Retrato de Filipe Melo Sousa

Pareceu-me pertinente retomar este post de Agosto do ano passado.

Talvez algumas pessoas, num contexto que lhes é mais amigável fiquem elucidadas em relação ao que quis dizer na altura.

Apontei a capitulação intelectual como a atitude que consistem em dizer que "a virtude está sempre no meio". Temos então encontrado um algoritmo para dizer onde se encontra a verdade: basta identificar as duas posições mais extermadas em relação a um determinado assunto, e deduzir que a verdade se encontra equidistante. Para quê analizar? Para que estimar? De que servem as considerações científicas, os estudos e as medições?

Outra maneira de expressar a mesma opinião politicamente correcta: dizer "o mundo não é a preto e branco". Temos inevitavelmente que escolher os tons de verdade acinzentados, e nunca um dos abomináveis preto ou branco. Nunca poderemos tomar como certo uma opinião "extremista", mesmo que "ditadura da ciência" aponte nesse sentido.

E volto a citar: "No campo da política, o extremismo tornou-se sinónimo de mal, sem discernir no que alguém extrema a sua posição, mas apenas pelo facto de defender extremamente uma posição (i.e. ser consistente com ela). (...) Nunca existe portanto uma verdade. Apenas a necessidade de um compromisso, um compromisso a todo o custo, em qualquer conflito. Sempre um compromisso."

Volto a referir este post, que de certo modo enfraquece o argumento do Miguel em relação às alterações climáticas, segundo o qual se deve evitar posições extremadas. Dever-se-ia antes, isso sim procurar sempre concilar as duas partes. Conciliar o certo com o errado, o cientista com o cartomante, o culpado com o inocente, o agressor com a vítima, o legítimo com o deturpador. Sempre um compromisso. A qualquer custo, custe o que custar. Desde que se obtenha um compromisso.

Em posições dicotómicas

André Escórcio ... on Sábado, 24/03/2007 - 14:31

Em posições dicotómicas existem sempre dois extremos, assim considerando por exemplo a posição do Miguel contrária ao de outrem este vai ser um extremo.
Estamos a ter uma dicussão científica com base em crenças politicas o que me causa alguma estranhesa.

Em termos científicos julgo que existe consenso, que não é apenas a opinião da maioria dos cientista mas sim a maioria dos cientistas, mais experientes e apoiados em metodologias cientificas mais "exactas".
Estudos existem muitos no entanto nem todos cumprem os pressupostos para serem um estudo cientifico (validade, fidelidade, etc.).
Por exemplo o que o Al Gore apresenta não é um verdadeiro estudo cientifico, tal como não o é muitos dos supostos estudos que o contrariam. Em ciência em cada altura existe uma verdade que reune maior consenso, não quer dizer que essa verdade seja imutável mas é o que se pode afirmar dado o conhecimento cientifico existente em dada altura.

Obviamente que qualquer pessoa é livre de discordar da ciência, embora não ache isso muito correcto em politica sob o risco de se governar através de crenças pessoais, de uma forma ultra subjectiva. Quem discorda da ciência de forma gratuita nunca poderá fazer politica pois nunca poderá aceitar uma realidade (futura, presente ou passada) sob o risco de se tornar incoerente.

Talvez o Filipe ache

pedro viana (não verificado) on Sábado, 24/03/2007 - 01:07

Talvez o Filipe ache estranho, mas concordo a 100% com o que ele escreve.
No entanto, a sua última afirmação trai uma incompreensão do conceito de compromisso:

"Sempre um compromisso. A qualquer custo, custe o que custar. Desde que se obtenha um compromisso."

Os compromissos são habitualmente feitos exactamente porque custaria mais a todos obrigar uma das partes extremadas a vergar-se à vontade da outra. O compromisso, a diplomacia, não é uma diletância, resulta objectivamente da procura da solução com menos custos.

Isto, obviamente não tem nada a ver com disputas ideológicas, inclusivé entre cientistas e "crentes", nas quais não há necessidade de compromisso. O compromisso só pode vir a ser necessário quando se trata de discutir a tomada de acções concretas. Mas o Miguel, talvez por não querer ser "antipático" com ninguém, parece achar que mesmo nas situações de conflito idelógico há um meio-termo onde mora a "razoabilidade". A isto chamaria abdicar da razão e da capacidade de pensamento crítico. Será que se acha Liberal porque acha que é uma ideologia de compromisso, que está no meio-termo entre o socialismo e o conservadorismo, o anarquismo e o totalitarismo? Afinal todos devem ter alguma razão, e portanto o elhor é misturar as opiniões de todos e ver o que pode sair daí....

