Retrato de Miguel Duarte

Regressei recentemente de Cuba, uma viajem de lazer em que aproveitei também para conhecer ao vivo a ditadura cubana. O país tem turisticamente um potencial tremendo, a sua população é extremamente culta (logo no primeiro dia, deu para discutir a situação política no nosso país com um cubano) e Havana seria uma das cidades mais belas do mundo, não fosse a sua degradação extrema.

Infelizmente Cuba sofre de todos os males conhecidos dos estados Socialistas. Os salários são baixíssimos (um bom salário anda à volta dos 30€/mês), a falta dos produtos mais básicos é uma constante (o sal e o sabão são racionados, o leite é importado da Alemanha, vendendo-se a mais de 2€ o litro, as lojas de roupa estão quase vazias, não se vêem frutas e legumes à venda nas lojas alimentares), a corrupção e mercado negros são enormes, a pouca produtividade do país é visível um pouco por todo o lado.

O sistema falhou redondamente e apesar da lavagem ao cérebro diária do governo aos seus cidadãos, tal não é devido ao embargo americano, mas apenas, porque o país a nível económico não funciona. O embargo americano é, isso sim, a maior desculpa do regime para o seu fracasso. Lendo-se os artigos de Fidel Castro rapidamente se chega à conclusão que este é um dos mais ardentes defensores do livre comércio, queixando-se fortemente da falta de acesso de Cuba ao mercado americano para vender os seus produtos e dos custos astronómicos, calculados quase ao cêntimo, de Cuba não poder adquirir produtos nos EUA, como se tal fosse um direito natural, num discurso digno de um liberal clássico.

Apesar de me ter sido possível discutir política com cubanos, a liberdade de expressão é claramente reduzida, com os olhos dos CDRs (Comités de Defesa da Revolução) omipresentes em cada quarteirão, a lembrar a todos que o regime está em toda a parte e tudo controla. A imprensa é propaganda pura, semelhante ao Avante do nosso PCP.

Obviamente que nem tudo é mau, o nível de educação é claramente elevado, o país é extremamente seguro, não é visível a pobreza extrema que existe em outros países da América Latina ou os sem abrigo que existem nos países ocidentais e derivado das fortes carências existentes a população mostra um espírito empreendedor notável. Cuba, se beneficiasse de uma economia de mercado, estaria certamente entre um dos países mais desenvolvidos da América Latina, pois tem potencial humano e turístico para tal.

O regime, inspirado na China, prepara-se agora para fazer uma viragem apertada para o mercado, despedindo, num curto período de tempo, um milhão de trabalhadores públicos e esperando que estes encontrem emprego, ou criem o seu próprio emprego, em 178 actividades que serão liberalizadas. Num país onde não existe sequer subsídio de desemprego, uma loucura que poderá vir a ter consequências para o próprio regime, com vários cubanos a dizerem-me que temem pela sua segurança física, derivado de um previsível aumento da criminalidade, e por protestos que dão como quase certos. O fim do regime, para muitos cubanos, encontra-se próximo, muito próximo.

A maior ajuda que se poderia dar para acelerar este processo seria os EUA levantarem o seu embargo, eliminando a única desculpa que o regime tem para a pobreza e isolamento do país e permitindo que eventualmente mais empreendorismo privado (mesmo que sob a forma de mercado negro) e remessas de imigrantes, tão necessários para financiar a oposição, pudessem crescer.

Relativamente a isto e muito mais, vale a pena ler este blogue, de uma cidadã cubana a residir em cuba: http://www.desdecuba.com/generationy/
 

É evidente que invocar a

Anónimo (não verificado) on Quinta, 21/10/2010 - 16:29

É evidente que invocar a Madeira foi um exagero. Queria apenas mostrar que além de ser uma ilha, a Cuba pós-URSS se mantém de facto isolada a nível de trocas comerciais. Estar isolada também significa que não entra capital do estrangeiro, o que desenvolveria o país (na versão socialista, explorá-lo-ia na mesma proporção). O desafio mantém-se: isolem Portugal e façam-no sobreviver com os seus recursos (mesmo admitindo que não existe direcção estatal da economia) e esqueçam os fundos da nossa querida UE.
A agricultura na URSS também foi um fracasso. Regra geral, nos países socialistas, isso deve-se à falta de incentivos económicos; pode ser que isso se altere com as reformas de mercado que tenderão a aparecer.
Cuba pré-Castro era rica, um destino turístico construído com dinheiro proveniente da máfia. A Suíça e os paraísos fiscais também lucram com o dinheiro dos barões da droga.

