Sócrates considerou "absolutamente demagógica e fantasista" a proposta da CGTP de fazer subir o salário mínimo nacional para 500 euros até 2010.
Não conheço pormenores dessa proposta, mas acredito que tenha sido devidamente fundamentada e que merecesse, pelo menos, alguma atenção por parte do primeiro-ministro.

Porém, José Sócrates optou por descartar a proposta em três tempos, alegando que "uma tão súbita variação nos salários só traria mais desemprego e aumento da inflação". Será assim tão claro que uma coisa seja consequência da outra? Será que o efeito psicológico desse aumento do salário mínimo não dinamizaria o consumo interno, ajudando assim à recuperação da economia e, eventualmente, à criação de emprego?

Já se viu perfeitamente que não foram as medidas de contenção aplicadas pelos três últimos governos que evitaram o aumento do desemprego e a subida da inflação. Aliás, a única coisa que aumentou durante este tempo foram os escândalos públicos relacionados com as elevadas reformas e subvenções estatais de alguns (ex-)responsáveis políticos.
Se tal antes não suscitara falatório público não era porque não existisse, mas porque o fosso entre ricos e pobres era menor, o que dava um dramatismo menos mediatizável à questão.

Assim sendo, é preciso inverter o sentido deste fosso - fazê-lo diminuir em vez de aumentar. É preciso contrariar a actual política de salários baixos que vigora em Portugal e que, como já se viu, só gera miséria em grandes camadas da população. É que, com miséria não há liberdade.

Retrato de Luís Lavoura

Em relação ao último

Luís Lavoura on Segunda, 07/11/2005 - 14:20

Em relação ao último comentário: o que interessa debater não é o mercado de arrendamento em particular, mas sim o mercado imobiliário como um todo. Muitas das maleitas de que sofre o mercado de arrendamento são de facto maleitas do mercado imobiliário como um todo. Penso também que muitas das esperanças que se depositam numa liberalização do mercado de arrendamento são infundadas. Ou seja, essa liberalização, se ocorrer, não eliminará muitas das disfunções que atualmente se observam.

Retrato de Miguel Duarte

Pois...

Miguel Duarte on Domingo, 06/11/2005 - 18:38

O nosso salário mínimo é baixo. É completamente impossível sobreviver-se (com o mínimo de dignidade) em Lisboa ou Porto, com o salário mínimo que existe. Aliás, nem 500 € por mês iriam resolver o problema. Pois com o actual mercado de arrendamento, o aluger de um simples quarto é de 200€ a 300 € por mês. Se a isto acrescentarmos despesas como o passe, comida, vestuário, etc., facilmente vemos que mesmo 500 € é algo muitíssimo apertado.

No entanto, com a taxa de desemprego a aumentar, com a nossa economia em recessão e com grandes problemas em termos de competitividade penso que subir o mesmo neste momento acabaria por provocar muitos estragos e como Sócrates disse, efectivamente gerar mais desemprego.

A solução é mesmo como se tem defendido, crescer via as exportações e o investimento estrangeiro. Se conseguissemos baixar o desemprego, os salários subem naturalmente e a grande aposta tem que ser por aí.

Infelizmente, os sindicados tendem a defender as condições dos empregados, que é quem lhes paga as quotas em detrimento dos que estão desempregados.

Estratégias válidas, mas...

Luís Humberto T... on Segunda, 07/11/2005 - 12:24

Em relação à ideia de que a solução é crescer via as exportações e o investimento estrangeiro, gostava apenas de relembrar duas coisas: concentração da riqueza e deslocalizações de multinacionais.

Com isto não quero dizer que as exportações e a captação de investimento estrangeiro não sejam estratégias válidas e até necessárias para fazer crescer a economia. Não podemos é colocá-las como prioridades quando, internamente, temos um problema de fraco consumo de produtos nacionais por resolver.

Nesse aspecto, a campanha "o que é nacional é bom" que proponho na resposta ao Luís Lavoura é necessária, mas só resultará se os consumidores tiverem condições financeiras para optar por produtos portugueses (que em alguns casos serão certamente mais caros do que os estrangeiros) e motivação psicológica para tal (saber que isso contribui para ajudar o país a prosperar e que todos ganham com isso, não apenas alguns).

Quanto a outros pontos que aqui abordas, como o mercado de arrendamento, isso também é discussão que dá pano para mangas e na qual o Luís Lavoura certamente participará quando ocorrer. ;-)

Retrato de Luís Lavoura

O aumento do salário

Luís Lavoura on Domingo, 06/11/2005 - 18:23

O aumento do salário mínimo dinamizaria, sem dúvida, o consumo interno. Mas há dois problemas com esse efeito.

Primeiro, o consumo interno português já tende a ser demasiadamente elevado (o nível de poupança é muito baixo, o país importa capitais para continuar a consumir).

Segundo, o consumo interno adicional dirigir-se-ia, em grande parte, para produtos importados.

Num regime de mercado aberto ao exterior, como o nosso, um país só tem desvantagem em incentivar o seu consumo interno. Há, de facto, uma probabilidade muito forte de o consumo acrescido se orientar sobretudo para produtos importados.

"O que é nacional é bom"

Luís Humberto T... on Segunda, 07/11/2005 - 12:12

Quanto ao nível de poupança, ele é realmente bastante reduzido em Portugal. Mas também, se as pessoas não ganham o suficiente para as despesas do dia-a-dia, como é que podem poupar?
Aliás, grande parte delas, além de não pouparem, recorrem excessivamente ao crédito, o que cria um agravamento das suas condições económicas a médio e longo prazo, devido ao pagamento dos juros.

Quanto ao facto do consumo interno se dirigir sobretudo a produtos importados, penso que tal se poderia inverter com uma aposta global nos produtos nacionais.
Talvez fosse boa ideia lançar uma campanha a favor dos "produtos da indústria portuguesa" (há quanto tempo não se ouve o slogan "o que é nacional é bom"?), à semelhança do que se faz no Brasil com os produtos brasileiros.
Quando lá estive, recordo-me de ver muito nos supermercados a indicação "Produto da indústria brasileira", e desses produtos estarem a preços competitivos e serem de qualidade. Obviamente, vendiam-se que nem pãezinhos quentes no Inverno, o que só trazia vantagens à economia do país.

Resumindo, quando faço a defesa de um aumento substancial do salário mínimo, é claro que não penso que esse aumento fosse a única medida a tomar, pois as medidas isoladas não fazem milagres.

A constante recordação de que se vive com dificuldades tolda muitas vezes os espíritos inovadores e o optimismo geral, impedindo uma saída mais rápida da situação de crise.
Por isso, e sem dizer que a CGTP tem toda a razão na proposta que avança, critico José Sócrates por descartar liminarmente alternativas que lhe são apresentadas, só porque aparentemente contrariam um preconceito (ou conceito prévio, se preferirem) que ele já tem.

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