Retrato de Miguel Duarte

Uma grande gargalhada

Miguel Duarte on Sábado, 24/03/2007 - 10:48

"Mas o Miguel, talvez por não querer ser "antipático" com ninguém, parece achar que mesmo nas situações de conflito idelógico há um meio-termo onde mora a "razoabilidade". A isto chamaria abdicar da razão e da capacidade de pensamento crítico. Será que se acha Liberal porque acha que é uma ideologia de compromisso, que está no meio-termo entre o socialismo e o conservadorismo, o anarquismo e o totalitarismo? Afinal todos devem ter alguma razão, e portanto o elhor é misturar as opiniões de todos e ver o que pode sair daí...."

Muito pelo contrário, eu decidi optar ser antipático com toda a gente ao procurar o meio termo. Não se se percebeste mas recebi a antipatia da malta fundamentalista do aquecimento global (que são muitos) e certamente dos que tu chamas de neo-conservadores que também não devem ter ficado nada contentes que também a eles lhes chamasse radicais. Teria sido muito mais confortável ir na onda do politicamente correcto e alinhar com a maioria, embora muito menos útil para a discussão para chegarmos à verdade dos factos.

Sabes, eu sou liberal porque dou valor à liberdade acima de tudo. E entre elas, encontra-se a liberdade de expressão e de pensamento. O direito a criticar quem nos apetece é importantíssimo, tal com é, saber escutar o outro lado, mais não seja para confirmar as nossas ideias.

Pura e simplesmente nem os ambientalistas radicais, nem os anti-ambientalistas radicais têm razão, mas todos eles dizem algumas coisas acertadas. Na minha "modesta" opinião, nenhum deles é detentor da verdade, nem tenho a mínima intenção de ser concensual. Simplesmente considero a minha visão muito mais acertada e por isso a exprimi.

"recebi a antipatia da malta

pedro viana (não verificado) on Sábado, 24/03/2007 - 18:40

"recebi a antipatia da malta fundamentalista do aquecimento global"

E ele insiste! Mas que malta fundamentalista é essa?! A que acha que se deve agir de acordo com o consenso científico, como eu?! Agora aceitar conclusões da comunidade científica é ser-se fundamentalista?!! Vamos lá recapitular: achas que o método científico é ou não aquele que melhor pemite interpretar a realidade e prever acontecimentos futuros? É uma pergunta simples... se sim, então deves aceitar as conclusões de quem o aplica, e não escolhe-las consoante o gosto. Simples. Chama-se coerência.

Retrato de Miguel Duarte

Fundamentalistas

Miguel Duarte on Domingo, 25/03/2007 - 00:00

Queres um exemplo de fundamentalismo ambientalista? Vê o filme do Al Gore e já agora, revê os "factos" que ele indica no filme à luz da ciência. Verás que ele diz muita asneira.

Se releres o texto que eu escrevi, verificarás que eu obviamente não coloco em causa o aquecimento global e até afirmo que desconfiamos que seja por nossa culpa, algo que à luz da organização que tem tomado a dianteira nestas coisas é completamente correcto, dado que essa organização dá-lhe 90% de probabilidade de ser por nossa culpa (IPCC).

E não confundas modelos que são projecções com o método científico na sua totalidade. Quanto muito são a "hipótese" do método científico. Para provares o quer que seja, a nível do nosso planeta, vais ter que esperar muitos anos. Ou seja, alguém (varios cientistas) colocou a hipótese que a temperatura, devido ao aquecimento global iria aumentar entre 1.1 to 6.4 °C até ao fim do século. E também colocou a hipótese, atribuindo-lhe um grau de confiança de 90%, que nós somos os principais responsáveis por esse previsível aumento de temperatura.

