Normalmente não costumo misturar as minhas reflexões profissionais (académicas) com as minhas reflexões politicas, no entanto cada vez tem sido mais difícil encontrar uma fronteira. Este é o meu primeiro texto em que misturo questões técnicas da minha área de especialização (Psicologia das Organizações/Comportamento Organizacional/Gestão de Recursos Humanos) com questões de cariz mais politico.

Nenhum especialista de comportamento organizacional nega a influência do contexto politico na vida das organizações, sendo este encarado com um dos sistemas intimamente ligado ao sistema organizacional. Apesar disso são poucos aqueles que estudam o impacto das politicas nacionais nas politicas de gestão de recursos humanos (GRH).

Uma das premissas existentes na GRH é de que a organização deve não só atrair os melhores colaboradores como também fazer tudo para os reter. No entanto, esta premissa não funciona (na prática) em Portugal. No nosso país existem duas forças contrárias, uma exercida pela gestão de recursos humanos que defende, e muito bem, que os activos humanos mais valiosos devem ser retidos a todo o custo e uma outra constituída pela legislação laboral que implica que se uma empresa aposta demasiado tempo num colaborador arrisca-se a ter com ele um vínculo permanente não voluntário (automaticamente através da aplicação da lei e não por iniciativa de uma das partes). Qual o resultado destas forças? A gestão prefere não arriscar e despedir antes de o colaborador se tornar efectivo. Esta supremacia da força da lei em relação à adopção de politicas de recursos humanos mais eficazes faz com que exista uma baixa produtividade nacional, uma vez que as organizações não conseguem maximizar a produção através da gestão do capital humano.

Este é um dos problemas com que se debatem os gestores de recursos humanos portugueses que se vêm muitas vezes impedidos de adoptar as melhores práticas de gestão de activos humanos por força da lei.

Só uma ressalva. O director

André Escórcio ... on Quarta, 23/09/2009 - 10:17

Só uma ressalva. O director de Recursos Humanos não tem em lado nenhum, nem pode ter visto que não faz parte das suas funções, poder na decisão de despedimento, quanto muito pode ser chamado a dar um parecer técnico sobre essa decisão, mas o poder é muito pouco..

Quem normalmente despede são as chefias directas ou a gestão de topo.

Esse é outro problema, é que os próprios colaboradores também não sabem o que é a função Gestão de Recursos Humanos, mas quanto a isso já estou habituado. Tenho o azar de estar na área da Psicologia que ninguém sabe o que é e dentro dessa estar na sub-área da Psicologia das Organizações que ainda se sabe menos. Mas é natural, quando os próprios gestores e empresários portugueses (essencialmente de PME'S) que deviam saber não o sabem... Não censuro que os colaboradores e o público em geral não saibam.

Obrigado pelos teus comentários e por esta discussão.

Retrato de Luís Lavoura

Bom post

Luís Lavoura on Terça, 22/09/2009 - 11:10

Temos portanto alguns problemas identificados:

1) O trabalhador é bom mas é despedido antes de ser passado a efetivo, porque o empregador tem medo de, uma vez ele passado a efetivo, jamais o poder despedir;

2) Os trabalhadores efetivos sabem que não podem ser despedidos, portanto trabalham abaixo das suas potencialidades;

3) A gestão de recursos humanos é má.

Sobre o último ponto, eu posso asseverar que, tendo eu conhecido a minha mulher quando ela ainda trabalhava em empresas privadas grandes e com uma gestão de recursos humanos, pude constatar, pelo que ela me contava, que efetivamente a gestão de recursos humanos nas empresas portuguesas é uma farsa, é uma não-gestão. Não há gestão de recursos humanos com o objetivo de arranjar os melhores recursos humanos para a empresa, mas sim com o objetivo de satisfazer vaidades e ambições pessoais. Eu não me custa a acreditar, pelo que a minha mulher me contou das diversas empresas em que trabalhou, que Portugal seja o país sub-desenvolvido que é - é que a gestão de recursos humanos é uma verdadeira desgraça em Portugal.

Luís Lavoura

Puxando um pouco a brasa à

André Escórcio ... on Terça, 22/09/2009 - 14:43

Puxando um pouco a brasa à minha sardinha: não creio que seja a grh que seja má, o problema é não existir grh.

O problema não é as empresas terem maus profissionais de GRH, mas antes não o terem de todo. Em muitas empresas em Portugal (PME'S) chamam gestão de recursos humanos ao processamento salarial feito pelo director financeiro ou pelo tesoureiro da empresa e a algumas acções de formação feitas de forma avulsa apenas para cumprir a lei.

O problema é não existir GRH.

Retrato de Luís Lavoura

Grandes

Luís Lavoura on Terça, 22/09/2009 - 15:59

Eu referia-me a grandes empresas, não a PMEs.

Nas grandes empresas existe um gestor especificamente chamado "diretor de recursos humanos" ou coisa parecida.

O problema que eu observei, com a minha mulher, é que esses gestores não procuram, de facto, trazer os melhores talentos para a sua empresa. A sua função é antes dar empregos em função de pressões, e tirar empregos em função de outras pressões. (O princípio da "cunha".) Bons profissionais são despedidos para dar lugar a maus profissionais, os quais pouco mais tarde serão eles também despedidos para dar lugar a ainda outros. Profissionais com anos de experiência são postos sob as ordens de outros que não têm experiência nenhuma. Algumas pessoas são sacrificadas para promover outras. As necessidades específicas de cada trabalhador são negligenciadas. Não há qualquer espécie de verdadeira gestão do pessoal, dos seus conflitos mútuos, das suas capacidades específicas, das suas potenciais incompatibilidades, etc.

