José Saramago disse o que pensava. Caíu o carmo e a trindade. José Saramago causou que danos ao dizer aquilo que disse? Ofendeu gente? E depois? Parte de se viver numa sociedade livre é que, de vez em quando, se pode ouvir uma opinião que nos ofenda. Politicamente, religiosamente, o que seja. Não estou eu farto de ouvir opiniões sobre os mais variados temas, e mesmo sobre o liberalismo, que me ofendam? Estou. E depois?
Saramago disse o que quis e a Igreja respondeu como quis. É assim e acabou-se. Não estamos aqui a falar de mentiras que causaram danos sequer, estamos a falar em opiniões pessoais sobre questões religiosas. Hoje em dia, pode dizer-se o que se pensa, em relação a política, religião, o que seja. E há que lutar para que se continue a poder.














Liberdade também é para sermos parvos.
Martim H. (não verificado) on Sábado, 24/10/2009 - 19:14Toda a gente tem o direito a dizer o que pensa. Assim o é para Saramago. E Ainda bem!
Ainda não li o livro, mas está é a minha percepção.
A polémica que se está a passar é um insuflar dos media a partir dum profundo anacronismo que o Saramago resolveu fazer. É das coisas mais basicas do curso de história saber que a lenda de Caim e Abel é um reflexo de tradições do próximo oriente invertidas e adaptadas a uma realidade semi-sedentária como o caso dos hebreus antes de se estabelecerem em Canaã (por isso é que deus rejeita o agricultor e esse é banido para outro local, fazer cidades e metalurgia, etc..., Mas em outras tradições dessa estrutura mítica o agricultor é preferido). Portanto usar um assunto de filologia para dizer, com um ar de falsa superioridade moral, à "Igreja" que venera um Deus filho da P*** parece-me má fé e pura e simples estupidez.
Mas vivemos numa sociedade livre e há obviamente espaço para a expressão da idiotice, e acho isso muito bem. Cada um é livre de fazer perder o respeito que lhe foi atribuído como autor literário. Pois ainda bem que vivemos numa sociedade para podermos dizer que na sua obra, procurou ofender à priori um certo "target" baseando-se na sua ignorância sobre obras compósitas do próximo oriente antigo.
Tenho um grande respeito pelo Saramago enquanto autor (aliás extraordinário), mas cada vez menos enquanto pessoa. Teve o azar de debater com um franciscano, teólogo e filólogo, e mostrou a careca.
Espero que outros não sigam o mesmo exemplo do Saramago, que baseando-se em leituras erradas, anacronismos propositados e ideias feitas ofende, ridiculariza e descrimina os crentes, como o fez ontem na SIC/SIC Notícias, no fundo, praticando o mesmo que a Igreja fez durante séculos perante outros grupos sociais e religiosos (ou a-religiosos). Cairão no ridículo. Ele está a fazer o mesmo que os Evangélicos americanos argumentam perante o evolucionismo: «Mas está la escrito que somos filhos de macacos!!» Leituras anacrónicas e com pressupostos á priori da teoria da evolução resultam em... ridículo. Também funciona no campo da Filologia Bíblica.
Era uma vez um homem chamado José que não gostava da Igreja e tinha rancor com Deus. E como não era Job, não foi recompensado o suficiente.
Está a cair o Carmo e a trindade pois o Saramago resolveu, fora do livro, insultar. E ainda bem que o pode fazer. Felizmente que vivemos numa sociedade onde somos livres para ser ignorantes.
As origens do texto e o texto
Miguel Duarte on Domingo, 25/10/2009 - 09:27Martim,
É irrelevante que o texto bíblico é baseado num conjunto de histórias e lendas em muito anteriores a ele. Muita gente sabe isso e muita outra gente quer ignorá-lo. O que conta é o que lá está escrito e que aquilo é considerado "sagrado".
