Retrato de Luís Lavoura

O semanário Sol escandaliza-se hoje com o facto de um diretor da empresa pública RTP ter durante meses gastado à empresa para cima de 600 euros mensais em telefonemas.

O Sol faz bem em escandalizar-se, porém deveria saber que isto não se passa apenas com diretores de empresas públicas, provavelmente passa-se também em muitas empresas privadas, e certamente passa-se também, nas empresas públicas, com muitíssimo pessoal de um nível inferior - o qual, tendo pouco que fazer, passa, se lho permitirem, horas a falar ao telefone - as mais das vezes para telemóveis.

Eu quando trabalhava na Alemanha pedi para ter um telefone próprio no local de trabalho. Para aceder à rede pública dispunha de dois códigos distintos: 0 para chamadas de caráter profissional, 9 para chamadas de caráter privado. A fatura das chamadas privadas era-me apresentada todos os meses para eu a pagar à empresa. O empregador só me pagava as chamadas profissionais, mas tinha o direito de investigar os números delas para averiguar se eram de outras empresas do ramo, ou seja, se as chamadas seriam efetivamente de caráter profissional.

Uma vez tentei implementar esse simples sistema no local onde agora trabalho. Foi-me dito (com expressão de surpresa) que o software da central telefónica não permitia tais complexidades. E eu não tenho dúvidas de que muito, provavelmente a larga maioria, do dinheiro gasto pelo meu empregador em chamadas telefónicas o é para chamadas de caráter privado.

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