Retrato de João Cardiga

Bem sei que não existe o hábito, salutar, de discutir a religião em Portugal e muito menos existe o hábito de discutir os problemas que a maior igreja – a ICAR – tem ou enfrenta. No entanto, julgo que a vinda do Papa, por mais polémica que seja, é um excelente motivo para tal exercício.

A discussão é sempre difícil e normalmente circular. A ICAR tem multifacetas, e normalmente, no meio desta discussão utiliza-se a faceta que mais convém. Um bom exemplo disso é a discussão em torno dos dinheiros públicos gastos com esta recepção. Se é verdade que é polémico a utilização deste dinheiro na chegada de um líder religioso, não tem qualquer polémica que o mesmo seja utilizado na recepção de um chefe de estado. Pelo que normalmente é esta ultima “versão” do Papa que é utilizado. Claro que a recepção do Papa enquanto Chefe de Estado é algo muito polémico, porquanto o mesmo é chefe de um Estado Teocrático e Segregacionista - onde a discriminação do género é lei - entre outras coisas que caso fosse outro Estado qualquer nos faria ter vergonha de tal recepção. Obviamente quando a discussão chega a este ponto, o Papa deixa de ser chefe de Estado e passa a ser líder religioso e lá voltamos nós ao início da discussão.

Mas não é sobre esta discussão circular que quero reflectir. Para mim é muito mais importante reflectir sobre um problema muito sério desta instituição: os inúmeros escândalos de pedofilia. Não sei se é por falta de hábito de discussão, se por desinteresse, a verdade (com v pequeno) é que existe um silêncio muito grande sobre este tema. E este silêncio é para mim assustador.

Para quem tem andado distraído tem aqui um link no wikipedia que faz um apanhado sobre esta temática. Assim como está aqui outro que faz um breve resumo dos diversos escândalos por país.

A pedofilia na ICAR não é um caso esporádico, mas antes, diria mesmo, um caso endémico. Para além do mega caso dos USA, dos casos do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, o ano passado trouxe o caso brutal da Irlanda e agora o caso da Alemanha, Áustria e Holanda. Mais, começa a existir a suspeita, de que o próprio Papa possa ter algum envolvimento no encobrimento, pois na Alemanha aconteceu na diocese de Munique enquanto ele era Bispo.

No meio de vários discursos e mensagens em torno desta polémica existiu uma frase, dita pelo Arcebispo Silvano Maria Tomaso da Santa Sé, que captou a minha atenção:

"We know now that in the last 50 years somewhere between 1.5% and 5% of the Catholic clergy has been involved in sexual abuse cases,"

Indo à procura de quantos clérigos nós temos, cheguei a esta página que me diz que em 2006 existiam 4.193 clérigos (entre bispos, padres e diáconos). Ora aplicando a taxa aceite pelo Arcebispo chegamos à conclusão de que existem em Portugal cerca entre 63 a 210 clérigos abusadores em Portugal. O que para mim é um número bastante assustador, pois se os mesmos abusarem tiverem abusado de 1 criança em média por ano, tal significa que, no período que o Arcebispo faz referência, entre 3.145 a 10.482 crianças foram abusadas em Portugal.

E isto é um número bastante elevado (para mim bastava uma para ser elevado) para continuarmos com este silêncio em Portugal. É um perigo que sempre esteve connosco e que continuará a existir enquanto o silêncio na sociedade e dentro dessa instituição imperar!

Retrato de Luís Lavoura

normal

Luís Lavoura on Segunda, 15/03/2010 - 14:59

Longe de ser meu desejo ilibar a Igreja Católica de quaisquer crimes, mas faço notar que a pedofilia, hoje em dia tão odiada e temida, era encarada como algo de razoavelmente normal e não condenável há umas décadas atrás. Era assim como os maridos baterem nas mulheres - algo que não é propriamente bonito mas que se entendia que as pessoas podiam fazer sem serem castigadas por isso. Talvez a pedofilia até fosse um crime, de acordo com a lei, mas nunca ninguém era perseguido por ela. E a sociedade passava uma esponja sobre o assunto.

Quero com isto dizer que aquilo que a Igreja durante muito tempo tolerou foi aquilo que a sociedade em geral nesse tempo também tolerava. A Igreja não deve ser agora vilipendiada por ter tido essa atitude.

Retrato de João Cardiga

Não é uma questão de

João Cardiga on Segunda, 15/03/2010 - 15:31

Não é uma questão de vilipendiar mas sim de falar e discutir, algo que a ICAR carece de. É vital prevenir que tais comportamentos voltem a acontecer, e muitos dos casos que vieram a publico são bastante recentes...

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