Se a bíblia fosse apenas um mero livro de histórias e fosse aceita pela Igreja apenas como lendas e mitos, estava tudo muito bem. Aliás, se assim fosse não tinha havido esta polémica. Muitas das histórias como contadas são de facto exemplos da maus costumes, e a Igreja respondia simplesmente, que sim, tal é verdade, a sociedade evoluiu e muitas das histórias representam a visão de sociedades com milhares de anos que já não se aplicam aos nossos dias e que têm que ser vistas no contexto do momento em que foram escritas. Chegar-se-ia à conclusão que o Saramago não tinha dito nada de relevante e ninguém teria ficado ofendido, pois ele disse meramente algo óbvio, a Bíblia está cheia de maus exemplos.
Mas tenho a impressão, posso estar enganado, que a Igreja até hoje ainda considera que aquilo foi escrito por inspiração divina.
Muito pelo contrário
Martim H. (não verificado) on Domingo, 25/10/2009 - 17:45Miguel,
Eu acho que isso é relevantíssimo.
O que ele está a fazer, ao discutir com filólogos e teólogos (não está a discutir com bispos e párocos atenção...), é o mesmo que acontece quando sentam um criacionista ignorante à mesa com biólogos e antropólogos.
Vejamos o seguinte exemplo: Um senhor chamado Saramago-2 é muito crente em Deus (evangélico) e lê um livro chamado "A Origem das Espécies", e vai berrar ao Dawkins que ele está errado, porque o Darwin diz que somos filhos de macacos. Ora como podes ver, esta situação é puramente idiótica, mas já aconteceu. Inverte isto no campo da História, Filologia, Sociologia e Antropologia, ciência social em geral, e estamos a falar da mesma coisa. Um filólogo, o mais ateu e secular que existe à face da terra, usa a bíblia como ferramenta de estudo, e vai achar que o Saramago está a dizer barbaridades.
Não estou a dizer que a Bíblia não tem maus exemplos aos nossos olhos, estou a dizer que vivemos numa sociedade desenvolvida o suficientemente para saber porquê que os têm, e o que é que a Biblia é. Os teólogos católicos são racionais e já o entenderam à muito tempo. É lhes por isso estranho que o Saramago venha pensar que os tramou a todos agora que resolveu abrir a Bíblia. Principalmente quando se põe a insultar os crentes, com base nessa ignorância. O que ele está a fazer é o equivalente do nosso Saramago-2, virar-se para o Dawkins e a todos os ateus, e dizer: «já que vocês acreditam que são filhos de macacos então são todos uns macacos ignorantes por acreditarem nessa parvoíce! Está lá escrito que são filhos de macacos! Portanto vocês acham que são macacos! Hahaha macacos!»
Ele tem todo o direito de o fazer, tanto o nosso Saramago como o nosso Saramago-2 criacionista evangélico intolerante e ignorante.
Uma sociedade racional, não se baseia só nas alternativas oferecidas pelos métodos e conhecimentos da ciência natural, mas também pelos méritos da ciência social. Vivemos numa sociedade desenvolvida o suficiente para saber que o mundo não foi criado em sete dias, mas ainda não para saber porque é que as pessoas achavam que o tinha sido?
Agora se a igreja, no plano do rito e do mito, aceita os textos como escritos por inspiração divina, eu não tenho nada a haver com isso, e não parto daí para o insulto consciente, para defender o meu ponto de vista. Mesmo que ache que eles não o são, ou que foram escritos por um marciano. Mesmo que houvesse um décimo primeiro mandamento que dissesse que deveríamos todos usar chapéus mexicanos.
Discutir com filósofos e teólogos?
Miguel Duarte on Domingo, 25/10/2009 - 18:23Não me parece que Saramago tenha querido discutir com quer que seja alguma coisa e muito menos com teólogos. Apenas disse que o livro era um mau livro no que toca a bons exemplos de comportamento ético.
E efectivamente não percebo porque dizer que um livro é um manual de maus costumes tal é um insulto. É uma mera crítica, forte, mas apenas uma crítica.
E, muito sinceramente, como ateu tenho todo o direito de criticar as religiões, inclusivamente porque não considero que as religiões sejam propriamente algo benéfico para a humanidade.
Talvez desconheça...
João Cardiga on Domingo, 25/10/2009 - 18:03Talvez desconheça outros comentários pois não acompanhei muito por dentro para além das afirmações iniciais, mas o que ele disse não foi apenas:
- a biblia é um manual de maus costumes;
- e que existem um rol de atrocidades na biblia;
Onde é que isto é um insulto?
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