Retrato de Miguel Duarte

Capital Estrangeiro

Miguel Duarte on Quinta, 21/10/2010 - 16:39

É evidente que num país socialista dificilmente entrará capital estrangeiro (o Estado rejeita-o). Se o país adoptar as reformas da China e permitir investimento estrangeiro privado rapidamente existirão investimentos, no Turismo o mais provável (já existem), mas também acredito em tudo o resto. A sensação que eu tive de Cuba é que é um país onde, dada a escassez de tanta coisa, e a má qualidade do que existe, é muito fácil ficar-se rico (desde que deixem o os empreendedores investir e ganhar dinheiro, claro!).

Deixo este comentário apenas

Anónimo (não verificado) on Quinta, 21/10/2010 - 14:25

Deixo este comentário apenas para salientar que se Cuba não tivesse tido a Revolução, o seu povo (ou essa coisa do capital social) teria permaneceria tão pouco educado como o da Bolívia, com quem V. não poderia discutir política portuguesa.

Em segundo lugar, se existe coisa que os EUA (o Governo, não os investidores) não desejam é que Cuba sofra uma mudança drástica. Dá sempre jeito ter à porta um país que representa o falhanço do socialismo.

De resto, se quer falar da possibilidade de progresso numa ilha daquele tamanho, experimente isolar a Madeira e produzir tudo o que consome. Vai ver que não abundará leite nem cereais nem legumes nas prateleiras.

Retrato de Miguel Duarte

Cuba x Madeira

Miguel Duarte on Quinta, 21/10/2010 - 16:04

Caro anónimo,

 

Em primeiro lugar, as dimensões de Cuba são obviamente superiores à Madeira 110.000km2 e 11 milhões de habitantes, versus 801 km2 e 250 mil habitantes. Mesmo o território de Portugal em km2 é inferior ao cubano. No que toca a agricultura, por exemplo, o problema de Cuba é que simplesmente não produz, sendo a burocracia que afecta a agricultura tão grande que até já foi criticada por Raul Castro. Para ter uma ideia, em 1959 existam em Cuba tantas cabeças de gado como pessoas, hoje a carne é uma raridade e só se pode matar uma vaca com autorização do governo! É obviamente ridículo pensar que a culpa de falta de gado é dos americanos, pois não foi certamente a CIA que andou a matar cabeças de gado em cuba.

 

Em segundo lugar, o embargo a Cuba é por parte dos EUA, não do mundo inteiro. Cuba consegue importar e exportar produtos para todo o resto do mundo, incluindo América Latina, Europa e China! Aliás, Cuba consegue importar produtos dos EUA via intermediários em qualquer um outro país do mundo, como até é política de uma multinacional americana que eu conheço (que simpáticamente informa os seus parceiros que não pode vender directamente, mas lhes pode vender a eles e eles vendem a Cuba). Por muito chato que seja não poder importar/exportar produtos para o seu vizinho mais próximo, isso não é desculpa para o falhanço de todo um regime.

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Quinta, 21/10/2010 - 15:53

Sem pretender contestar o comentário anterior, faço notar duas coisas:

 

(1) Já antes da revolução de 1959 o povo cubano tinha um índice educacional muito superior ao da generalidade dos povos latino-americanos. O regime de Fidel Castro não é, de forma nenhuma, inteiramente responsável pelos bons índices de educação na ilha.

 

(2) Cuba é muitíssimo maior do que a Madeira. Enquanto a Madeira tem 70 km de comprimento, Cuba tem quase 1.000 km de uma ponta à outra. E a população da Madeira é de 300.000, a de Cuba de onze milhões. Cuba é ligeiramente maior do que Portugal, tanto em superfície como em população. Quero com isto dizer que Cuba tem reais possibilidades de desenvolvimento económico independente. que a Madeira dificilmente teria.

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