Ou seja, há gestores de recursos humanos, mas eles na verdade nada gerem. São uns inúteis, são uns nabos. Nada que surpreenda, ao fim e ao cabo - estudos internacionais dizem que os gestores portugueses são os piores de toda a Europa.

Luís Lavoura

Aí já discordo, as grandes

André Escórcio ... on Terça, 22/09/2009 - 16:10

Aí já discordo, as grandes empresas em Portugal têm relativamente boas politicas de rh, obviamente umas melhores que outras.

Esses estudos que falas eu também os conheço e nunca vi nenhum a referir-se à gestão de recursos humanos, normalmente referem-se às direcções gerais da organização, à gestão de topo. Infelizmente os Directores de Recursos Humanos não são, na maioria das vezes, colocados ao mesmo nível que a gestão de topo nas organizações. Ma já agora a que organizações te referes? Gostava de ter exemplos.

Retrato de Luís Lavoura

resposta

Luís Lavoura on Quarta, 23/09/2009 - 08:56

Como é natural, não posso dar os nomes das empresas em que a minha mulher trabalhou e observou a má gestão dos recursos humanos. Mas foram muitas.

"Infelizmente os Directores de Recursos Humanos não são, na maioria das vezes, colocados ao mesmo nível que a gestão de topo"

Talvez seja esse o problema: não têm poder real.

O que a minha mulher observou, continuamente, foi bons colaboradores a serem despedidos apenas para dar lugar a um outro colaborador. As empresas a gastarem carradas de dinheiro no despedimento de bons trabalhadores, ou a pô-los na prateleira, apenas para fazerem a vontade ao ego de outros trabalhadores. Maus colaboradores eram postos a chefiar bons, e depois expulsavam-nos. Tudo perante a passividade ou a cumplicidade de diretores de recursos humanos que, ou não viam os dramas humanos que se passavam à sua volta, ou não intervinham. A minha mulher disse-me que, em quase todas as empresas em que trabalhou (a única exceção foi uma americana, a fabricante das lâminas Gillette), era uma sacanagem de alto a baixo, com os colaboradores a lixarem-se uns aos outros, a sacanearem-se, a despedirem-se em cascata uns aos outros. E tudo com a cumplicidade dos gestores de recursos humanos.

Luís Lavoura

Retrato de João Cardiga

Links

João Cardiga on Terça, 22/09/2009 - 16:36

Poderiam-me disponibilizar links para esses estudos?

Retrato de João Cardiga

Um aparte...

João Cardiga on Terça, 22/09/2009 - 10:45

"O medo dos empresários/gestores é que as pessoas com a efectividade passem a trabalhar muito abaixo da suas suas potencialidades."

Um empresário/gestor que aja por causa disso, isto é não torne esse colaborador efectivo, nem devia de gerir ou ter uma empresa. Se não consegue assumir esse risco, quanto mais os outros que são bem maiores ;)

P.S. Excelente artigo, julgo que deves repetir mais vezes...

Retrato de João Cardiga

Só um reparo...

João Cardiga on Segunda, 21/09/2009 - 22:35

Só gostava de fazer um reparo:

"A gestão prefere não arriscar e despedir antes de o colaborador se tornar efectivo."

Quem faz isso pura e simplesmente não faz uma gestão de recursos humanos. É que actualmente é possível estar com contrato a termo por 6 anos. Quem em 6 anos não consegue saber se o colaborador é bom ou mau é porque não tem qualquer politica de recursos humanos.

Obviamente quem decide se o

André Escórcio ... on Terça, 22/09/2009 - 07:37

Obviamente quem decide se o colaborador fica ou não, não é a gestão de recursos humanos mas antes a gestão de topo ou as chefias intermédias.

O problema não é só saber se é bom ou mau. Se por exemplo vieres ao meu local de trabalho consegues perfeitamente saber quem está a contrato e quem está efectivo... O medo dos empresários/gestores é que as pessoas com a efectividade passem a trabalhar muito abaixo da suas suas potencialidades.
Claro que a aqui deve entrar a gestão de recursos humanos profissional, no entanto grande parte das empresas a operar em Portugal não têm gestão estratégica de rh, e muitas das que reconhecem esta necessidade colocam gestores (pessoas com formação em gestão) e advogados a fazer este trabalho. O resultado salta à vista....

Obrigado pelos vossos comentários.

Retrato de artur baptista

A questão é que os

artur baptista on Segunda, 21/09/2009 - 16:26

A questão é que os partidos estão mais interessados nos "trabalhadores", isto é, quem já tem emprego e que não quer flexibilidade de emprego até porque dá votos firmes, e menos no "trabalho" que tem de ter essa flexibilidade para ser sustentável.
Mas deixa-me referir que, sendo gestor de uma empresa multinacional industrial, esta questão da Psicosociologia na Trabalho é das que mais tempo e estudo me levam, pois a base da minha (e de todas) são as Pessoas (e isto não é só rectorica).

Retrato de João Mendes

Pois

João Mendes on Segunda, 21/09/2009 - 15:31

O problema é que as nossas leis laborais se parecem preocupar mais com os empregados que com os desempregados. Não me parecem pensadas tendo em conta todo o sistema.

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