Na mesma linha da entrada do Luís Lavoura, estou mesmo cansado dos políticos deste país, tal como penso estarão todas as pessoas minimamente responsáveis e conhecedoras da situação financeira do país.
Não quero votar PS nas próximas eleições, mas, infelizmente, a oposição parlamentar também não me está a dar absolutamente nenhuma razão para votar na mesma.
Portugal neste momento tem que cortar drasticamente na despesa pública e privada, sob risco (se já não for uma certeza), de virmos ter que abandonar a zona Euro, com um impacto fortíssimo que isso teria para o nosso conforto económico.
O papel da oposição no meio deste caos (principalmente partidos de "direita" como o PSD e CDS-PP) deveria ser apenas um: exigir cortes orçamentais profundos, até porque, politicamente falando, se herdarem o governo deste país nos próximos anos, não se vão querer certamente confrontar com um país com défices públicos de 10%.
Portugal tem um problema de excesso de consumo para a produção que tem, à semelhança dos EUA. Temos vivido à custa dos outros, endividando-nos todos os anos mais um pouco. Mas não somos os EUA, a China não deve estar interessada em emprestar-nos mais dinheiro, e para nós a festa acabou (tal como irá inevitavelmente terminar para os EUA).
Soluções? Drásticas:
- Corte profundo na despesa pública;
- Subida radical dos impostos, por forma a equilibrar o orçamento, reduzir o défice e reduzir importações (que tem a vantagem de se poderem reduzir no futuro, ao contrário da redução salarial proposta pelo FT, que seria muito mais difícil de recuperar). Parece-me que a subida do IVA e outros impostos sobre o consumo serão inevitáveis, tal como deveria ser criado um novo imposto sobre o consumo de energia eléctrica não renovável (importações!);
- Aumentar as taxas de juro dos famosos Certificados de Aforro, por forma a incentivar os portugueses a poupar e permitir ao próprio Estado poupar (com taxas de 3% ou 4% muitos portugueses estarão certamente interessados em emprestar dinheiro ao Estado). Porque motivo o Estado irá pedir dinheiro ao estrangeiro, se pode ser financiado, pelo menos parcialmente, pelos portugueses, retirando dinheiro do consumo e transferindo-o para melhores tempos?
PS Explicativo: Estas medidas são bastante iliberais, mas derivado a estarmos na zona Euro não vejo outra solução. Se o Escudo ainda existisse o mesmo estaria em queda livre e as taxas de juro baixas nunca teriam ocorrido. A nível político a solução seria por isso mais fácil. Mas termos uma moeda forte tem as suas vantagens e a suas desvantagens. Estamos agora a sofrer as desvantagens e temos que arranjar formas de lidar com elas.














diversos comentários
Luís Lavoura on Quinta, 04/02/2010 - 11:54Excelente post.
Também eu não quero votar PS nas próximas eleições (as quais, pelo andar da carruagem, podem ser em breve) mas, infelizmente, posso vir a ser obrigado a isso, tal é o nível de submissão dos partidos da direita a interesses despesistas instalados.
Aumentar as taxas de juro oferecidas pelos certificados de aforro seria uma excelente ideia - essas taxas, que estão indexadas à Euribor, são hoje inferiores à taxa à qual o Estado português consegue pedir emprestado ao estrangeiro - mas, infelizmente, não resolverá grande coisa, pois a capacidade de poupança dos privados não é grande e, portanto, eles não têm muito dinheiro para emprestar ao Estado.
Subir impostos parece-me muito difícil, por um lado porque a economia não aguenta, por outro porque a fuga aos impostos está cada vez maior. Um imposto sobre a energia elétrica irá prejudicar a nossa indústria (a não ser que se aplique apenas aos consumidores domésticos). O IVA deve andar com um nível de fraude e de fuga muito apreciável. O contrabando de tabaco é cada vez maior, para fugir ao imposto especial.
Luís Lavoura
Respostas
Miguel Duarte on Quinta, 04/02/2010 - 12:53"capacidade de poupança dos privados não é grande"
Podes é criar um problema grave aos bancos, que já estão metidos numa alhada. Neste momento, clientes como eu, que adquiriram casa quando a taxa de juro estava muito baixa, estão a pagar taxas mais baixas ao banco do que aquelas a que o banco se consegue refinanciar no mercado internacional. Ou seja, eu não estou a pagar no meu empréstimo à habitação a crise, sendo que todos os que compram agora casa vão pagá-la e bem.
Pessoalmente, em vez de amortizações antecipadas ao meu banco que é o que fiz recentemente (que o banco agradeceu neste momento), teria mais interesse económico em emprestar ao Estado, desde que a taxa de juro seja superior ao meu empréstimo à habitação, o que não é difícil neste momento. E claro, desde que o risco de incumprimento continue pequeno.
Não resolvia certamente o problema do endividamento externo, mas ajudava as minhas finanças (via poupança) e ajudava o Estado a pagar menos. Era bom para ambas as partes. Quanto aos bancos, é neste momento um problema contratual para ambos e só uma lei excepcional pode vir a resolvê-lo (e acredito que se a coisa ficar muito má, tal é possível, mas terá efeitos secundários graves para o lado de alguns clientes...).
"Subir impostos parece-me muito difícil, por um lado porque a economia não aguenta"
Aguenta se o impacto for para o exterior (é aí que temos que reduzir consumo para equilibrar a balança). Isso significa aumentar o custo da energia para o consumidor final (não para a indústria), o que pode ser feito por escalões para não afectar os consumos essenciais e aumentar ainda mais os combustíveis e os custos de aquisição de viaturas e de todo o tipo de electrónica.
Andar de transportes públicos vai ser não apenas um imperativo ecológico, mas também um imperativo económico. Portugal não tem dinheiro para importar tanto crude e este é um consumo onde se pode claramente reduzir importações.
Quanto à fuga fiscal em termos de IVA, tu não consegues fugir ao fisco geralmente nos bens importados, por isso no que toca ao equilíbrio da balança, tal não é grave. Até tem o seu de positivo, pois ao incentivares a economia informal, que é esmagadormente de produção nacional, estás precisamente a reduzir importações e a substituí-las por consumo interno. A subida dos impostos tem o objectivo principal de reduzir as importações para não reduzir salários, não de reduzir o défice, que na minha opinião deve ser feito com corte na despesa essencialmente.
E eu não referi outra medida dura, mas, com a situação actual, o governo pode-se ver obrigado pelo menos a congelar os salários de todos (públicos e privados), por forma a aumentar a competitividade portuguesa, e tal pode ter que ser feito por vários anos (com a inflação baixa como está, um ano não chega).
Estamos metidos numa grande alhada e muita gente ainda não deu por isso.
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