Talvez tenha alguma importância para a discussão descrever como uma pessoa como eu, ateia, vê estas temáticas. Talvez por ser um ateu num país historicamente católico eu divido esta temática numa espécie de santissima trindade, isto é, em religião, livro sagrado e Igreja.
E é importante distinguir estas três temáticas pois trato-as de maneira diferente.
A que para mim é mais pacifica é a religião. Para mim é um acto pessoal e enquanto não interferir na liberdade de outras pessoas não julgo criticável nem condenável. É estranho para mim, confesso, por exemplo ver pessoas acreditarem que uma divindade as quer a passar fome durante o dia e terem autênticos festins de comida à noite durante um periodo de tempo do ano para que no final possa ter algo melhor (a "salvação"), ou que recitando uns quantos versos de forma repetida se desculpa qualquer erro que se tenha cometido. E da mesma forma estranho que pessoas acreditem em algo que não têm qualquer prova de existência.
No entanto também reconheço que esta capacidade de ter fé traz bastantes benefícios e como tal não considero nem algo bom ou mau, mas apenas uma caracteristica do ser humano.
Quanto ao livro sagrado (e é valido para a biblia, o al corão, a torah, ou qualquer outro) não só não considero sagrado, como acho que é um mero livro. No caso concreto - a biblia - até acho que a melhor designação seria livros. E como livro é um mero objecto, é desprovido de qualquer maldade ou bondade e não representa nenhuma ameaça (bem a não ser que alguém num acto de furia decida mandar o mesmo à cabeça de outra pessoa). Como livro de leitura não acho minimamente interessante (já o tentei ler por diversas e de várias formas e o insucesso tem sido constante) embora já ache interessante as histórias lá contidas, da mesma forma que gosto da história dos deuses gregos ou de quaisquer outras divindades.
No entanto achei interessante a dessacralização deste livro por parte de quem é contra a opinião de Saramago. Quase todos argumentaram que o livro não é para ser lido de forma literal, o que é um enorme passo, embora coloque sérias duvidas acerca da fonte de sustentação da Igreja e da própria religião, pois se este livro deve ser alvo de interpretações, quais são as interpretações legitimas e quais as ilegitimas? E já agora gostava que me esclarecessem só mais uma coisa: se existiu uma quase unanimidade quanto à subjectividade do texto ainda ninguém disse nada sobre se o texto é ou não de inspiração divina? Adoraria que alguém da Igreja me respondesse a esta simples questão.
E por falar de Igreja, chegamos então à terceira vertente desta "santissima trindade". E se a nível pessoal as anteriores despertam a minha curiosidade, já esta é um tema bem diferente. E o que é a Igreja? Para mim é simplesmente um movimento politico do foro privado (bem embora apenas o seja privado à bem pouco tempo). E, se a memória não me falha, é talvez o movimento politico mais antigo existente na Europa. Desde que Constantino deu o monopólio à igreja católica que Igreja é sinonimo de poder. Todas as suas estruturas, todos o seu plano de acção gira à volta deste objectivo desde o seu início. Dada a nossa conjuntura actual até nos podemos iludir que isso é algo do passado, no entanto julgo que é mesmo isso, uma mera ilusão. A Igreja só existe enquanto fonte de poder, e o seu objectivo é transformar a sociedade para garantir o seu próprio sustento. E convém não esquecer que, como disse anteriormente, estamos a falar de uma estrutura milenar, pelo que de certeza que não desaparecerá num abrir e fechar de olhos nem sequer se modificará, por mais que alguns crentes assim o desejem. Quando os bispos dizem abertamente que os crentes deverão votar nos partidos que respeitam os valores cristãos, não é um mero episódio. É a Igreja na sua essência mais pura. E, desculpem os crente, como movimento politico e de poder, é uma organização altamente condenável. O raciocinio que defendem já promoveu muitas desgraças, a própria Igreja compactuou com enormes atrocidades ao longo da sua história (recente e mais antiga). Aliás a Igreja é um perfeito exemplo de um pensamento ideológico anti-liberal.
Poderão argumentar que a Igreja não é só isso, tem muito trabalho de solidariedade. Concordo com isso, só que essa acção não é a sua acção principal, mas sim acessória ao seu fim. Não é uma ajuda desinteressada, bem pelo contrário e até é semelhante à acção que muitas outras religiões fazem. Serve para criar ligações de confiança que aumentam a rede de apoio à sua causa e é em tudo identico ao que os movimentos radicais islamicos promovem no seu território.
E este ponto levanta-me uma grande questão enquanto liberal. Sendo que defendo maior apoio às IPSS, até que ponto esta ajuda deve ser cega, isto é, até que ponto é que eu ao financiar IPSS de cariz religioso não estou a financiar um projecto que é profundamente anti-liberal e que pode provocar, a longo prazo, uma diminuição da minha própria liberdade?














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