A verdade nua e crua é que tu tens muitas conjecturas, muitos modelos com as limitações que sabes que todos os modelos têm, etc., certezas, não temos nenhumas (temos probabilidades elevadas). Se me perguntares se eu pessoalmente acredito que existe aquecimento global e que ele é provocado pelo homem, sim, eu acredito (a probabilidade é elevada). Se isso é um facto científico daqueles que estão já provados pelo método científico, não, não é. Quantas vezes é que a ciência se enganou nas suas teorias, teorias essas que até tiveram épocas de aceitação geral? Muitas. Não acredito que esta seja mais uma dessas teorias, mas, certeza, certezinha, ninguém pode ter. Quem a tiver, não está a agir racionalmente.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Por uma questão de honestidade

Filipe Melo Sousa on Sábado, 24/03/2007 - 20:59

Que as actividades humanas causam aquecimento global, está acima de qualquer dúvida. Pode-se tentar discutir o alcance deste aquecimento, ou quanto do aquecimento actual é devido à actividade humana, mas a leitura é clara, e a interpretação dos dados é fácil para quem quiser cruzar e confrontar dados, pois as leituras da temperatura do planeta estão visíveis a todos, assim como os dados das emissões de gases provocando efeito de estufa.

Que essa tomada de consciencia tenha uma maior prevalência entre pessoas que na maior parte das vezes tenham convicções políticas diferentes das minhas, é irrelevante e não altera a veracidade desta conclusão. Que as mesmas pessoas noutros campos só digam disparates, isso não altera a veracidade desta conclusão.

Que os políticos com quem eu mais me identifico ignorem as consequências dessas actividades, ou não estejam dispostos a investir para inverter esta tendência, é completamente irrelevante, e não vai alterar o que eu penso sobre o assunto.

Que haja uma grande maioria de pessoas a defender essa conclusão, e que esse grande número de pessoas esteja em linha com a comunidade científica, não é um factor suficiente para suportar a veracidade desta conclusão: a terra aquece devido às actividades humanas. É uma conclusão sobre a qual não há que buscar qualquer compromisso. Eu obviamente não gosto desta conclusão, mas tenho de encarar as suas consequências.

Retrato de Miguel Duarte

Tens que procurar quem tem razão

Miguel Duarte on Sexta, 23/03/2007 - 19:14

Não se trata de procurar o "meio termo", trata-se de perceber no meio de opiniões divergentes, onde está a razão e saberes que raramente a razão está toda de um lado. Até pode ser que esteja, mas é mesmo muito raro.

Além de que neste caso específico não há um tópico em discussão, há muitos, e quem tem razão num, pode ter em outro. Ex:

- Está a existir aquecimento global?
- A existir, ele é humano ou natural?
- Qual é a sua amplitude? É muito danosa?
- Sendo humano, é possível pará-lo?
- Sendo possível pará-lo, os custos/benefícios compensam?
- Se não é possível pará-lo, o que devemos fazer?

É um tema que dá para discutir muito e como cada cabeça tem a sua sentença, vais ter muitas opiniões.

Podes dizer que a cada uma das perguntas que te coloquei, existe uma resposta correcta. E eu vou-te dizer que sim, matemáticamente certamente que existe uma resposta correcta ou óptima? Noutras é um pouco relativo. Por exemplo, um custo para resolver o problema poderia ser ter que invadir os EUA para que eles mudem a sua política energética. Se calhar para alguns ecologistas mais radicais, até fazia sentido esta opção, para mim e para ti, certamente não faz sentido.

Também, nos dois extremos que apresentei, existem interesses políticos no meio e ideologias. A própria ideologia distorce a percepção da realidade (desculpa, distorce a realidade de todos, excepto, os objectivistas como tu :P). Ambos, também estão naturalmente a radicalizar o seu discurso para serem ouvidos. O filme de Al Gore nunca teria sido um sucesso se tivesse dito que os oceanos iam subir, mas muito menos, e que os edifícios em Nova Iorque nunca iriam ficar submerssos em água ("apenas" inundados). Ou que o calor diminui o número de tempestades (fica tão bem no filme mostrar tempestades). Por outro lado, quem teria comentado a Melanie, se ela não tivesse sido radical (eu nem saberia que ela existia)? Provavelmente, na vida real, ela nem é assim tão radical. Apenas o é quando escreve ou fala em público, para ter atenção.

Se queres ser objectivo, tens que compreender bem a realidade, caso contrário a subjectividade dos outros vai afectar a tua objectividade. Aliás, objectivamente, ninguém é 100% objectivo (ok, ok, talvez tu). ;)

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