Retrato de Miguel Duarte

Lê-se muito na imprensa portuguesa sobre o Chipre, infelizmente, pouco li que tivesse um profundidade suficiente para explicar as verdadeiras causas do que se passou e as razões das decisões tomadas. No geral, leio muitas opiniões populistas e pouco informadas. Estes parágrafos que se seguem tentam explicar um pouco da história e do que nos conduziu à situação atual.

O problema do Chipre começou com uma aposta estratégica do país no seu sistema bancário, que contém depósitos que representam quase 9x o valor do PIB do país. Um sistema bancário com esta dimensão é obviamente extermamente difícil de salvar pelo próprio país. Para atrair depósitos, os bancos ofereciam taxas de juro que ultrapassavam os 6%, além de o Estado oferecer uma taxa de IRC de 10% e taxas sobre os rendimentos também relativamente baixas. A aposta correu bem, até ao dia em que a dívida da Grécia foi "perdoada" em quase 75%.

Com o perdão da dívida grega, os bancos Cipriotas, que tinham investido fortemente em dívida grega, por forma a, em parte, poder oferecer as taxas de juro elevadas que ofereciam (questões de proximidade cultural também foram importantes nesta decisão), viram uma fatia significativa dos investimentos que sustentavam os depósitos a prazo nos seus bancos evaporar-se do dia para a noite.

Chegamos então à história mais recente, em que temos bancos em situação de falência e uma decisão de taxar todos os depósitos a prazo. A razão que levou a desta decisão foi uma tentativa de se salvar o sistema bancário Cipriota, e, ao contrário do que se sugeriu, a proposta e insistência em taxar todos os depósitos a prazo foi uma decisão Cipriota. A proposta que existia em cima da mesa anteriormente era uma proposta que, como se veio a decidir posteriormente, propunha a taxação dos empréstimos superiores a 100.000 (que não estavam cobertos pela garantia bancária). Na minha opinião, ambas as propostas eram incorretas e injustas, pois queriam fazer pagar pelos erros cometidos por dois bancos, todos os depositantes, quer aqueles que tinham depósitos abaixo do valor da garantia bancária, quer aqueles que tinham depositado o seu dinheiro em bancos que tinham sido mais prudentes. A reação pública a esta proposta foi forte e como sabemos, o parlamento rejeitou (e bem) a mesma.

Finalmente, chegamos à situação atual, que apesar de tardia, acabou por ser a solução mais correta. Apenas irão perder uma parte do valor dos seus depósitos os depositantes com montantes acima de 100.000€, nos bancos que estavam em apuros. Vê-se muita incompreensão por parte de muita gente relativamente a esta medida, mas a realidade é que as regras em vigor, no que toca aos bancos, são essas. No caso de falência de um banco, e em situações em que o Estado não salve o banco (como aconteceu em Portugal com o BPN e o BPP), os acionistas e detentores de obrigações dos bancos perdem o seu dinheiro, mas, os depositantes, para os valores acima da garantia bancária (100.000€) também irão perder parte dos seus investimentos. A consequência direta de o Estado não salvar um banco é, os depositantes perderem parte do seu dinheiro. Se Portugal entrasse em incumprimento no que toca à sua dívida, uma consequência direta desse incumprimento seria a falência do sistema bancário português e a perda parcial, mas em montantes significativos, dos valores depositados nos bancos portugueses.

É uma situação impossível querer por um lado que os depositantes não percam parte do seu dinheiro, por outro querer que os Estados não salvem os bancos e geralmente, dizer ainda que os países não devem pagar as suas dívidas (que são ou eram consideradas um investimento seguro e usadas como colateral junto do BCE e investimento pelos bancos com o dinheiro depositado pelos contribuintes). Também não se pode pedir aos restantes países da União Europeia (Portugal incluído) que emprestem montantes ao Chipre que seriam impossíveis de pagar.

Pela parte que me toca, a decisão deveria sempre ter sido deixar-se falir os bancos e assegurar a proteção dos montantes relativos às garantias bancárias. O Estado não pode dizer num momento que os montantes até 100.000€ estão protegidos, e depois, subitamente, "taxar" (roubar seria uma descrição mais aproriada), parte desse valor. Em termos práticos, a economia do Chipre está falida. O Chipre irá ter que criar novas fontes de rendimentos e sofrer muito durante os próximos anos. Mas, tal deve-se exclusivamente às suas apostas estratégicas. O Chipre deveria ter assegurado uma melhor regulação dos seus bancos, para evitar este tipo de problemas, bem como, diversificar as suas "indústrias", por forma a não ficar demasiado dependente de uma, como é o caso.

Re: Sobre a história recente do Chipre

Goncalo Gomes (não verificado) on Quarta, 27/03/2013 - 14:33

olhando exclusivamente para a "caixinha Chipre", a coisa até ficava analisada... No entanto, já q se deu ao trabalho d aprofundar, ficava-lhe bem, e era oportuna, uma referência à caixinha Islândia ou até mm à caixinha Irlanda. Caraças das caixinhas q estão todas empilhadas...

Retrato de Luís Lavoura

Luxemburgo

Luís Lavoura on Quarta, 27/03/2013 - 16:33

E também se poderia falar da caixinha Luxemburgo. Segundo apareceu num artigo no Expresso, o setor bancário do Luxemburo é muito maior relativamente ao PIB do que o do Chipre, tem muitos mais depósitos de firmas russas (o Luxemburgo é o maior investidor do mundo na Rússia), e é muito menos transparente em matéria de combate ao branqueamento de capitais.

Ou seja, o único azar do Chipre foi os seus bancos terem sido gananciosos de mais, terem apostado demasiado na dívida grega...

isso mesmo! A expressão

Goncalo Gomes (não verificado) on Quinta, 28/03/2013 - 20:04

isso mesmo! A expressão "único azar" resume tudo. Chipre é apenas mais uma peça dum efeito dominó porque "everybody's driking the same Kool-Aid". Ou seja, a maneira como o texto está escrito, dá a ideia que o Chipre estava mesmo a pedi-las, quando na verdade se limitou a ser uma espécie de Suíça...

invertebrados

zeca marreca de braga (não verificado) on Quarta, 03/04/2013 - 13:41

Só uma nota:
se os pseudo-liberais de pacotilha, não fossem como o camilo lourenço e percebessem alguma coisinha de história saberia que não foi por mero "azar" que chipre investiu na grécia, foi porque os cipriotas, são, efectivamente gregos no que concerne à nacionalidade, mas isso é pedir demais a um liberal...

Quanto ao resto...bom nem vale a pena comentar, tamanhas são as imbecilidaasdes que correm nas coexões electricaas entre os 2 neurónios que os liberais têm, que não vale a pena...
Quando os ditos cujos liberais se decidirem se devemos apoiar a propriedade (depositos), ou se a devemos confiscar, aind vale a pena discutir. Enquanto se resumirem a uma banalidades e a uma russofobia típica dos IDIOTAS INGÉNUOS, estamos conversados, nós e o povo português, que já viu o quanto a coluna vertebrl destas enguias liberais vale...

Retrato de Luís Lavoura

Sim

Luís Lavoura on Terça, 26/03/2013 - 13:07

Concordo plenamente com o último parágrafo. Só acrescentaria:

"Chipre deveria ter assegurado uma melhor regulação dos seus bancos, em particular evitando que eles investissem tanto em dívida grega".

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