Nesta época em que parece aproximar-se o fim do euro tal como o conhecemos, não falta quem conclua que o projeto dessa moeda foi fundamentalmente errado, por ser impossível colocar países como a Alemanha e a Grécia, com todas as suas diferenças culturais e económicas, a partilhar uma mesma moeda.
A mim este raciocínio parece-me muito pobre. De facto, há no mundo muitíssimos casos de economias diferentes que utilizam uma mesma moeda. Os exemplos mais vulgares são os grandes países federais, como o Brasil, a Rússia, a Índia e a China; em todos eles, há estados com estruturas e capacidades económicas muito distintas, que porém utilizam uma mesma moeda.
Visitei em 1998 algumas partes da Índia. Tendo estado tanto em Goa (à época o Estado mais rico da Índia) como na Bengala Ocidental (um dos Estados mais pobres), pude apreciar as imensas diferenças tanto culturais como económicas entre diversas partes da Índia. Por exemplo, tal como na Europa os salários no Luxemburgo são três vezes maiores do que em Portugal, também na Índia os salários em Goa são três vezes mais altos do que na Bengala Ocidental. Porém, Goa e a Bengala Ocidental usam a mesmíssima moeda, a rupia indiana.
Da mesma forma, na China as diferentes províncias têm graus de desenvolvimento económico muito distintos, porém usam a mesma moeda. E o mesmo se passa no Brasil, na Rússia e, de facto, em muitos outros países.
O problema também não está na existência de Estados federais fortes e poderosos, que recolhem enormes impostos e os redistribuem no sentido de favorecer as partes mais pobres das federações. De facto, não consta que o estado federal indiano cobre muitos impostos e tenha uma política social muito abrangente. Eu diria que as transferências federais de Goa para a Bengala Ocidental devem ser perto de nulas.
O problema, a meu ver, não está portanto no euro. O euro é apenas uma moeda, uma unidade de conta. Nada mais que isso.
O problema da Europa é a dívida. O problema é que a generalidade dos Estados europeus (com raras exceções como, digamos, a Eslováquia ou a Estónia) se habituaram a governar-se com orçamentos muitíssimo desequilibrados, e portanto a viver à custa de endividamento. É esta a originalidade europeia, que distingue a moderna Europa de outras regiões federais, como a Índia ou o Brasil, nas quais, quando não há dinheiro, não há vícios.
O problema do euro consistiu numa arquitetura institucional que se destinou, desde o princípio, a permitir a expansão do crédito e do endividamento, cruciais para a generalidade dos Estados europeus modernos, e também para grande parte das suas populações. De facto, a economia moderna, caraterizada por grandes desigualdades sociais, (sobre)vive em grande parte graças ao crédito, que permite manter o poder de compra das classes mais pobres em níveis aceitáveis e, dessa forma também, manter a procura agregada em níveis aceitáveis. Da mesma maneira, os Estados europeus modernos, todos eles, necessitam de crédito como de pão para a boca, pois todos eles manifestam total incapacidade de manter os seus orçamentos equilibrados a longo prazo - quando muito, conseguem mantê-los equilibrados em períodos de bolhas especulativas, como recentemente na Irlanda e na Espanha.
Neste requiem pelo euro, convem então concluirmos que nada de mal há na ideia do euro como moeda única para a Europa, da mesma forma que nada de errado há na ideia da rupia como moeda única para a Índia. O problema não é a unicidade da moeda. O problema é a expansão do crédito e da dívida.














Então e comparas com países
Anónimo (não verificado) on Quinta, 24/05/2012 - 16:35Então e comparas com países pobres, ou cujos povos vivem maioritariamente na miséria?
O que te diz isso, que funciona?
O problema é outro
João Cardiga on Quarta, 23/05/2012 - 05:03Para mim o problema é outro. Não sei como está agora, mas antes de sair a dívida agregada da zona euro (ou União Europeia, não tenho a certeza) estava em níveis aceitáveis. O grande problema a meu ver surge não "originalidade" do euro. É que todos os exemplos que deste, são casos em que a moeda coexiste com instituições politicas federais. Já no caso europeu isso não existe.
Transformar a zona euro não resolveria todos os problemas (existem muitos problemas de raiz que não desaparecem) mas criaria a folga necessária para aliviar a pressão. Aliás um dos motivos desta crise é mesmo essa...
federais
Luís Lavoura on Quarta, 23/05/2012 - 09:16As instituições políticas federais têm muito pouco poder em países subdesenvolvidos como a Índia, ou mesmo a China e o Brasil. A percentagem do PIB que o Estado federal indiano recolhe (sob a forma de impostos) e gasta é provavelmente negligível e não chega para alterar significativamente as diferenças entre os Estados que compõem a União Indiana. É por isso que, propositadamente, eu uso no meu post os exemplos dos BRIC (que são todos eles países federais), e não dos EUA. Os EUA são um país no qual o Estado federal recolhe muitos impostos e tem portanto uma efetiva capacidade redistributiva entre as diferentes regiões da federação. O Estado federal indiano não tem tal capacidade.
Uma nova perspectiva
Bruno A. (não verificado) on Terça, 22/05/2012 - 20:09Realmente, quando olhamos para Estados Federais pensamos logo no Big One, EUA, e isso conduz a algumas más interpretações. Tens razão. Mas o nó górdio do euro é que o mal já está feito. Isto é, a dívida já assumiu valores asfixiantes. O teu raciocínio, porém, dá alguma esperança para o futuro.
Uma nova perspectiva
Bruno A. (não verificado) on Terça, 22/05/2012 - 20:09Realmente, quando olhamos para Estados Federais pensamos logo no Big One, EUA, e isso conduz a algumas más interpretações. Tens razão. Mas o nó górdio do euro é que o mal já está feito. Isto é, a dívida já assumiu valores asfixiantes. O teu raciocínio, porém, dá alguma esperança para o futuro.
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