que o desemprego é baixo."
É irrelevante a taxa de desemprego, o importante é ter uma economia que cria um real valor, pois só assim o mesmo é sustentável. Apostar numa competitividade pelos salários apenas levará a adiar a solução do problema, é isso que eu acho.
Simplificando, defendo que competir pela baixa de salários tem os mesmos problemas que os subsidios estatais às empresas com a agravante de aumentar as desigualdades internas que por sua vez leva à diminuição da liberdade individual!
P.S. só não percebi a diferença entre o Polaco e o Indiano...
Respostas
Miguel Duarte on Quarta, 11/11/2009 - 14:38"É que o indiano só é mais produtivo se efectivamente conseguir produzir mais em menos tempo (ou mais no mesmo tempo) e não porque tem salários mais baixos."
A produtividade efectivamente é trabalhado produzido por recurso num determinado período de tempo. Mas para um patrão, o que conta efectivamente, é o trabalho gerado por € gasto. Se produzires o mesmo que eu e o teu salário for mais baixo, obviamente isso vai dar uma vantagem competitiva ao teu patrão.
"Neste caso em concreto o valor "criado" pela "produtividade" indiana é conseguida através da destruição de valor na nossa sociedade."
Efectivamente considero que a China e a Índia estão a exercer uma pressão competitiva para baixo sobre os países ditos desenvolvidos. É que ao contrário do que sempre se afirmou, cada vez existe menos diferenciação entre o que se pode fazer na Europa e se pode fazer na China ou na Índia. A oferta de mão de obra qualificada nesses países é cada vez maior e a nossa vantagem competitiva pela qualificação, se é que alguma vez existiu, está a ser erodida.
"Normalmente o que acontece com isto é que os accionistas / empresários arrecadam este valor criado"
Será? Isso parece-me uma visão um bocado Marxista da coisa. ;) Como a empresa está em concorrência com outras empresas, o mais natural é que no médio prazo os preços baixem, distribuindo o ganho pelos consumidores. Nos últimos anos quem mais ganhou com os baixos salários da China, Índia e afins foram precisamente os consumidores que viram o seu nível de via aumentar por via de produtos muito mais baratos.
"É irrelevante a taxa de desemprego, o importante é ter uma economia que cria um real valor, pois só assim o mesmo é sustentável. Apostar numa competitividade pelos salários apenas levará a adiar a solução do problema, é isso que eu acho."
A taxa de desemprego é relevante porque cria pressão para a subida dos salários. Agora tal só acontece se existirem oportunidades obviamente para pagar salários mais elevados aos trabalhadores e isso está ligado obviamente a produtividade/rentabilidade das actividades que oferecem os novos empregos.
"defendo que competir pela baixa de salários tem os mesmos problemas que os subsidios estatais às empresas com a agravante de aumentar as desigualdades internas que por sua vez leva à diminuição da liberdade individual!"
Não me parece é que seja uma competência do Estado definir, no curto prazo, se a economia vai competir com salários baixos ou não. O Estado pode é garantir uma boa educação e facilitar o investimento e o empreendorismo, por forma a que os cidadãos possam ter uma ampla escola de empregos e sejam rentáveis para quem os contrata, mesmo com salários elevados.
Marxista, eu? Jamais :D
João Cardiga on Quarta, 11/11/2009 - 19:58"Será? Isso parece-me uma visão um bocado Marxista da coisa. ;)"
Tens de ver que não pus só esta hipotese, também coloquei a outra que tu também analisaste. No entanto é verdade que os empresários deslocalizam-se numa primeira fase para aumentar as suas taxas de rentabilidade, mas também é verdade que com o tempo e a concorrência o valor volta a ser redistribuido, no entanto foi em qualquer dos casos à custa dos trabalhadores iniciais (trabalhadores esses que recuperam apenas uma percentagem menor desse valor).
"A taxa de desemprego é relevante porque cria pressão para a subida dos salários."
