Dorothée foi uma figura que marcou uma época, para qualquer criança que viveu em França durante as décadas de 80 e 90. Cantora, actriz e apresentadora, coordenou entre 1987 e 1997 o célebre Club Dorothée, até este ser progressivamente despido das séries mais populares, e ser depois definitivamente encerrado, fruto de uma cruzada moralista e puritana como nunca vi num país ocidental.
Depois das associações de pais terem pressionados os meios políticos, foi Ségolène Royal que proibiu definitivamente o Programa e o Dragon Ball, assim como todos os desenhos animados japoneses na televisão francesa, impondo exclusivamente produção nacional no espaço infantil que ficou vago. Essa situação vigora até hoje: os franceses são os maiores consumidores de manga e anime. É na fnac que encontro a melhor secção em Lisboa. Mas apesar disso, os desenhos animados japoneses foram erradicados da televisão francesa. A falência do canal 5, posteriormente nacionalizado e renomeado Arte, também limpou os anime do panorama francês. O canal, gerido pelo estado francês há mais de 10 anos retirou toda a programação juvenil da sua grelha, apresentando hoje apenas programas culturais no âmbito de serviço público.
O formato do Club Dorothée, provavelmente importado do Show da Xuxa no Brasil, apresentava desenhos animados e séries juvenis. Entre os desenhos animados e séries, Dorothée e os outros protagonistas representavam pequenos sketches, concursos e concertos. Os mais populares foram os Cavaleiros do Zodíaco, Maison Ikkoku, Candy, e sobretudo Dragon Ball e Dragon Ball Z.
Ainda a lutar pela sobrevivência, Dorothée é aqui entrevistada e pressionada a justificar-se perante a alegada violência presente nos desenhos animados japoneses. Dorothée defende-se, desmentindo o carácter violento dos programas que apresenta, e sossega os telespectadores pelo facto dos programas serem previamente aprovados por uma equipa de psicólogos (cuja identidade estranhamente nunca foi revelada), e diz que sempre que um episódio causa problemas é cortado. Isto explica a frequente falta de cadência lógica dos episódios do Dragon Ball que foram mais tarde exportados para Portugal a partir da versão francesa: não só lhes eram cortadas as cenas mais picantes, como também a tradução era uma suavização do original, ou mesmo falas novas completamente inventadas, adaptadas unicamente à realidade portuguesa ou francesa, consoante as versões, resultado que confesso por vezes ter sido cómico e bem conseguido, mas não é o original censurado. Auto-censura essa que de nada serviu, pois o programa de Dorothée, assim como qualquer episódio da continuação de Dragon Ball foram proibidos em França devido às pressões de associações de pais que resultaram na sua proibição legal levada a cabo por Ségolène. Dorothée aqui é também confrontada com a resposta que deu no próprio programa às críticas: existe uma cena em que o livro de Ségolène, Le Ras-le-bol des bébés zappeurs , é deitado para o lixo. Eu considero a auto-censura como a pior forma de censura, pois esta concede uma legitimidade moral a quem pretende calar ou intimidar. Foi talvez o argumento que os censores tanto esperavam para dar o golpe de misericórdia. Foi-lhes dado de bandeja.
Aqui, Ségolène (ainda mera deputada Socialista no parlamento) despeja todo o seu fel contra os desenhos animados japoneses (sem distinção), classificando-os de horríveis e execráveis. "Il faut parler des dessins animés japonais qui sont éxécrables, qui sont terribles". Várias foram as intervenções a criticar o mau gosto, e o aspecto comercial ("la logique de la commercialisation de l'argent est telle, que je crains des pressions de toutes sortes...") das séries, assim como o facto destas não terem um aspecto didáctico, como teriam na boa tradição francesa. Ségolène aqui deixa a entender de maneira um pouco subtil que vai agir pela calada, pois este é o único modo de agir contra um mundo audiovisual que cede aos interesses comerciais, e não pode portanto ser completamente aberta nas suas críticas. Na verdade é um argumento bastante subtil que tem como destinatário, não o telespectador, mas sim Dorothée e a produção do programa. Um puro argumento intimidatório por parte de quem tem o poder legislativo e judicial do seu lado.














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