Retrato de Luís Lavoura

Os Açores são um arquipélago constituído por nove ilhas. Todas as nove ilhas são diferentes, claro, mas há uma que é mais diferente do que as outras: São Miguel. São Miguel é a maior das nove ilhas e tem metade da população dos Açores. Ou seja, de todas as outras oito ilhas, só uma - a Terceira - tem população vagamente comparável à de São Miguel mas, mesmo assim, todas elas oito juntas não ultrapassam a população de São Miguel. São Miguel tem também uma sociedade muito mais desigual do que a das restantes oito ilhas - enquanto que nelas prevalece a igualdade de rendimentos, e uma grande entreajuda entre a população, em São Miguel há grandes extremos de pobreza e riqueza. As famílias açorianas muito ricas são todas de São Miguel, e os horríveis extremos de pobreza nos Açores são também todos encontrados em São Miguel (essencialmente nas partes norte e leste da ilha). Uma outra curiosidade de São Miguel é que os seus habitantes falam com uma pronúncia muito acentuada e caraterística, parecida à pronúncia madeirense e, nos casos mais extremos, quase incompreensível para os portugueses do Continente, enquanto que em todas as outras oito ilhas as pronúncias dificilmente são distinguíveis da pronúncia portuguesa padrão.

Dadas estas singularidades de São Miguel relativamente a todas as outras ilhas, não pode deixar de ser peculiar o seguinte. Qualquer natural dos Açores, com exceção dos de São Miguel, diz tipicamente "eu sou da ilha X", mas os micaelenses sistematicamente dizem "eu sou dos Açores". Ou seja, São Miguel identifica-se sempre com "os Açores", enquanto que todas as outras oito ilhas se singularizam a si mesmas. Se alguém diz que é dos Açores, é certo e sabido que é de São Miguel; qualquer habitante das outras oito ilhas dirá de que ilha é, jamais dirá apenas que é dos Açores.

Esta peculiaridade foi horrivelmente visível nas recentes reportagens sobre um autocarro caído por uma ribanceira abaixo na zona nordeste de São Miguel - não por coincidência, uma das zonas mais pobres de Portugal. Há ribanceiras em todas as ilhas açorianas, e um acidente destes é muito diferente consoante ocorra numa ilha pequena, como as Flores ou a Graciosa, onde todas as pessoas se conhecem entre si, ou numa ilha grande e impessoal como São Miguel. O mínimo que se exigiria seria, enfim, que as reportagens dissessem que o desastre ocorreu em São Miguel, para localizar com alguma precisão. Mas não: as reportagens disseram sistematicamente que "nos Açores um autocarro caiu por uma ribanceira" e tivemos que esperar até ouvir a típica pronúncia de um habitante local a falar para percebermos que o desastre ocorrera em São Miguel.

Seria pedir de mais, que os micaelenses mudassem os seus hábitos e passassem a identificar a ilha de que são naturais em vez de se refugiarem no "sou dos Açores". Mas pode-se exigir dos mídia nacionais que não adoptem este procedimento de confundir São Miguel com os Açores. Quando algo ocorre em São Miguel, deve-se dizer onde ocorreu, e em particular em que ilha ocorreu - não se deve dizer apenas "nos Açores".

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