Quando afirmei aquela frase estava a pensar mais no longo prazo e olhando para o passado. O que é que nos permitiu ter as condições de vida que temos agora: inovações tecnológicas que permitiram ou produzir o mesmo com menos esforço ou produzir mais. Se a unica novidade em termos de agricultura tivesse sido o custo do trabalho ter baixado, ainda hoje tinhamos umas péssimas condições de vida. E é nesse contexto que estava a dizer que a taxa de desemprego era irrelevante, pois com o desemprego dos agricultores o que realmente aconteceu foi que libertamos pessoas para produzirem outros bens que também precisavamos. Ou seja em ultima análise até podemos ter uma taxa de 100% de "desemprego" se conseguirmos produzir os bens/serviços automaticamente (embora numa situação assim ficariamos com outro problema interessante de como distribui-los).
"Não me parece é que seja uma competência do Estado definir, no curto prazo, se a economia vai competir com salários baixos ou não."
Nem eu disse que deveria definir. Isto é, não acho que deva sair uma lei a dizer que as empresas não devem competir pelos baixos salários. Apenas estava a ter uma análise sobre uma realidade que normalmente não é assim tão questionada, isto é a ligação salário=valor. Mais e o que também queria "filosofar" era sobre o conceito de criar valor na sociedade. Julgo que a sociedade europeia está a chegar a um ponto de estagnação e ou dá uma salto tecnológico ou empobrece.
Julgo que neste momento o grande salto que precisamos é o da energia e não do trabalho. Se verificares não é o custo do trabalho o maior custo das empresas e chegamos a um ponto que ou diminuimos o custo energético (através de uma fonte de energia) ou não manteremos o nível de vida que nos habituamos.
E só com esta mudança é que conseguirás criar realmente valor nesta sociedade. O resto serve apenas para saber quem fica com o quinhão maior do que já existe.
" O Estado pode é garantir uma boa educação e facilitar o investimento e o empreendorismo, por forma a que os cidadãos possam ter uma ampla escola de empregos e sejam rentáveis para quem os contrata, mesmo com salários elevados"
100% de acordo.
Desigualdade?
Miguel Duarte on Segunda, 09/11/2009 - 17:49O problema a mim não me parece a desigualdade. No sentido inclusivamente em que essas propostas, quando surgem, até surgem tendo um argumento igualitários: "vamos reduzir os salários por forma a criar mais emprego".
O problema é que efectivamente uma redução generalizada de salários significa, a acontecer, que comparativamente com outros países os nossos trabalhadores (e sociedade como um todo) são menos produtivos e consequentemente menos valorizados.
Se um indiano licenciado em informática ganha na Índia menos que um português com as mesma qualificações e capacidades em Portugal, tal significa que apesar das qualificações a sua produtividade não é tão boa por factores que não têm directamente a ver consigo. À medida que a sua produtividade (e a produtividade geral da economia) indiana for apanhando a portuguesa, os salários deverão aproximar-se dos nossos e até ultrapassar-nos.
Agora podes cair igualmente num problema inverso. Que é, se um polaco conseguir na Polónia produzir exactamente o mesmo que um português e os seus salários forem mais baixos que os nossos, tal irá criar nesse país uma vantagem competitiva que irá aumentar o desemprego em Portugal e levar à redução salarial na prática. As empresas fecharão portas e os novos empregos, a aparecerem, já terão em conta esta falta de diferencial de competitividade. Para manteres os salários, ficas dependentes de a taxa de desemprego na Polónia começar a descer e a mão-de-obra começar com as qualificações que concorrem com as nossas começar a escassear. Muito sinceramente eu acredito que desde que a União Europeia passou de 12 a 27 países Portugal tem vindo a sofrer deste último mal (já para não falar da concorrência de países fora da U.E. que também se faz sentir e muito, ainda hoje li sobre uma farmacêutica em Portugal que afirmou estar a planear deslocalizar-se nos próximos anos para a China).
Simplificando: Não queres que os salários baixem? É irrelevante o que a lei permite ou não. Temos é que garantir que a economia é competitiva e que o desemprego é baixo. A melhor forma de conseguir a "igualdade" que tanto desejas é com taxas de desemprego baixas.
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